Crédito: Paola de Orte/Agência Brasil

Tilden Santiago *

Qual a essência da atual política externa brasileira? Responder a essa indagação é muito mais importante para a opinião pública do que gastar tempo e palavras vociferando contra o nepotismo do presidente, ao indicar o mais incapacitado dos seus filhos, o 3º, para ser embaixador do Brasil em Washington. Logo em Washington!

Como embaixador, ex-deputado federal, filósofo e teólogo, tento entender o significado da política externa que nasce.

Hoje para entender melhor a essência da política externa de Bolsonaro, tenho telefonado a vários colegas, velhos embaixadores brasileiros e estrangeiros e amigos diplomatas, entre eles, José Leite Fonseca e Miguel Torres. Leio e estudo, sobre tudo, as análises de Samuel Pinheiro Guimarães (meu secretário-geral do Itamaraty e Ministério de Assuntos Estratégicos: 2009 a 2010). Acreano, arguto intelectual e professor do Instituto Rio Branco, exímio conhecedor das diferentes culturas do Planeta Terra.

Samuel tem razão: O governo do presidente Jair Bolsonaro, de seu mentor espiritual e político, o astrólogo Olavo de Carvalho, de seu chanceler Ernesto de Araújo, de seu superministro Paulo Guedes, de Sua Eminência Parda, o deputado Eduardo Bolsonaro (3), está determinado a reorientar radicalmente toda a política externa brasileira. Essa reorientação objetiva um realinhamento de toda política externa brasileira à política do governo de Donald Trump, a começar pelo apoio excessivo e desequilibrado a Israel e entrada inócua na briga de cachorro grande entre EUA, China e Rússia .

Com Bolsonaro, o Brasil passou a ter não apenas uma política exterior, mas uma política geral de governo, atendendo antecipadamente e sem qualquer reciprocidade as reivindicações históricas dos EUA: redução da união ao mínimo (funcionários e organismos), transferências de competências da União para Estados e municípios; privatização geral; desregulamentação geral e autofiscalização pelas empresas; abertura radical da economia e do setor financeiro; redução da Petrobras, maior empresa brasileira em uma pequena empresa não integrada de petróleo; privatização de todos os bancos estatais; autonomia do Banco Central; concessão de base militar em Alcântara; destruição dos programas estratégicos, como o do submarino de propulsão nuclear; enfraquecimento da Chancelaria brasileira pela quebra da hierarquia e pela inexperiência das novas chefias.

Na Câmara Federal, em Brasília, houve bate-boca entre bolsonaristas e oposição, sobre a indicação de Eduardo Bolsonaro para Washington. Alguém lembrou que também Lula nomeou três políticos em 2003: para Roma, Itamar Franco; para Lisboa, Paes de Andrade; e esse escriba para Havana.

Manifesto publicamente meus agradecimentos aos parlamentares, entre eles o amigo Júlio Delgado pela defesa que fizeram de nós três (dois deles hoje nos corredores do eterno infinito).

Só aceitei minha indicação para embaixador, porque fui antes por 6 anos um apóstolo itinerante, sacerdote-operário pela Europa e pelo Oriente Médio, falando seis línguas, vivendo e trabalhando entre gregos e troianos, entre europeus italianos, franceses e belgas, entre judeus israelenses e árabes palestinos e jordanianos, me encantando com as culturas mais diferentes e ricas, apaixonado com a ¨filosofia, com as Humanidades, Latinidade, a Teologia e as ciências  ensinadas no seminários de Mariana e depois na Roma dos jesuítas da Universidade Medieval da Gregoriana, na Roma dos césares e dos papas. Para Lula, pesou mais que companheirismo da luta sindical e política, os três milhões e trezentos mil votos que recebi dos eleitores mineiros para o Senado em 2002. Tecerão as Parcas que em vez do Senado, eu seguisse para embaixada de Havana. Mais grave que o nepotismo e a incapacidade do Bolsonaro 2 são os absurdos cometidos pelo trapalhão seu pai nesses poucos meses e pelos filhos – aos quais se somam o seu mandato de embaixador, se acontecer.

É desse obscurantismo de ultradireita e retrocesso histórico que emerge o embaixador Bolsonaro 3.

Senão vejamos:

1 – a defesa do trabalho infantil, algo grotesco e inconstitucional;  

2 – a declaração mesquinha sobre João Gilberto – sinal que o presidente não deixou de ser um deputado bizarro que ocupou por 28 anos o mandato parlamentar, sem relatar um único projeto;

3 – não construiu pontes nem dialogou;

4 – sequer entendeu a reforma da Previdência a que se propôs;

5 – manifestou posições histéricas em questões  de direitos humanos, homofobia com declarações impensáveis.

Difícil de imaginar um Getúlio, JK, Milton Campos, Afonso Arinos, Sarney, Brizola, Arraes, Itamar, João Goulart, Hélio Garcia, Tancredo, Aureliano, Israel Pinheiro, Rondon Pacheco, Bias Fortes, um dos Andradas, Clovis Salgado, Arthur Bernardes, Epitácio Pessoa, Afonso Pena, Rodrigo Alves, Marechal Hermes ou Deodoro indagando: ¨Cadeirinha é muita chato né?¨Essa indagação só pode nascer da boca de quem carrega mania de armas e perseguição a Conselhos Comunitários e Ongs,as universidades, ao IBGE, `A Fio Cruz, ao Ibama, ao Denatran – a tudo que seja impregnado de humanismo e espírito científico.

Fazer um filho embaixador, em Washington, não é nada em vista das incongruências presentes tanto na política externa quanto na política interna desse governo.

*Jornalista, embaixador e filósofo