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Turismo pode ser alavanca para novos negócios em Minas Gerais

Com efeito multiplicador em até quatro vezes, atividade gera impacto “cascata” e movimenta comércio, serviços, agricultura e construção civil nas cidades
Turismo pode ser alavanca para novos negócios em Minas Gerais
Foto: Reprodução Adobe Stock

Dona de um inestimável patrimônio histórico e cultural, Minas Gerais tem avançado na atração de turistas interessados nas paisagens e na originalidade do modo de viver. A mineiridade, porém, que já se fez reconhecida por diferentes publicações, como o jornal New York Times, e instituições, como a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), ainda tem seu potencial pouco aproveitado por entes públicos e particulares na geração de negócios que vão além da cadeia produtiva do turismo.

Identificado como um dos setores mais eficientes no efeito multiplicador da economia, o turismo é capaz de alavancar negócios muito além da sua cadeia produtiva direta (hotéis, agências e companhias aéreas). O gasto do turista circula por diversos setores, gerando um impacto “cascata” que movimenta atividades como comércio, serviços, agricultura e construção civil. Pesquisas mundiais indicam, inclusive, que, para cada dólar investido em turismo, quatro retornam para os destinos.

Complexa e diversa, a cadeia produtiva do turismo envolve uma vasta rede de atividades econômicas. Embora possa ser segmentada de diferentes formas dependendo do autor ou estudo, seis categorias principais são facilmente perceptíveis e atuam de forma articulada.

Turismo - Imagem gerada por inteligência artificial
Imagem gerada por inteligência artificial (IA)

Outros setores tendem a atrair investimentos e fazer bons negócios com o desenvolvimento do turismo. Entre eles:

  • Construção Civil e Mobiliário: a necessidade de novos hotéis, pousadas, restaurantes e melhorias na infraestrutura urbana gera demanda para construção civil, arquitetura e indústrias de móveis;
  • Agricultura e Agroindústria: o aumento do consumo em restaurantes e hotéis estimula a compra de alimentos de produtores locais, impulsionando o campo e a agricultura familiar;
  • Comércio Local e Artesanato: turistas tendem a comprar lembranças, artesanato e produtos típicos, aquecendo o comércio local, lojas de conveniência e pequenos negócios;
  • Serviços Profissionais: o setor de turismo demanda serviços de contabilidade, consultoria, marketing, limpeza, segurança e manutenção técnica;
  • Transporte e Manutenção: oficinas mecânicas, locadoras de veículos e serviços de logística são beneficiados pelo aumento do fluxo de pessoas;
  • Desenvolvimento de Infraestrutura: a necessidade de atrair turistas leva a melhorias de saneamento, limpeza pública e estradas, o que beneficia a população local.

Números do turismo em Minas Gerais

Dados aferidos pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult-MG) mostram que 2025 foi um ano especial para o turismo em Minas.

Imagem gerada por inteligência artificial (IA)

De acordo com a secretária de Cultura e Turismo de Minas Gerais, Bárbara Botega, receber mais turistas é uma oportunidade de mostrar outras características e qualidades do território e, assim, atrair novos investimentos em cadeias produtivas diversas. A missão, porém, exige estratégia.

“As secretarias têm um alinhamento muito fino, trabalhamos em conjunto para novas rotas, por exemplo. Ter voos diretos incentiva a exportação de produtos que podem ir por carga aérea. A logística é muito importante, independentemente do setor. Investir em turismo e incentivar a exportação de produtos mineiros e a feitura de negócios. Agora estamos trabalhando com os APLs (Arranjos Produtivos Locais) de fabricação de móveis, ajudando na apresentação deles para os hotéis que estão sendo inaugurados ou passando por retrofit”, explica Bárbara Botega.

Dados do Censo Turismo 2025, realizado também pela Secult-MG, revelam o crescimento do empreendedorismo e da adesão ao Cadastur (sistema de cadastro de pessoas físicas e jurídicas que atuam no setor de turismo) no Estado. A pesquisa mostra que 70,4% dos municípios afirmam realizar ações de fomento, um salto de 62% em relação a 2023. As ações de incentivo ao Cadastur também cresceram, chegando a 78,9% dos municípios, com forte presença de contatos telefônicos, visitas e comunicados on-line.

Além disso, o estudo publicado em dezembro de 2025 confirma o fortalecimento da governança municipal, a ampliação de práticas sustentáveis e o aumento de projetos financiados pelos governos estadual e federal. De acordo com o levantamento, 96,1% dos municípios possuem leis municipais de turismo, 93,9% têm planos municipais de turismo, com o mesmo percentual afirmando possuir ações em execução, e 97,2% contam com Fundo Municipal de Turismo (Fumtur).

Entre os principais usos do Fumtur, destacam-se a realização de eventos em 585 municípios, ações de marketing turístico em 400, contratações especializadas em 297, obras de infraestrutura em 212 e sinalização turística em 184.


Minas e Brasil aproveitam pouco a presença de turistas no território

Para o estrategista de marca e professor de Publicidade e Propaganda do Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), Antônio Terra, embora existam bons exemplos, Minas Gerais e o Brasil aproveitam pouco a presença de turistas no território para estender os resultados para outras cadeias produtivas.

“Tratamos o turismo como uma ilha isolada. Devemos entender que ele não é o produto final, mas sim, o marketing do destino. O turismo é um test drive para futuros investimentos. A semente da confiança é plantada ali. O investidor chega primeiro como turista. Se ele gosta da experiência, começa a olhar a viabilidade do destino para um futuro investimento. Outro ponto é a denominação de origem, que funciona como um selo invisível de qualidade. O turismo projeta a marca do lugar. E, por fim, a infraestrutura híbrida que atenda o turista e o morador. Hoje, um investimento não se define apenas pela isenção de impostos, mas também pela qualidade de vida que o território oferece para os seus moradores”, analisa Terra.

O Censo Turismo 2025 aponta um relativo progresso no planejamento das cidades para o setor. Embora somente 45,2% tenham planos diretores, 89,1% já aplicam diretrizes específicas de turismo. A participação social também está fortalecida. Do total, 95,7% possuem conselhos municipais de Turismo e 81,5% promovem políticas que envolvem os moradores no desenvolvimento turístico.

O documento revela uma expansão significativa de projetos financiados. De 2023 para 2025, houve aumento de 63,9% de projetos que utilizaram recursos do governo estadual e de 7,6% pelo governo federal. Além disso, 26,5% dos municípios realizam projetos em parceria com a iniciativa privada. As principais iniciativas incluem infraestrutura turística, promoção de destinos e eventos geradores de fluxo.

Casos como o da Serra da Canastra, que conseguiu tirar o queijo da clandestinidade e levá-lo a um patamar de prestígio global, e da Serra da Mantiqueira, em que o turismo de experiência alavancou a produção de cafés e azeites especiais, são destacados pelo professor.

Queijos
Serra da Canastra conseguiu tirar o queijo da clandestinidade e levá-lo a um patamar de prestígio global | Foto: Diário do Comércio / Daniela Maciel

“A Serra da Canastra e a Serra da Mantiqueira conseguiram, a partir do turismo, criar uma reputação que parte da qualidade dos seus produtos e que incentiva outras produções, expandindo e realimentando a cadeia produtiva. A Semana Criativa de Tiradentes conseguiu alinhavar artesanato e indústria. O que era uma produção vendida na beira da estrada virou design de alto luxo, exposto no Salão de Móveis de Milão (Isaloni). É nesse tipo de narrativa que precisamos investir”, pontua o professor do Uni-BH.

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