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A pandemia do coronavírus, ainda um pouco distante de atingir seu pico, assombra o planeta e produz reações contraditórias. Na Europa, países mais atingidos, Itália e Espanha, recebem apoio direto da Alemanha, mais afortunada nas circunstâncias, além de pessoal médico e equipamentos mandados pela China e Rússia, tudo isso numa ação integrada e solidária.

Do outro lado do Atlântico, onde a gripe atingiu os Estados Unidos de maneira inesperada, as reações têm sido bem diferentes, moldadas pelo perfil do presidente Donald Trump, cuja campanha, não nos esqueçamos, tinha como slogan “America first”, tomada ao pé da letra quando o presidente manda desviar equipamentos médicos, já embarcados na China e destinados à Alemanha, França e Brasil, ou quando, invocando leis da Segunda Guerra impede a 3M de exportar máscaras de proteção para o Canadá e países da America Latina.

Sobre o assunto, a própria empresa já afirmou em nota que “há implicações humanitárias significativas decorrentes da suspensão do fornecimento de máscaras para trabalhadores da saúde”.

Agredir países da America Latina, que na visão de Trump não tem por que serem levados em conta, não surpreende. O inesperado fica por conta da inclusão do Canadá, vizinho e aliado desde sempre, e do desvio de materiais endereçados à Alemanha e França. É a negação explícita da sempre decantada amizade entre estes países ou, na prática, uma agressão que forçosamente leva à revisão de conceitos até então tidos como definitivos nas relações de cooperação entre aliados.

Revisão de conceitos que se revelam mutáveis e, forçosamente, também de atitudes. Um recado, portanto, de particular interesse para o Brasil, que sofreu nos últimos anos um processo de desindustrialização e, proporcionalmente, de aumento da dependência externa, em parte por conta da percepção equivocada de um mundo integrado, solidário e interdependente.

Estamos falando de áreas críticas, da mais crítica de todas na realidade, parecendo suficientemente claro que terá que correr com seus próprios meios para tentar superar carências essenciais no enfrentamento da coronavírus, uma vez que a demanda é crescente e global, parecendo colocar a todos diante de um salve-se quem puder. Nesse sentido à pandemia, cujos efeitos ainda não podem ser sequer estimados, já se pode atribuir o mérito de pelo menos levantar o véu da hipocrisia que preside as relações internacionais.

Da mesma forma é de se esperar que sirva de alerta a países como o Brasil, no sentido de fazer entender que sua independência, seus interesses próprios, absolutamente não podem e não devem ser terceirizados ao crédito de uma falsa amizade.