Crédito: REUTERS/Ueslei Marcelino

Tilden Santiago*

“Do modo como se caminha para o poder se exerce o poder”. Não recordo a origem precisa desse aforismo. Mas sei que ele é muito comum entre políticos e cientistas políticos que entendem a política e o pensamento humano, como fatores de transformação da sociedade.

Quando o cientista político atinge as alturas da filosofia, ele critica os filósofos, que se contentam em interpretar a História e os convida a transformá-la, a partir de marcos teóricos dentro da filosofia ou fora dela, por exemplo dentro da economia e da sociologia.

Quanto aos políticos e analistas, que leem a História ou a simples realidade política, na linha de manutenção do “status quo” da sociedade, estes vão mais longe porque vivem, pela própria experiência, a conquista e o exercício do poder por práticas que não são as mais corretas. Pecam na busca do poder e não deixam de fazê-lo do mesmo modo no próprio exercício do poder.

O aforismo é verdadeiro, mas para analisá-lo empiricamente é preciso trocar a palavra “poder” por “governo”. O poder, na sua gênese e no seu exercício, é muito mais complexo do que o mero governo, sobretudo na sociedade sofisticada, que tentamos construir no mundo de hoje.

O modo, como se realizam as campanhas e as eleições, já anuncia como o governo será executado. Estamos nos aproximando de eleições municipais. Embora não esteja em jogo o Planalto, elas podem dar o tom do que o povo brasileiro quer para o Brasil pós-pandemia e sobretudo pós-Bolsonaro. Essas eleições serão muito politizadas e terão caráter nacional, por incrível que pareça. Natural pelo clima político, econômico e sanitário que é vivido hoje no País.

A eleição já qualifica ou desqualifica a essência do futuro mandato. Fazer campanha sem debate, como foi em 2018, nos leva aos impasses e absurdos que estamos vivendo neste governo, ou melhor, desgoverno, sem planejamento, sem rumos, sem dirigentes, sem projeto de Brasil, sem ministros confiáveis junto à população.

Dificilmente um mandato é representativo e democrático, se representatividade e democracia não envolverem a escolha de pré-candidatos, a campanha e, sobretudo, sem temas em debate, na caminhada rumo às urnas.

Campanha dominada e financiada pelo poder econômico não será independente, uma vez no governo para atender os pobres e os “damnés de la terre” – nem mesmo atender as classes médias, os pequenos e médios proprietários. Ficaríamos sem horizonte para as micro, pequenas, médias empresas, incapazes de apoiar campanhas como as grandes.

As eleições são uma boa ocasião para a população analisar e conhecer os partidos políticos, além dos candidatos: sua organização e vitalidade e o posicionamento político e ideológico da sigla.

Campanha corrupta gera mandato corrupto. Campanha autoritária, sem democracia, gera mandato autoritário ou pouco democrático. Em geral, corrupção e autoritarismo andam de mãos dadas. Mas toda essa reflexão só é possível para as grandes massas, para a totalidade do eleitorado, se partidos e políticos fizerem das eleições uma “grande aula política”.

*Jornalista, embaixador e sacerdote itinerante