Crédito: REUTERS/Carlo Allegri

Cesar Vanucci*

“Usar palavras estrangeiras para dizer o óbvio é um despropósito” (Andréa Maria Fanzeres Cordoniz, psicóloga)

Retornamos ao tema da insidiosa invasão de termos estrangeiros na comunicação cotidiana, fiel à convicção de que Brasil se escreve com “s” e não com “z”. Tem importância, não. A melhor retórica é a repetição, já dizia Napoleão. Alguma coisa positiva há de sobrar dessa cantilena.

É dose deparar-se, no trabalho, no mundo dos negócios, nas reuniões sociais, na comunicação e nas empresas, na atividade política, no próprio recesso dos lares, com os sinais dessa preocupante ordem de coisas nascida de modismos inconsequentes, que bebem inspirações nos equívocos cometidos em práticas administrativas e gerenciais, largamente disseminadas, em desarmonia com as genuínas aspirações populares, com o generoso sentimento das ruas, com a verdadeira alma nacional.

Ninguém precisa fazer esforço exagerado para perceber que nem mesmo os papos coloquiais já conseguem permanecer imunes aos efeitos nocivos dessa invasão cultural. Até mesmo o tratamento terno dispensado às pessoas do nosso afeto não consegue escapar da contaminação. Somos surpreendidos com o uso de palavras que não fazem parte do riquíssimo e colorido vocabulário brasileiro. É um tal de “darling” e “love” pra cá, “mother” e “father” pra lá…

Das empresas e da tecnocracia chegam “contribuição” expressivas para o que vem acontecendo. O emprego de vocábulos estrangeiros não é feito apenas em função da designação de processos tecnológicos ainda não convenientemente traduzidos. Há uma tendência insopitável de se verterem desnecessariamente, para o inglês de modo mais insistente, expressões sonoras já devidamente ajustadas à realidade que se procura retratar. E isso não pode ser considerado, definitivamente, procedimento de bom senso.

Vocábulos como “full time”, “weekend”, “case”, “ranking”, “clipping”, “happy hour”, “feeling”, “no problem”, “start”, “dow”, “briefing”, “downsizing”, “inside”, “coachers”, “workshop”, “establishment”, ocupam espaços no jogo dos negócios e na área da informação. Não vemos o benefício que isso possa trazer à causa do desenvolvimento brasileiro. Toda nação encontra na preservação do idioma uma das formas de sua identificação cultural e cívica.

Não sabemos avaliar se já é o caso de recomendar o receituário francês para a questão. O caso é que, por aquelas bandas da Europa, o problema do estrangeirismo desabusado na linguagem comum é repelido de maneira radical. A proibição taxativa de emprego das expressões indesejadas é policiada pela comunidade. A não observância pode trazer irritada admoestação para o infrator.

Já por aqui…

Entre os vinte e cinco leitores assíduos destes maldatilografados escritos haverá, por certo, quem se recorde da narrativa, aqui feita tempos atrás, de uma incrível cena transcorrida em repartição ministerial de Brasília. O que ocorreu foi um dos mais contundentes abusos de comunicação oral no plano diplomático de que se tem notícia desde o aporte das naus de Cabral em Porto Seguro. Referimo-nos a uma reunião convocada no governo Collor. Tinha por objetivo explicar a empresários brasileiros, de modo a “auxiliá-los” em suas decisões, como transcorrera o processo de privatização de estatais europeias. Do começo ao fim, conduzida por tecnocratas brasileiros, a extensa “explicação” foi transmitida em inglês, falado em Chicago, francês, falado em Paris, e em outra língua, falada em local incerto e não sabido… Não sobrou pausa para apartes em português, ou mesmo para que os participantes pudessem aspirar oxigênio puro, de maneira a melhor enfrentar a temperatura reinante composta de partículas de indigência cívica, atraso cultural e pedantismo.

O saudoso José Alencar Gomes da Silva, à época ainda distanciado da lida política, da qual viria a se tornar magnífica referência, compareceu ao encontro como presidente da Fiemg. Às tantas, inconformado com o que estava rolando, deixou a sala, dando como justificativa uma outra agenda a cumprir.

Não resistimos à tentação de comentar, de passagem, que um “processo de desestatização” iniciado nesses moldes psicodélicos teria mesmo que dar no que deu…

Prometemos, mais adiante, relatar nestas considerações sobre as inconveniências no uso de expressões estrangeiras, a três por quatro, para classificar situações obvias do cotidiano, a encrenca conjugal produzida por um diálogo nessa linha pedante.

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)