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Susanna Marchionni*

Já dizia um velho ditado: não há mal que dure para sempre. E ninguém duvida que este momento ruim vai passar. Mas no momento em que se estuda a retomada gradual das atividades e a reabertura do comércio, é indispensável refletir sobre a cidade do amanhã no mundo pós-pandemia.

Afinal, o contexto social sofreu profundas mudanças, como a implantação do distanciamento social, e levantaram-se dúvidas sobre quais serão os desafios e as novas responsabilidades das pequenas, médias e grandes metrópoles.

Evidente que a digitalização deve estar no topo da nossa reflexão, uma vez que nunca estivemos tão conectados. Os smartphones viraram quase uma extensão do nosso corpo e foram usados para praticamente tudo e em diversas atividades do cotidiano durante o isolamento.

Eles estiveram presentes no encontro de família, foram utilizados como um meio para pagar contas, pedir comida, comprar produtos, participar de reuniões de trabalho e até de cerimônias com a presença de autoridades civis, militares e eclesiásticas.

Agora, imagine a dificuldade que os não adeptos enfrentaram nos últimos dias. Difícil de imaginar, não é mesmo? Difícil porque é impossível pensar na cidade do amanhã sem levar em conta o valor e o poder da digitalização, uma vez que ela foi concebida para melhorar a vida de todos.

O chamado mundo pós-pandemia deve intensificar o uso da tecnologia para otimizar a rotina no sentido de construir um ambiente com maior qualidade de vida, independente do poder aquisitivo de cada cidadão.

Mas não é só isso! Para que uma cidade seja funcional é preciso que ela seja estruturada levando em consideração outros aspectos como a arquitetura e o planejamento urbano, inovação social, tecnologia e meio ambiente. Os locais com essa organização tendem a ser mais desenvolvidos, pois o ambiente é inclusivo, harmonioso e colaborativo.

Dito isso, nos cabe dar atenção aos principais desafios enfrentados pelas as grandes metrópoles que são a ausência de ações de inequação nas relações humanas e a inovação digital. Ou seja, quando digitalizamos as pessoas diminuímos a inclusão social, uma vez que incluir significa mudar a qualidade de vida de todos ao mesmo tempo que melhoramos a segurança.

Eu não me canso de falar que o principal problema no Brasil é a segurança. Só conseguiremos resolver essa questão quando incluímos mais pessoas no dia a dia da sociedade, além, é claro, de continuar investindo em ações e serviços em prol do meio ambiente, planejamento urbano, alternativas sustentáveis, entre tantos outros.

Na Europa, por exemplo, a telemedicina é uma realidade, mas, aqui no Brasil, o serviço ainda vem engatinhando, porque nem todos possuem acesso a um serviço de internet com qualidade.

Outro ponto importante para levar em consideração é o compartilhamento de serviços de qualidade. A cidade do amanhã deve intensificar projetos que ofereçam bibliotecas, cinemas, ciclovias, coleta de lixo seletiva, cursos profissionalizantes e gratuitos e opções de entretenimento e de esporte.

O transporte e a mobilidade urbana também merecem atenção especial, já que é inconcebível passar mais de quatro horas utilizando serviço público para ir e voltar para o trabalho ou escola. É preciso investir em ciclofaixas funcionais e calçadas mais largas para que os cidadãos consigam ter a liberdade de viver a cidade.

Quando as pessoas estiverem vivendo tudo isso a chamada “economia compartilhada”, que há tempos vem sendo destacada como tendência do futuro, deverá ganhar mais destaque, uma vez que uma coisa leva a outra.

Ouso dizer que a cidade do amanhã deve oferecer infraestrutura de alto padrão com digitalização e inovação social, tudo isso a preços acessíveis. Porque quando promovemos a igualdade de oportunidades diminuímos a desigualdade na sociedade ao oferecer as mesmas condições para todos. Afinal, as cidades devem sempre estar a serviço da população e não o contrário.

*CEO da Planet Smart City no Brasil