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Cesar Vanucci*

“Os políticos fingem ignorar o que se sabe”. (Beaumarchais, no século XVIII…)

Eleição é sempre assim. Os eleitores utilizam as urnas para passar recados. Os destinatários desses recados tomam, evidentemente, conhecimento do que está sendo transmitido. Discutem as questões afloradas no âmbito restrito de sua confraria política. Mas, pra efeitos externos, “fingem ignorar” o que se sabe ou o que se disse. “Fingem também saber o que se ignora”, como no emblemático registro sobre os meandros da atuação política feito pelo dramaturgo Beaumarchais, ainda no século XVIII…

Dos muitos recados deixados no primeiro turno, três se fizeram mais enfáticos. Em primeiro lugar, os votantes explicitaram bem sua aversão aos partidos tradicionais. Todos eles, sem exceção, perderam espaços preciosos. Vão ter que repensar estratégias pra reconquistar simpatia. Esta insofismável constatação remete a outro recado vigoroso, também endereçado às lideranças nacionais supostamente providas de maior capacidade de influência no jogo eleitoral. Derrotas acachapantes foram infligidas, em sonora quantidade, a candidatos ostensivamente apoiados, por exemplo, pelo presidente Bolsonaro e pelo ex-presidente Lula.

Um outro recado significativo, implicando, igualmente, em inequívoca censura a atos praticados por certos segmentos políticos fundamentalistas, foi a condução, em quantitativo infinitamente superior a quaisquer expectativas, de representantes de grupos minoritários aos postos de relevância em disputa. Parcelas majoritárias da população fizeram questão de proclamar sua discordância formal aos procedimentos de cunho talebanista, amiúde registrados na vida pública brasileira, de conteúdo racista, machista e homofóbico. Deram um não aos preconceitos e intolerâncias.

Nos efervescentes bastidores políticos vem ganhando força a possibilidade da formação de uma frente, denominada “centro-direita”, com vistas às eleições presidenciais (2022). Encontro recente do apresentador de televisão Luciano Huck e ex-ministro Sérgio Moro foi visto como indicação das articulações, que envolveriam ainda o governador de São Paulo, João Doria. Nas especulações sugere-se que os nomes alinhados, lembrados em não poucas vezes como candidatos ao Alvorada, mostrar-se-iam favoráveis à criação de uma “terceira via” para a competição de daqui dois anos. A expressão “terceira via”, de inclinação “centrista”, parte da pressuposição da existência no provável quadro sucessório de duas outras correntes, uma de “direita”, outra de “esquerda”.

Com base nessas movimentações, o jornalista Fábio Zambini estampou na “Folha de São Paulo” uma reportagem informando que a aliança está sendo proposta por Moro e Huck, podendo atrair também Doria. No trabalho, anota-se que a frente converge em questões econômicas, discordando em questões de valores. As tendências de cada um, apontadas pelo jornalista, com relação aos temas econômicos, sociais e políticos, são reproduzidas na sequência.

O que pensam Moro, Huck e Doria sobre temas-chave: Economia e Papel do Estado – Moro: Favorável a reformas liberais e abertura da economia; quando ministro, defendeu presença privada na gestão do sistema prisional; Huck: Defende sistema tributário progressivo; diz que o Estado tem de combater a desigualdade; elogiou a agenda de Paulo Guedes; Doria: Defensor de forte agenda de privatizações e desregulamentação da economia.

Segurança Pública – Moro: Defende maior encarceramento, restrições à progressão de pena e excludente de ilicitude; Huck: Defendeu gestão de Moro no governo e seu pacote anticrime, mas não se pronunciou sobre o excludente de ilicitude; Doria: Defende o endurecimento das leis e apoiou o pacote anticrime de Moro; na campanha de 2018, disse que a polícia em seu governo ia atirar para matar.

Maioridade Penal – Moro: A favor de reduzir para 16 anos para crimes “gravíssimos”; Huck: Sem posição identificada; Doria: Favorável a reduzir para 16 anos.

Acesso a Armas – Moro: Teve posição dúbia, dizendo que não tinha relação com os decretos pró-armas, mas sem criticá-los; Huck: Contra a ampliação do acesso; Doria: Contra a ampliação do acesso.

Aborto – Moro: Disse que Roe VS Wade, decisão judicial que liberou prática nos EUA, é “razoável”; Huck: Sem posição identificada; Doria: Defende a atual legislação, que permite aborto em caso de estupro, risco para mãe e anencefalia.

Casamento Gay – Moro: Sem posição identificada; Huck: Favorável; Doria: Favorável.

Uso de Drogas – Moro: Contra a liberação da maconha, mas a favor do seu uso medicinal; também já se disse aberto a novas abordagens sobre o tema; Huck: Produziu o documentário “Quebrando o Tabu”, que defende descriminalizar as drogas; diz que o atual modelo não funcionou; Doria: Contra a descriminalização.

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)