Capital estrangeiro deixa o Brasil, e dólar pode voltar a subir no segundo semestre
O mercado brasileiro registrou saída líquida de R$ 11,4 bilhões de capital estrangeiro em maio, conforme relatório da Elos Ayta. A retirada é a maior desde 2022. Nos primeiros meses de 2026, o Brasil vinha sendo um dos destinos preferidos do capital estrangeiro. No entanto, o cenário mudou rapidamente de apetite para aversão ao risco. Segundo especialistas ouvidos pelo Diário do Comércio, esse movimento, que acabou afetando países emergentes de modo geral, pressiona as taxas de câmbio das moedas emergentes, incluindo o Brasil.
Na análise da economista-chefe do Ouribank, Cristiane Quartaroli, a saída do capital estrangeiro está relacionada à recente alta nas taxas dos treasuries americanos. “Isso acabou levando o fluxo de capital para lá, por ser considerado um mercado mais seguro, o que pressionou as taxas de câmbio das moedas emergentes”, explica.
No entanto, ela acredita que um movimento contrário pode ocorrer nesta semana. “O real está se valorizando nesta segunda-feira, em função da expectativa de um acordo entre Estados Unidos e Irã. Então, isso tende a ser positivo para os mercados, trazendo mais apetite ao risco”, avalia.
Dessa forma, Cristiane Quartaroli analisa que essa tendência pode fazer com que a moeda americana fique abaixo de R$ 5 no curto prazo. A médio prazo, no entanto, ela acredita que pode haver pressão sobre a taxa de câmbio brasileira, principalmente no segundo semestre, em razão das eleições. “Quando a gente tem eleições no radar, isso tende a trazer pressão para a taxa de câmbio. Além disso, ainda temos as incertezas fiscais, que podem voltar a pressionar o câmbio no segundo semestre”.
Ainda segundo a economista do Ouribank, o mercado projeta o dólar próximo de R$ 5,20 no fim do ano. “Então, acho que essa pode ser a tendência pensando no médio prazo”, concluiu.
Na avaliação do especialista em Soluções de Investimentos da Monte Bravo, Rodrigo Franchini, a recente saída de capital estrangeiro reflete tanto a realização de lucros após um período de forte entrada no início do ano quanto um movimento de realocação para ativos considerados mais seguros ou atrativos no cenário global.
Segundo ele, a combinação de juros elevados no Brasil, volatilidade internacional e incertezas geopolíticas tem levado investidores a reduzir exposição à bolsa e migrar parte dos recursos para renda fixa ou outros mercados, o que contribui para a pressão sobre o câmbio.
No entanto, Franchini pondera que esse fluxo deve sustentar um dólar mais elevado nos próximos meses, ainda que sem movimentos abruptos. A médio prazo, ele também acredita que a moeda americana tende a se manter acima de R$ 5, refletindo tanto a menor entrada de capital estrangeiro quanto o cenário de risco, incluindo fatores como eleições e percepção fiscal.
Por outro lado, o diferencial de juros ainda elevado no Brasil pode limitar oscilações mais intensas, ajudando a conter uma disparada maior da moeda. “A gente tem, no médio prazo, uma eleição. Isso pode impactar muito a precificação da moeda, porque, a depender do discurso de cada candidato, o risco Brasil pode ser prejudicado. Juros são um sinal importante de qualquer movimentação que você faça no curto prazo”, finaliza.
Já a economista da Valor Investimentos, Paloma Lopes, comenta que a saída de capital estrangeiro foi uma resposta ao movimento de oferta e demanda. A oscilação do dólar teria feito com que muitos investidores buscassem o mercado exterior. “Vimos o dólar saindo de R$ 5,20 para R$ 5,17, e essa queda deve continuar”, afirmou.
Segundo ela, a tendência é de dólar abaixo de R$ 5 nos próximos meses. “Algo que deve ser visto mais próximo das eleições, não agora. O dólar deve chegar a R$ 4,80, não muito diferente disso, mas vai depender da desconfiança no mercado interno ou até de uma questão de diversificação para minimizar impacto eleitoral”, afirmou.
No entanto, ela avalia que, enquanto persistir o fator externo, a tendência é de o dólar “despencar” ainda mais rapidamente. “Se a gente não tiver uma mudança no cenário global, a gente pode bater R$ 4,50 facilmente”, apostou.
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