Crédito: Washington Alves / Reuters

De 2013 para cá, embora o assunto seja evidentemente bem mais antigo, corrupção na esfera pública virou assunto dominante no País, com todas as atenções voltadas para a Operação Lava Jato, que virou uma espécie de símbolo do que de pior possa existir na administração pública. Ainda que com alguns desvios que deixaram dúvidas quanto à correção dos processos investigatórios e acusatórios, bem como a seus exatos propósitos, é fato objetivo que progressos relevantes podem ser contabilizados, talvez, sobretudo, as evidências de que a corrupção se transformou num processo generalizado, em prática corriqueira em que os casos mais escandalosos, como o da Petrobras, o mais notório de todos, são apenas parte de um problema bem maior, sobre o qual fica a impressão de que muita coisa ainda está por ser feita.

Não estamos falando dos grandes escândalos, daqueles alojados no coração da República. Estamos tentando olhar, e chamar atenção, para o outro lado, para a rapina ainda silenciosa, merecedora de pouca ou nenhuma atenção, que ocorre nas laterais, nas partes menos visíveis, mas que de grão em grão muito provavelmente produzem, somados, um rombo ainda maior que os transformados em manchetes. Estamos falando, por exemplo, da funcionária lotada na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, recebendo todos os meses, religiosamente, mais de R$ 20 mil reais, mas que vive na Flórida, nos Estados Unidos. O caso, pilhado pela imprensa, está longe de ser exceção, embora evidentemente nem todos os fantasmas vivam em Miami. Ao contrário, se contam aos milhares, fazem parte de uma rotina que envolve os três poderes, está espalhada pelo país inteiro, representa um desvio que não pode ser tolerado e significa abuso que a sociedade, contribuintes, não deve tolerar.

Um exemplo entre muito outros, que estão longe das manchetes e envolvem também, em todos os níveis e esferas da administração pública, desvios como superfaturamento, obras que recebem verbas, mas não saem do papel, pagamentos inapropriados e indevidos e por conta exatamente dos abusos praticados desde muito tempo, com o topo da pirâmide distribuindo favores exatamente para se sustentar. É o lado oculto de um problema que não veio à tona, não merece consideração, está pulverizado e absolutamente fora de controle. Como a compra de livros escolares que, sem nenhuma utilização, acabam vendidos como papel velho. É evidente que não se trata de acidente, mero descuido ou até incompetência. Alguém está ganhando enquanto perdem escolas, estudantes e contribuintes. Perde o País inteiro, que finge não perceber que está sendo roubado o tempo todo.