CESAR VANUCCI *

“O receio de que a sirene soe de repente tira o sossego da gente”. (De um morador de Congonhas do Campo)

Mas que horror, Santo Deus! Ver ressuscitados, volta e meia, temores provocados por tremores nas minas onde se processa predatória exploração das incomensuráveis jazidas minerais do rico subsolo das Gerais! Quando é que cessará o terrível pesadelo que alveja, impiedosamente, a tranquilidade dos lares de milhares de pessoas residentes nessas áreas de risco? O que vai ser preciso fazer, em termos de tecnologia avançada, para espantar de vez as apavorantes perspectivas de rupturas letais dos diques de contenção dos rejeitos? Como é que fica, de outra parte, esta flamejante questão das responsabilidades técnicas e de gestão administrativa diante das irreparáveis perdas comunitárias? Perdas originárias de obras de represamento mal concebidas e que podem se esfacelar, como já aconteceu, eliminando vidas preciosas e destruindo cenários exuberantes de vida? Refletir sobre tudo isso, sobre delitos ambientais perpetrados em função de desmesuradas ambições por ganhos, é imprescindível. Quando pouco para acautelar respeitáveis interesses coletivos nas liberações de empreendimentos com implicações no meio ambiente.

Tremor de magnitude de 3,2 na escala Richter, com epicentro em Belo Vale, região central das Alterosas, território povoado de barragens de duvidosa segurança, gerou no último dia 26 de novembro compreensível pânico. Outra vez mais. Milhares de moradores da histórica Congonhas do Campo reviveram dramáticos momentos de sobressalto. O abalo sísmico mobilizou o pessoal da Defesa Civil. Nasceu daí expressa recomendação às empresas de exploração mineral com atuação na área para que reforçassem o monitoramento de todas as estruturas de rejeitos de minério das cercanias. O indesejável evento permitiu fosse relembrado algo assaz desconfortável: neste ano de 2019 já foram registrados naquelas bandas 43 tremores (bota tremor nisso!), sendo que o de agora, dentre eles, ganhou destaque por ter sido o de mais forte intensidade.

Está claro que a peremptória manifestação dos setores técnicos incumbidos do monitoramento, no sentido de que tudo estaria sob controle, não foi de molde a desfazer a intranquilidade. A barragem conhecida por “Casa de Pedra”, pra ficar no exemplo mais frisante, pertencente à CSN Mineração, com 50 milhões de metros cúbicos de mortíferos resíduos, localizada a apenas 300 metros de bairros residenciais, acha-se enquadrada em matéria de riscos na assim denominada “classe 6”. No tocante a danos potenciais, trata-se da classificação mais elevada. Não há que ignorar, por outro lado, que sua estrutura vem acusando problemas de estabilidade desde 2013.

Os registros de que o abalo mencionado foi “moderado”, podendo vir a ser acompanhado de outros, as chamadas “réplicas”, mas (ora, veja, pois!) “com grau inferior ao do primeiro (abalo)”, não arrefecem, obviamente, os temores gerais quanto aos tremores constantes. Inevitável, aqui, tétrica associação de ideias. Em Mariana, duas horas antes do Fundão despencar, foram detectados também alguns abalos sísmicos. Só que… menores na escala Richter (2,6)!

Esse quadro perturbante relacionado com as descomunais crateras de rejeitos espalhadas por aí, fazendo reféns do desassossego imensas coletividades, deixa suspensas no ar martirizantes interrogações. Vai dar, nalgum instante, para os indefesos e perplexos cidadãos que vivem nas áreas afetadas por riscos tão terrificantes dormirem tranquilos com um barulhão desse tamanho? A mesma impactante pergunta, já aí soando como um libelo acusatório, carece ser igualmente formulada com referência àqueles que, em diferenciadas circunstâncias, se deixaram emaranhar por decisões danosas e imprevidentes, quer como gestores de negócios altamente rendosos, quer como técnicos, nas práticas predatórias levadas a cabo na região sob ameaça? Será que vai dar pra eles dormirem com peso tão avolumado na consciência?

Jornalista ([email protected])