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Cesar Vanucci*

“O Brazil não merece o Brasil”. (Comecinho da linda canção “Querelas do Brasil”, de Aldir Blanc)

Contando assim, parece até história inventada. Não é. Antes sesse, como diria, em sua saborosa maneira de expressar, algum matuto dos chapadões sem fim lá das bandas do Triângulo. Uma agressão, outra a mais, à cultura brasileira estaria deixando de ser, assim, praticada. Mas o fato real, verdadeiro e contundente, é que recebi, à época em que estava diretor da TV Minas, convite para participar de evento no Riocentro, todo ele, o convite, da primeira a última linha, face e verso, redigido em inglês.

Achei, num primeiro instante, que estaria havendo, de minha parte, algum erro de percepção. Não estava. Li e reli o convite. Vasculhei o interior do envelope à cata de possível informe adicional, apegando-me ansioso à hipótese de descobrir algum registro, no idioma falado em meu país, com explicação razoável para a inusitada comunicação.

Nada encontrei. Não havia motivo pra dúvida. O convite endereçado ao cidadão brasileiro, profissional de comunicação no Brasil, para debater as atividades do setor, envolvendo a participação, seguramente em maioria, de colegas também brasileiros, a ser realizado num centro de convenções brasileiro, em cidade brasileira, o convite, repito, estava formulado em língua estrangeira. Algo de um surrealismo arrepiante. O cúmulo dos absurdos. O fim da picada, como se diz em tom de desabafo. Um sinal alarmante a mais da onda abobalhada de estrangeirices que nos assola. Onda hiper ativada na panaquice, na indigência cívica e intelectual. Em frescurice ampla, geral e irrestrita.

Outro lance constrangedor nessa historinha insólita é que as respeitáveis organizações brasileiras que assinavam o convite mantiveram-se indiferentes aos impropérios perpetrados contra nosso idioma e nossa cultura. Tenho dito e repetido que o emprego de vocábulos estrangeiros, na palavra falada e escrita, para classificar coisas óbvias do cotidiano, recende a tremenda babaquice.

Desqualifica intelectualmente os deslumbrados da silva que, junto com pessoas desavisadas, fazem coro com prováveis inimigos clandestinos, interessados na corrosão, por dentro e por fora, das instituições e dos valores mais sagrados da autêntica cultura brasileira. Não há como deixar de imaginar faça isso parte de um trabalho articulado, manhoso, sorrateiro, com o qual se busque inocular no espírito popular a idéia perversa e falsa de que somos, os brasileiros, cidadãos de segunda classe. Criaturas sem capacitação para gerir o próprio destino. É aquela história cretina, rechaçada em rotineiros exemplos na atuação comunitária, de um país que teria sido agraciado por Deus com dons naturais sem igual, mas povoado por uma “gentinha” nem tanto…

Recapitulemos o que vem pintando no pedaço. Convites em idioma alheio. Painéis de rua, cartazes de loja, reclames, tudo em língua estrangeira. Propaganda abundante na mesma linha pedante. São facetas da intolerável invasão cultural, que atinge, também, de forma estrepitosa, a programação radiofônica e televisiva. Numerosas emissoras se entregam, inadvertidamente ou levianamente, ao capricho de substituir, na maior parte do tempo, os sons incomparáveis da música mais linda e criativa do mundo, a brasileira, pelo barulho insuportável, lembrando utensílios de cozinha caindo da prateleira, do lixo musical internacional. Ainda recentemente, em carta a conhecido, um brasileiro que vive nos Estados Unidos sublinhou, com ironia, que em instante algum, ao sintonizar, de manhã cedinho, as rádios locais, se sentiu distanciado do Brasil. “As emissoras daqui, como as daí, só tocam música americana. Sinto-me em casa”, disparou.

Voltarei ao tema.

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)