Crédito: Ueslei Marcelino/REUTERS

Carlos Perktold *

Romário é um cãozinho shit-zu branco com manchas marrons, cujo único desejo é ficar ao lado deste articulista. Foi-nos presenteado há uns 14 anos e nos últimos meses tem sofrido com surdez e muita sonolência que não o deixa perceber quando me retiro de perto dele. Ao descobrir-se sozinho, sai a minha procura pela casa, olhando para o alto, porque entre seus sofrimentos está também a perda do olfato, que o impede de seguir meu rastro. Ao me encontrar, demonstra toda sua alegria, lealdade e gratidão, sobretudo no seu olhar que emociona a todos na casa.

Quando relato isso para alguns amigos, eles me esclarecem que os cães são assim por que desconhecem dinheiro, não sabe do que a grana é capaz e nem passa pela cabeça deles, que ela pode ser acumulada, gasta e é transformadora das pessoas. Ao explicarem tudo isso, eles estão também me dizendo que, se os cães conhecessem dólar, euro e reais, não seriam leais e nem teriam gratidão. É uma maldade com quem trocamos tanta alegria e amor e uma projeção psicológica de quem fala.

Pensei tudo isso ao longo da semana passada quando a nova crise política criada entre o presidente do País e aquele do PSL se tornou tema dos jornais e da mídia em geral. Um deputado alegou que “explodiria” o presidente com certa gravação e se diz “traído” porque batalhou pela eleição de Bolsonaro e ele anda descartando os amigos de longa data como o deputado ofendido, generais, ministros nomeados e depois demitidos por ingratidão do presidente, incluindo o ex-senador Magno Malta e o próprio PSL.

A crise começou por causa do dinheiro, aquilo que os cães desconhecem, e que hoje vem para o caixa dos partidos a partir de uma aberração política, o fundo partidário, criado depois que foi proibido o financiamento de campanhas políticas por empresas privadas, eterna fonte de corrupção.

O PSL era um nanico perante outros partidos da velhíssima guarda e se tornou um gigante político e financeiro com o dinheiro público que aportará na sua tesouraria no próximo ano, depois do seu crescimento com a eleição do presidente e de mais de cinquenta deputados. É uma grana preta para gastar na campanha do próximo ano nas prefeituras e câmaras de vereadores pelo País afora, base de muitos graúdos pensando em reeleição. A crise surgiu porque o presidente do PSL, aparentemente, não quer prestar contas do que já recebeu e não quer a interferência presidencial em indicações de candidatos às prefeituras de grandes cidades, importantes e com orçamentos recheados. O partido quer distribuir a dinheirama a partir de critérios do seu presidente e Bolsonaro não quer permitir isso. Afora os misteriosos bastidores, esta é a receita da atual crise.

Além disso, há o embate dos filhos 02 e 03 com vários caciques do mesmo partido. Eles não perdem uma chance de jogar gasolina nas fogueiras que eles mesmos acenderam, sobretudo aquelas que começam a se apagar e jogam mais combustível naquela nascida no conflito entre os dois presidentes e seus partidários. Como todos sabem, não é somente nas decisões do partido que esses meninos gostam de interferir. Eles e seus tuiters passaram a ser apêndices da Presidência, algo muito inconveniente, dando ordens, opiniões e ofensas pessoais como se tivessem recebido votos e procuração dos eleitores do pai para agirem como parte do governo. Eduardo Bolsonaro quer ser embaixador do País em Washington. Pois que ele vá, assim ficamos livres de um criador de problemas e conflitos.

Há algum íntimo da família para esclarecer ao presidente que os eleitores votaram nele e não na família? Há alguém para explicar a Bolsonaro que não se abandona amigos do peito de anos e que um mínimo de gratidão é um tempero necessário para uma amizade duradoura? Ninguém pede ao presidente e a sua família a mesma gratidão do nosso shit-zu, mas um mínimo dela pode facilitar seu governo e uma eventual reeleição e a falta, dificultar ou impedir.

*Advogado, psicanalista e escritor