Economia

Endividamento das famílias atinge nove em cada dez lares de BH

Juros altos, crédito recorrente e inadimplência crescente pressionam o orçamento doméstico de milhões de brasileiros
Endividamento das famílias atinge nove em cada dez lares de BH
Em março, as dívidas em Minas Gerais atingiram a cifra de R$ 52,65 bilhões | Foto: Diário do Comércio / Leonardo Morais

O endividamento das famílias segue elevado e se consolidou como um fenômeno estrutural tanto em Belo Horizonte quanto no Brasil. De acordo com a pesquisa de endividamento e inadimplência do consumidor Apec, nove em cada dez famílias da capital mineira possuem algum tipo de dívida. Para manter o equilíbrio do orçamento doméstico, as famílias têm recorrido cada vez mais ao crédito, que passou a integrar suas finanças de forma recorrente.

Embora haja variações mensais, o patamar de endividamento permanece alto e o comprometimento da renda é prolongado: as dívidas consomem, em média, cerca de um terço do orçamento mensal das famílias e se estendem por mais de oito meses.

De acordo com as Estatísticas Monetárias e de Crédito divulgadas na segunda-feira (27) pelo Banco Central (BC), as famílias seguem pressionadas pelo crédito caro e recorrem a modalidades de curto prazo, como o cartão de crédito, para manter seus compromissos financeiros.

Em março, a taxa média de juros do crédito livre às pessoas físicas permaneceu elevada, em 61,5% ao ano, apesar do recuo mensal de 0,4 ponto percentual (p.p.).

Com juros tão altos, a inadimplência no crédito total do Sistema Financeiro Nacional (SFN) ficou em 4,3% da carteira em março, com queda de 0,1 p.p. no mês, mas alta de 1,0 p.p. em 12 meses.

“Com esse cenário, a expectativa é que o endividamento das famílias brasileiras e mineiras se mantenha em patamar elevado, apesar de haver alguma tendência de queda, ainda bem contida. A inadimplência, por sua vez, apresentou leve recuo recente, mas ainda atinge uma parcela muito expressiva da população. Mais de 60% das famílias de Belo Horizonte possuem contas em atraso, e uma parte significativa dessas dívidas já ultrapassa 90 dias”, explica a economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Minas Gerais (Fecomércio MG), Gabriela Martins. “Esse quadro é ainda mais grave entre as famílias de menor renda, que concentram os maiores índices de atraso e menor capacidade de pagamento”, completa.

Como mitigar o problema

O grande desafio é reduzir o nível de endividamento e a inadimplência, mas não são as únicas frentes de atuação. O mercado também precisará melhorar a qualidade do uso do crédito. “O equilíbrio entre acesso ao crédito, renda compatível e planejamento financeiro é fundamental para evitar o agravamento da inadimplência e permitir uma recuperação mais sustentável do consumo e da economia”, afirma Gabriela Martins.

No primeiro trimestre de 2026, 89,5% das famílias belo-horizontinas estavam endividadas, 62,6% estavam inadimplentes e 23,8% não teriam condições de pagar suas dívidas em aberto. Entre as principais modalidades, 95,8% das famílias endividadas tinham algum compromisso com cartão de crédito e 28% com carnê.

As dívidas em atraso entre as famílias belo-horizontinas somam, em média, 60,4 dias, e o endividamento compromete, em média, 8,3 meses de renda. Além disso, 33% da renda mensal é comprometida, em média, com o pagamento de dívidas na capital mineira.

Ações e acesso

Segundo o Banco Central, em quatro anos houve um aumento de 34% no número de pessoas com acesso a algum produto de crédito. O crescimento foi observado principalmente em modalidades sem garantia, que possuem juros mais elevados, como cartão de crédito e empréstimo pessoal. O empréstimo pessoal cresceu mais de 214% desde 2020, e o uso do cartão de crédito avançou mais de 55%.

O cartão foi o principal fator de superendividamento das famílias, fenômeno impulsionado sobretudo pela facilidade de acesso ao crédito e pelos juros rotativos dessa modalidade.

Diante desse cenário, o governo federal começou a avaliar medidas para reduzir o endividamento das famílias, como a unificação de dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal em um único contrato, com possibilidade de desconto significativo nos juros, além do uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quitação de dívidas, com limites para a utilização desse recurso.

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