Editorial

Dois pedais, uma estrada

Estímulo ao consumo de um lado e juros altos de outro dividem a economia brasileira
Dois pedais, uma estrada
Crédito: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil

O Brasil de 2026 enfrenta uma contradição que não é nova, mas que raramente esteve tão evidente. Enquanto o governo federal adota políticas de estímulo ao consumo, o Banco Central eleva os juros para conter a inflação, criando um cenário contraproducente para a economia. Dois instrumentos de política econômica apontando em direções opostas, ao mesmo tempo.

A expectativa é de manutenção da taxa básica em torno de 15% ao ano por um período mais prolongado, com a possibilidade de um ciclo de redução apenas no segundo semestre. Para as empresas, isso se traduz em crédito caro, margem pressionada e decisões de investimento adiadas. Para os consumidores, juros altos encarecem o parcelamento e corroem o poder de compra, ainda que o mercado de trabalho siga aquecido.

Do outro lado da equação, o déficit primário deve alcançar R$ 90 bilhões, e a dívida pública passou de 71% do PIB no início de 2023 para cerca de 80% ao final de 2025, com tendência de elevação adicional. São números que pressionam o chamado Risco Brasil e encarecem o financiamento do próprio Estado. O câmbio, nesse contexto, opera como termômetro da desconfiança: a volatilidade do real reflete, em tempo real, a leitura que os mercados fazem da sustentabilidade fiscal do País.

A política orçamentária segue como o principal fator de risco para o balanço de crescimento e inflação, segundo o JPMorgan. Medidas para estimular a atividade podem aliviar o curto prazo, mas tornam o trabalho do Banco Central mais difícil e prolongam o ciclo de juros altos. O resultado é um equilíbrio frágil, no qual cada anúncio fiscal carrega o peso de reconfigurar as expectativas dos agentes econômicos e, com elas, o próprio custo do dinheiro.

Não há solução simples nesse impasse, e o debate entre economistas reflete isso. Há quem defenda a prioridade absoluta do ajuste fiscal como condição para qualquer trajetória sustentável de queda de juros; outros argumentam que o aperto excessivo compromete o crescimento potencial e aprofunda as desigualdades estruturais do país.

O que está claro é que o ambiente exige das empresas mais rigor na gestão de caixa, mais seletividade nos investimentos e mais atenção ao custo do capital. Em ano eleitoral, a pressão sobre ambos os lados da equação tende a crescer. Navegar bem por esse período será, em si, uma forma de diferenciação competitiva.

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