Despesa pública em Minas Gerais alcança R$ 75,7 bilhões em 2026
A despesa pública primária de Minas Gerais atingiu o patamar de R$ 75,7 bilhões em 2026, segundo dados da plataforma Gasto Brasil. Considerando uma população de 20,5 milhões de habitantes no Estado, o valor equivale a um gasto de R$ 3,7 mil per capita. Na avaliação do coordenador da plataforma Gasto Brasil, Cláudio Queiroz, o principal problema não é simplesmente quanto Minas Gerais gasta. “O ponto central é saber se esse gasto é sustentável e se cada real utilizado está produzindo benefícios concretos para a população”, afirma.
Ele ressalta que o valor de R$ 75,7 bilhões é elevado e merece atenção, principalmente porque foi alcançado antes do encerramento do exercício de 2026. Entretanto, o especialista pondera que o montante não pode ser classificado como excessivo apenas pelo seu tamanho absoluto. “Minas Gerais é o segundo estado mais populoso do Brasil, possui uma extensa estrutura administrativa e precisa financiar serviços públicos para mais de 21 milhões de habitantes, segundo levantamento do IBGE em 2025”, argumenta.
Para Queiroz, a avaliação técnica deve considerar, sobretudo, a velocidade de crescimento dessa despesa, sua composição e os resultados entregues à população. Ele explica que se o gasto estiver crescendo acima da inflação, da arrecadação e da economia estadual, haverá uma pressão fiscal relevante. Da mesma forma, se a maior parte dos recursos estiver comprometida com pessoal, previdência, custeio e outras despesas obrigatórias, o estado terá menor capacidade para investir em infraestrutura e melhorar os serviços públicos.
Até a data do levantamento, realizado em 30 de julho de 2026, o Gasto Brasil no Estado foi equivalente a 22,6% das despesas públicas da região Sudeste (R$ 334,8 bilhões). Mesmo parcial, o valor também já equivale a 7,7% do Produto Interno Bruto (PIB) mineiro em 2025, que foi de R$ 971,9 bilhões. Segundo o coordenador da Gasto Brasil, o gasto per capita de Minas Gerais não está entre os mais elevados quando comparado, de forma preliminar, à média das despesas estaduais brasileiras apresentada pela própria plataforma.
Em âmbito nacional (União, Distrito Federal, estados e municípios), a despesa governamental ultrapassou a marca de R$ 3,2 trilhões. Desde o início de 2026, o governo federal respondeu por mais de R$ 1,5 trilhão (46%) do total do gasto público. De acordo os dados do levantamento parcial de 2026, todas as unidades federadas (UF) consumiram R$ 876,3 bilhões em despesas públicas, e os municípios o equivalente a R$ 859,2 bilhões.
A participação de 22,6% no total das despesas do Sudeste, segundo avaliação de Queiroz, é compatível com a dimensão econômica e populacional de Minas Gerais e, isoladamente, não indica excesso de gasto. O Estado concentra aproximadamente um quarto da população da região e possui uma estrutura pública proporcionalmente relevante. Portanto, ele afirma que essa participação regional não parece estar fora de parâmetro.
O que exige, de acordo com o especialista, uma ressalva técnica é a relação de 7,7% com o Produto Interno Bruto (PIB). Ele destaca que o valor de R$ 75,7 bilhões corresponde a uma despesa parcial de 2026, enquanto o PIB estadual de R$ 971,9 bilhões corresponde ao último resultado oficialmente disponível para Minas Gerais, referente a 2023, e não ao PIB mineiro de 2025. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informa que os dados estaduais mais recentes disponíveis são os de 2023. “Mesmo com essa diferença temporal, a proporção serve para demonstrar a dimensão econômica do gasto público. O percentual é relevante, mas não é suficiente para afirmar que Minas Gerais gasta demais ou que precisa promover uma redução generalizada de despesas”, assinala.
Na opinião de Cláudio Queiroz, o Estado precisa reduzir despesas ineficientes, estruturas redundantes, desperdícios, contratos mal dimensionados e programas que não entregam resultados. Por outro lado, ele alerta que não seria adequado cortar indiscriminadamente despesas com saúde, educação, segurança ou investimentos capazes de ampliar a produtividade e o crescimento econômico. “Minas Gerais não precisa simplesmente gastar menos; precisa controlar o crescimento das despesas e gastar melhor. O ajuste deve atingir o gasto ineficiente, e não os serviços essenciais e os investimentos estratégicos”, pontua.
Equilíbrio fiscal
Na visão de Queiroz, é preciso proteger a capacidade de investimento. Um estado que utiliza quase toda a sua arrecadação para pagar despesas obrigatórias perde espaço para realizar obras, melhorar estradas, modernizar hospitais e ampliar sua infraestrutura. Isso reduz o crescimento econômico e, no futuro, limita a própria arrecadação. “O equilíbrio fiscal de Minas Gerais depende de três pilares: controle permanente da despesa, aumento da eficiência administrativa e expansão sustentável da economia. Sem esses três elementos, qualquer ajuste será apenas temporário”, esclarece.
Gasto Brasil
Criada em 2025 pela Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), em parceria com a Associação Comercial de São Paulo (ACSP), a plataforma Gasto Brasil reúne informações on-line (da União, Distrito Federal, estados e municípios) sobre despesas com pessoal, previdência, encargos sociais e investimentos, incluindo obras, aquisição de imóveis e outros gastos públicos.
Para ampliar a divulgação dos dados sobre despesas públicas, a CACB e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) farão o lançamento do “Painel Gasto Brasil” na Câmara dos Deputados, no dia 11 de agosto. Na ocasião, serão lançadas novas funcionalidades na plataforma para aumentar ainda mais o nível de transparência de dados para a população, com recortes econômicos, valores mais detalhados por população, índice de qualidade da informação e outros dados relevantes.
Para o presidente da CACB, Alfredo Cotait Neto, é essencial que o consumo de dinheiro público seja acompanhado por toda a população e, para isso, ferramentas como a plataforma Gasto Brasil entram como pilares da vigilância da transparência de dados e suporte para a gestão fiscal. “São dados que precisam ser acompanhados e fiscalizados para que a execução orçamentária seja clara para todos, permitindo cobrarmos do governo respostas quanto ao excesso de gastos, uma vez que a conta não fecha, pois há mais despesas do que arrecadação”, afirma Cotait.
O coordenador da plataforma destaca que o Gasto Brasil torna compreensíveis informações que normalmente estão dispersas em milhares de relatórios, sistemas e planilhas públicas. A ferramenta permite que o cidadão acompanhe quanto a União, os estados e os municípios estão gastando e compare esses valores com população, arrecadação e capacidade econômica. “A transparência pública não se resume à simples divulgação de dados. Para ser efetiva, a informação precisa ser acessível, comparável e compreensível”, assinala Cláudio Queiroz.
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