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Cesar Vanucci*

“A gripezinha do tal Covid levou meu avô e minha avó”. (Nairzinha da Silva, em prantos, na porta de um hospital)

● Que chegue logo, Deus louvado, a abençoada vacina! Que brilhe rápido, ofuscantemente, a luz no final do túnel! Que sejam bem-sucedidas as ações levadas a efeito nos 109 laboratórios empenhados em pesquisas avançadas, na busca do antídoto capaz de deter a impetuosidade macabra do vírus de origem desconhecida. As notícias alusivas às experiências científicas em andamento, uma delas em Minas Gerais, fruto de parceria da UFMG com a Fiocruz, reacende esperanças. Alvissareiro saber que já estão sendo testadas em seres humanos, promissoramente, substâncias imunizatórias com probabilidade de escorraçar o vírus das preocupações mundiais. Enquanto esse justo e global anseio não se converte em realidade, o que fica para cada um de nós é o inarredável compromisso de respeitar estritamente as recomendações emanadas da Organização Mundial de Saúde. Elas se alicerçam no conhecimento científico consolidado, no bom-senso e na lógica humanística, não importa haja por aí quem insista, irrefletidamente ou por supina ignorância, em rotular a pandemia de gripezinha banal.

● Vendo-se impossibilitada, nesta espichada quarentena, por óbvios motivos – não reconhecidos apenas por vozes isoladas do sectarismo fundamentalista -, de operar a pleno vapor na produção de programas nas áreas da dramaturgia e entretenimento, a Rede Globo de Televisão vem ocupando boa parte dos espaços da programação com reprises. Os espetáculos projetados são acolhidos com simpatia, de modo geral, pelo respeitável público. Um bocado de gente, entre os telespectadores, mantém acesa a expectativa de que a emissora venha a incluir, no desfile das atrações, dois extraordinários sucessos novelescos: “O Bem Amado” e “Gabriela”. E, também, alguns incomparáveis musicais. Caso, por exemplo, de “Vinicius para crianças”. O citado programa atribuiu a Augusto Cesar Vanucci o primeiro “Emmy” (EUA) e o primeiro “Ondas” (Inglaterra) conquistados por artistas brasileiros. Fixando-nos ainda em lembranças inesquecíveis da linha dos musicais levados ao ar, cabe aqui mencionar os programas da série “Brasil Especial”, com foco em repertórios dos grandes compositores nacionais. Falar verdade, o acervo das produções nascidas do talento e arte da competente equipe global merece ser reproduzido, pelo nível ostentado, sempre que possível. Mesmo nos tempos em que a execução das tarefas, como agora ocorre, seja tolhida por circunstâncias adversas. Conforme é costume dizer, vale a pena ver de novo.

● Foi meio demais. Numa só semana, três personagens exponenciais da inteligência brasileira enveredaram pela “curva da estrada”, passando a não mais “ser vistos”, como propõe em descrição da morte o poeta Fernando Pessoa. O compositor e escritor Aldir Blanc, que imprimiu a assinatura em arrebatantes peças musicais, como “Querelas do Brasil”, “Saudades da Guanabara” e “O Bêbado e a Equilibrista”, não resistiu ao implacável Covid-19. Legou-nos obra de fôlego. Liricamente, sem abrir mão da crítica social, proclamou crença nas virtualidades da gente de seu país. Flávio Migliaccio, de presença cênica inconfundível, ator com desenvoltura impecável tanto em papéis dramáticos quanto na comédia, embalou sonhos e fantasias de um montão de pessoas. Mas sucumbiu à amargura e frustração de não poder ver realizados seus sonhos pessoais de vida melhor para o mundo. Nirlando Beirão, dono de invejável cultura, de singular fluência verbal, foi um jornalista que encontrou na atividade profissional abraçada com fervor uma forma de exaltar permanentemente a vida. Três craques de seleção, sem qualquer sombra de dúvida. Deixaram exemplos e saudades.

● O economista e ex-ministro de Estado Antônio Delfim Netto publicou, recentemente, trabalho subordinado ao título “Prevenir fenômenos aleatórios”. Sustentando que a pandemia ora vivida pela humanidade era previsível, mas foi ignorada pelos países, ele anota uma sugestiva informação, dando como fonte Cirilo, P.; Taleb. N.N. Tail Risk of Contagious Diseases, mar/2020. Relaciona as pandemias que flagelaram a humanidade desde 429a.C. A “Praga de Atenas” foi a primeira delas. Até o século XV ocorreram 8 pandemias. No século XVI, 7. O mesmo número no século XVII. No XVIII foram 5. No século XIX, 16. No século atual, até agora, 10. Os surtos ocorridos, nos períodos mencionados, somam 62. Será que alguém já se deu ao trabalho de levantar os surtos que, entre nós, que deram causa a pandemônios políticos?

* Jornalista ([email protected])