Dados da BH em Ciclo aponta que 60% da população está disposta a usar a bicicleta como transporte - Foto: Divulgação

Daniela Maciel e Thaíne Belissa

Ela não tem um conceito claro na cabeça de boa parte da população e é, muitas vezes, negligenciada nas estratégias de planejamento dos gestores públicos. Vista por muitos como o “patinho feio” entre as prioridades de um plano de governo, a mobilidade urbana acaba mostrando seu valor por sua ausência. Quando os indivíduos já não conseguem acessar seus destinos, a cidade vira um caos e os prejuízos refletem não apenas no âmbito social, mas também no econômico.

O prejuízo aparece no combustível jogado fora, nos negócios que não são fechados e nos custos de saúde com mais gente adoecendo por conta da poluição. Uma pesquisa realizada pelo software de navegação GPS TomTom GO estimou em R$ 170 bilhões o custo do tráfego para o Brasil, em 2015. De acordo com o levantamento, apenas a cidade de São Paulo – a mais afetada do País – teve prejuízo de R$ 80,2 bilhões naquele ano. Diante do cenário, que beira o caos, o poder público se destaca como o protagonista na busca de soluções.

De acordo com dados da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos divulgados em agosto de 2017, entre 2014 e 2016 o nível da queda de passageiros no transporte público atingiu 18,1%. Só em 2016, o número de passageiros no modal caiu 4,6% em relação a 2015. O cenário não é novidade: o próprio Plano de Mobilidade Urbana de Belo Horizonte (PlanMob BH) frisa que a substituição do veículo privado pelo transporte público só vai acontecer quando houver “intervenções que garantam conforto e segurança para os usuários”.

Para a diretora de Planejamento e Informação da Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans), Elizabeth Gomes, a saída dos usuários do transporte público alerta para a necessidade de um planejamento em parceria com a iniciativa privada e com a sociedade. “A mobilidade é condição básica para a cidade ser atrativa para os negócios. A imobilidade gera prejuízos e leva à deseconomia. Precisamos levar as estratégias para além do transporte coletivo, dando condições e incentivando a diversidade e a integração dos modais, inclusive que as pessoas façam trajetos a pé”, afirma.

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Bicicleta – Nessa lógica de união de esforços rumo ao planejamento, a Associação dos Ciclistas Urbanos de Belo Horizonte (BH em Ciclo) tem uma atuação importante desde 2012. A instituição, que é sem fins lucrativos, é formada por cidadãos que optaram pela bicicleta como meio de transporte e defendem o direito desse modal transitar com segurança pelas vias da Capital. Além disso, a associação atua discutindo com gestores públicos questões acerca da mobilidade urbana; dialogando com ciclistas para ouvir suas demandas e participando do planejamento urbano da cidade.

Segundo o gestor ambiental e membro do BH em Ciclo, Guilherme Tampieri, a associação tem atualmente 360 associados, mas ele acredita que esse número poderia ser muito maior se a cidade fosse adequada para a bicicleta. “Nossas pesquisas mostram que apenas 0,4% da população usa a bicicleta e que 60% estão dispostos a usar desde que sejam feitas melhorias na cidade. Em 2016 levamos nosso plano para os candidatos à Prefeitura e o então candidato, que depois se tornou prefeito, aceitou. Em julho do ano passado apresentamos o PlanBici, mas até agora pouco aconteceu”, relembra Tampieri.

Para ele, são exemplos lugares como Paris e Dinamarca cujos investimentos para o uso da bicicleta vêm do Ministério da Saúde. No Brasil, a referência é Rio Branco (AC), que tem o maior índice de ciclovias entre as capitais. O tema também ganha relevância em agendas internacionais como o Acordo de Paris e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que associam o uso das bicicletas à criação de cidades sustentáveis ou de baixa emissão de carbono.

“As pessoas não querem mais usar o transporte coletivo e, em alguns casos, nem precisariam porque parte desses deslocamentos pode ser feita de bicicleta. Do ponto de vista dos negócios, o uso de bicicleta também é positivo. Estudos mostram que ciclistas gastam mais no comércio local do que motoristas justamente por uma questão de comodidade e oportunidade. Isso sem falar de toda uma cadeia produtiva em torno da bicicleta, que vai desde o próprio veículo até todo um estilo de vida que passa pela moda e alimentação”, pontua o gestor.