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Chico Felitti transforma polêmicas com síndica do Edifício JK em podcast investigativo

Série, em cinco episódios semanais, revela relatos de medo, regras arbitrárias e disputas de poder envolvendo a ex-síndica Maria Lima das Graças, que comandou o condomínio por mais de 40 anos
Chico Felitti transforma polêmicas com síndica do Edifício JK em podcast investigativo
As duas torres do edifício JK reúnem quase 60 andares. Foto | Divulgação/PBH

A controversa gestão da síndica Maria Lima das Graças, que esteve à frente por mais de quatro décadas de um dos principais cartões-postais do Centro de Belo Horizonte — o Conjunto Governador Juscelino Kubitschek, conhecido popularmente como Edifício JK — acaba de parar nas plataformas de áudio. No novo podcast do jornalista Chico Felitti, intitulado A Síndica, vem à tona as regras arbitrárias impostas por Dona Graça — apelido pelo qual era conhecida entre os mais de 2,5 mil moradores das duas torres.

A produção também revela a trajetória de uma personagem que se tornou quase lendária em Belo Horizonte, frequentemente envolvida em polêmicas e episódios que ganharam destaque na imprensa local.

Entre as práticas atribuídas à Dama de Ferro do JK estavam a proibição de animais nas áreas comuns, a exigência de pagamentos em dinheiro e a imposição de garantias financeiras milionárias para candidatos ao cargo.

Felitti conta que seu interesse pelas polêmicas de Dona Graça no comando do edifício JK começou a ganhar corpo a partir das conversas com os amigos que moravam ou conheciam os relatos do local. “Moro em São Paulo, mas venho a BH, praticamente, todos os meses. As histórias [do edifício] foram me fisgando e eu cheguei à conclusão de que precisava olhar de perto tudo que lá acontecia”, conta.

Bastidor é marcado pelo silêncio dos moradores e busca por fontes

Segundo o jornalista, a produção do podcast começou no fim de 2023 e, durante o começo do processo, ele se deparou com alguns empecilhos, entre eles o acesso às histórias. “Era muito difícil ouvir as pessoas porque, nesse período, a Dona Graça ainda era síndica, então existia uma muralha de silêncio. Os moradores tinham medo de falar comigo e os que topavam, não queriam gravar. Parecia uma investigação dentro de uma ditadura”, relembra.

Para chegar ao material que agora começa a ser disponibilizado nas plataformas de áudio, Felitti revela que esteve em Belo Horizonte mais de 20 vezes nos últimos três anos e entrevistou cerca de 150 fontes, entre moradores e pessoas ligadas à história do JK. A grande maioria, porém, só autorizou participar das entrevistas depois que a gestora deixou o comando dos prédios, no segundo semestre de 2025.

A única frustração do produtor, no entanto, foi nunca ter conseguido falar com Dona Graça. “Eu cruzei com ela quando estava no início da apuração, mas não me atentei quem era“, diz.

Segundo o jornalista, a única forma possível para contar com a participação da síndica no podcast, foi por meio da entrevista exclusiva de uma colega de profissão, feita com Graça, que nunca tinha sido publicada. “Com este conteúdo será possível mostrar a perspectiva dela na série”, conta.

Todos os relatos são verídicos

Chico Felitti faz questão de enfatizar que só foram publicados relatos comprovados. “A história, por exemplo, do candidato a síndico que morreu alvo de tiros na frente do JK, foi comprovada. A Justiça julgou o caso e inocentou a Dona Graça. Em nenhum momento ela foi considerada suspeita. Dentro do condomínio, porém, existia essa lenda de que ela poderia ter sido a mandante”, detalha o jornalista.

A relação turbulenta entre Dona Graça e a imprensa

Segundo o jornalista José Vitor Camilo, que fez várias matérias sobre os imbróglios envolvendo Dona Graça e os condôminos do JK, seus caminhos se cruzaram com os da gestora, em 2024. Na ocasião, ele tentou entrevistá-la várias vezes, e, após mais de um mês de apuração, sem resposta, decidiu publicar uma reportagem denunciando a cobrança de um cheque caução de R$ 4 milhões que seria a forma encontrada por ela para evitar concorrência nas eleições de síndico do prédio.

Pouco tempo após a publicação da matéria, Camilo recebeu as notificações de que havia sido processado por Graça tanto na Vara Cível como na Criminal. “Eles alegaram que não houve direito de resposta e que a matéria era mentirosa (por conta do valor do caução), apesar de eu ter a cópia de um jornal interno onde o próprio condomínio admite essa exigência”, diz.

O processo, segundo o jornalista, acabou não seguindo adiante. “Alguns dias após a morte da Graça (ela faleceu em uma sexta-feira 13, em março deste ano) recebi uma notificação informando que ela havia desistido da ação criminal contra mim”, revela.

Camilo afirma ainda não acreditar que o problema do JK tenha sido enterrado com a ex-síndica, já que, segundo ele, seus sucessores continuam no controle do edifício. “Para mim, um dos pontos mais graves era o uso dos advogados do condomínio para cometer assédio judicial contra quem a questionava (uma das coisas que denunciei na minha primeira matéria), o que acabou sendo provado quando ela processou a mim e ao jornal, apesar de termos os procurado por mais de um mês e sido ignorados”, denuncia.

Para Chico Felitti, Dona Graça se transformou em uma figura lendária e essa fama, quase folclórica, vai se expandir quanto mais pessoas tiverem contato com a história.

“O JK é um terreno muito fértil, é uma cidade. Lá eu conheci algumas das pessoas mais interessantes da minha vida. Todas, com certeza, renderiam, um podcast”. (Chico Felitti)

O podcast A Síndica terá cinco episódios semanais, todos gratuitos, disponíveis às quartas-feiras, em aplicativos de áudio como Spotify, Apple Podcasts e Deezer.

Projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer na década de 1950, o Conjunto Governador Juscelino Kubitschek tem quase 1.300 apartamentos. As duas torres reúnem, juntas, quase 60 andares.

A reportagem do Diário do Comércio procurou a administração do conjunto de prédios para apurar, com o atual síndico, Manoel Gonçalves, a situação do condomínio sob a nova gestão. No entanto, até o fechamento desta edição, não houve retorno. O espaço permanece aberto.

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