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Arthur Guimarães e Thales Carvalho*

Ao que tudo indica, as divergências entre Estados Unidos e China tendem a não terminar no curto prazo. O temor estadunidense em relação aos asiáticos vai muito além das relações comerciais. A ascensão chinesa conduziu o país a um ponto em que suas capacidades – bem como seu potencial – incomodam os estadunidenses, que temem a perda de sua posição hegemônica no mundo.

O impasse tende a ir até mesmo além do governo Trump, tendo em vista que Joe Biden, seu concorrente nas eleições deste ano, não tem sinalizado a trégua em relação aos asiáticos. Isso é política, no sentido mais tradicional no termo. Nesse contexto e disputa, como nós, brasileiros, podemos nos posicionar?

O pragmatismo tem sido uma característica da política externa brasileira na maior parte do tempo. Foi assim, por exemplo, com Getúlio Vargas durante a Segunda Guerra Mundial e com Jânio Quadros, Ernesto Geisel e outros durante a Guerra Fria. A premissa é relativamente simples: ao não limitarmos nossa autonomia no cenário internacional em função de um alinhamento com algum país, podemos focar na busca por soluções que melhor atendam às necessidades e interesses brasileiros.

A tradição diplomática tem muito a nos ensinar, assim como a realidade. A China é o principal parceiro comercial brasileiro e os Estados Unidos ocupam a segunda posição. Em 2019 foram responsáveis por aproximadamente 28.11% (US$ 63.3 bilhões) e 13.18% (US$ 29.7 bilhões) das exportações nacionais, respectivamente. Os números, por si só, já demonstram a importância de um equilíbrio em meio a essa disputa, pois trata-se de nossos dois principais parceiros comerciais e mais de 40% de nossas exportações.

O Brasil tem obtido benefícios nesse contexto de disputa hegemônica. Os chineses reduziram as compras de produtos agrícolas estadunidenses e no caso da soja, por exemplo, foi o Brasil quem passou a suprir grande parte das demandas chinesas. No primeiro semestre de 2020, o agronegócio foi um dos pilares da economia brasileira frente à atual pandemia. De toda a exportação do agronegócio para a China até Junho deste ano, além do grande crescimento comparado ao ano anterior, mais de 70% está vinculado a soja seguido de proteína animal com aproximados 15%.

Todavia, as recentes atitudes brasileiras pouco denotam esse necessário pragmatismo. Apoiadores e membros do atual governo já criticaram os chineses em diversas ocasiões e atacaram temas sensíveis aos chineses. O próprio presidente tem optado por um alinhamento incondicional a Donald Trump.

O Brasil tem participado inclusive de encontros em fóruns que têm debatido estratégias de contenção à expansão chinesa. E no final de Julho, Brasil e Estados Unidos fizeram uma declaração conjunta dizendo que o princípio da “economia de mercado” deveria valer para todos aos membros da Organização Mundial do Comércio, o que atinge, de forma indireta, a China.

Cabe destacar que, apesar das citadas posturas contrárias aos chineses, não houve ataque direto de Bolsonaro aos chineses, o que ajuda a explicar a manutenção das relações entre Brasil e China. No caso da Austrália, após declaração do primeiro-ministro pedindo por investigações sobre as origens da Covid-19, foi retaliada pelos chineses com restrições às suas exportações refletindo diretamente na balança comercial e economia australiana.

Nos próximos meses, o Brasil precisará tomar uma decisão fundamental sobre seu posicionamento nessa disputa: proibir ou não a participação da chinesa Huawei nos leilões das frequências relacionadas a 5G. O governo Trump tem focado em criar obstáculos à participação da empresa na construção de redes 5G ao redor do mundo, visando comprometer a expansão dos chineses nos mercados de redes e tecnologias ao redor do mundo. O Reino Unido, por exemplo, já tem imposto vetos à atuação da Huawei nesse sentido e já sofre ameaças de retaliações por parte de Pequim.

Nesse sentido, um eventual veto brasileiro à Huawei poderia também trazer retaliações da China. Tal retaliação poderia ser vinculada a qualquer segmento, inclusive o tão importante agronegócio brasileiro, carro-chefe nas relações comerciais sino-brasileiras. Os danos e perdas podem ser inimagináveis e impactar ainda mais a economia brasileira que hoje tem uma forte dependência com a China em uma pauta pouco diversificada.

As disputas entre as duas maiores potências da atualidade trazem repercussões a todos os países do mundo. É importante que ao adotarmos nossa estratégia, não pensemos que se trata de um jogo de soma zero, no sentido de que temos que apoiar um lado que sairá ganhando em detrimento ao outro. Temos a ganhar dos dois lados. Já aprendemos isso ao longo de nossa história.

É preciso estarmos abertos e preparados para estabelecermos relações comerciais com o máximo de parceiros que pudermos, fazendo com que os produtos brasileiros adquiram o maior alcance possível e atraindo cada vez mais investimentos para o País.

*Mestre em Negócios Internacionais pela Antai College of Economics and Management em Shanghai. Gerente-Geral da Câmara Chinesa de Comércio em Shanghai. /  Mestre e Doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais