Nair Costa Muls*

Alguns anos atrás, com colegas professoras da Fafich/UFMG, a socióloga Lígia Maria Leite Pereira e a historiadora Maria Auxiliadora de Faria, tive a honra de participar da empreitada de escrever a biografia de José Costa. O livro José Costa – Parceiro do Futuro foi publicado em 2007. Foi uma experiência emocionante e muito rica.

Ao fazer o trabalho de análise das edições do Informador Comercial / Diário do Comércio desde os seus primórdios, resgatando e construindo a história do jornal e a história de seu fundador, ao ouvir os entrevistados falarem de José Costa, meu pai, a emoção muitas vezes tomou conta do meu coração e um nó atravessava minha garganta. Mas a pesquisa empreendida e o escrever parte desse livro sobre sua vida, foram uma oportunidade ímpar de conhecê-lo melhor e de descobrir a verdadeira dimensão de sua trajetória. Uma bênção magnífica.

José Costa se fez sozinho, construindo a sua vida de maneira independente, primeiro como comerciário em Niterói e depois, vindo para Belo Horizonte, em 1930, como representante de empresas cariocas, o que lhe possibilitou o conhecimento do comércio atacadista da cidade e suas dificuldades, pois tudo dependia do mundo exterior através dos caminhos ferroviários da Central do Brasil e da Estrada de Ferro Oeste de Minas. Logo, logo, percebeu a dificuldade existente e quando um amigo seu, que se transferia para o Rio, lhe ofereceu a oportunidade de assumir o “bolletim” Informador Comercial, assumiu com grande vigor e confiança a tarefa de oferecer aos clientes a lista das mercadorias que chegavam aos comerciantes de Belo Horizonte, que, se não retiradas com presteza, eram passíveis não só de deterioração, como de cobranças de taxas pelo armazenamento. O “bolletim” era feito artesanalmente e aos poucos foi também oferecendo matéria redacional, comentando medidas governamentais, econômicas e legislativas, que afetavam a economia mineira e belo-horizontina, além de comentários relativos às leis trabalhistas e aos direitos dos empregados e trabalhadores. Sempre fiel às suas posições político-ideológicas e partidárias, marcadas pela esquerda brasileira.

A meu ver, de fato, José Costa e seus jornais tiveram, sim, um papel importante no processo de desenvolvimento de Minas Gerais e do País. O sonho de José Costa era o de um país economicamente desenvolvido, soberano, independente, livre e socialmente justo. E sempre lutou por isso. Infelizmente não conseguiu ver realizado o seu sonho. O ideal de um país livre e soberano, de uma sociedade que respeitasse os direitos de todos e combatesse a exclusão de uma grande parte de sua população, foi engolido pelo avanço do neoliberalismo, pela ilusão do dinheiro e do poder, pelo fetiche da mercadoria. O capital internacional tomou conta das mentes e dos corações brasileiros. Nos últimos meses de vida, mesmo já fraco, continuava preocupado com a situação do País. Mas, enquanto viveu, cumpriu a sua tarefa: “multiplicando os seus talentos” exerceu o jornalismo com ética, fazendo de seus jornais também instrumentos de conscientização de seu público (missão do jornalismo); atuou nas entidades de classe representativas das classes produtoras, sempre colocando e defendendo suas ideias, semeando-as num campo fértil e transformando-as em ações concretas em parceria com muitas dessas entidades. Deixou o seu exemplo.

Apesar de toda a tragédia que o País e mundo atravessam atualmente, não podemos desistir. Temos que ser sujeitos de nossa história. E ainda, há muita coisa a se fazer por esta nossa Minas Gerais e por nosso País. Que esse continue a ser o objetivo do DIÁRIO DO COMÉRCIO, hoje entregue a dois netos seus, Adriana Costa Muls e Yvan Costa Muls. Que ambos tenham muita luz, sabedoria e muito sucesso, sempre tendo o avô como exemplo.

*Doutora em Sociologia, professora aposentada da UFMG/FAFICH.  nair.mulsbhz@gmail.com