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Faltando pouco mais de duas semanas para as eleições presidenciais, a temperatura aumenta nos Estados Unidos. Fragilizado pela perspectiva concreta de derrota, o presidente Trump radicaliza, provoca, atira para todos os lados, acreditando ser ainda uma boa estratégia sensibilizar os mais radicais, aqueles que tomam ao pé da letra o slogan da primeira campanha, o America First, que diz tudo sobre as reais intenções do candidato.

Que ele pense como quiser, por maiores que sejam suas responsabilidades, e que os eleitores ajam da mesma forma. Duro é que este discurso não seja percebido como deveria externamente, caso em que o exemplo brasileiro soa à perfeição, por conta do encantamento do presidente Bolsonaro com o país e seu presidente.

Continuar nessa linha pode se revelar uma armadilha de efeitos fatais para a economia brasileira que tem hoje na China – justamente e por óbvias razões o alvo preferencial de Trump – seu principal parceiro comercial e que tem no país investimentos que já somam US$ 80 bilhões, podendo chegar a mais de US$ 100 bilhões dentro de quatro os cinco anos, caso os chineses resolvam reagir às seguidas provocações de que tem sido alvo, com o presidente brasileiro chegando ao ponto de, como seu imaginário amigo, chamar a Covid-19 de “vírus chinês”. Até agora as reações foram limitadas a comunicados formais e discretos, onde também foi dito que paciência tem limite.

As reações brasileiras são até toscas, como no caso recente do presidente afirmar que pode não comprar vacinas chinesas, aquelas mesmas desenvolvidas em conjunto com o Instituto Butantan. Neste caso, apenas para um round da disputa com o governador Doria, patrocinador da Sinovac no Brasil.

Enquanto isso os norte-americanos atiram com armas de grosso calibre, como na decisão de elevar de 15% para 145% a tarifa de importação de chapas de alumínio brasileiro, inviabilizando negócios. Ao mesmo tempo os dois países assinam acordo bilateral para “melhorar” o comércio, mas que em termos práticos apenas reduz a burocracia nessas operações.

O tiro mais certeiro, imaginam os americanos, foi a oferta de até US$ 1 bilhão em créditos para que o Brasil compre deles equipamentos para as redes 5 G, deixando de lado a chinesa Huawei, que dispõe de tecnologia mais avançada e mais barata. Para quem estuda e conhece o assunto, 5 G será, em pouco tempo, a principal marca de gigantescas mudanças em todos os aspectos da vida humana e pouco tem a ver com celulares mais rápidos, como muitos imaginam ingenuamente. Controlar essa tecnologia pode ser a chave do futuro, deixar-se controlar será o mesmo que manter fechadas as portas do futuro.