Tecnologia transforma combate ao desperdício em oportunidade de negócios no Brasil
O desperdício é caracterizado pelo uso displicente – consciente ou não – de um recurso, seja de forma excessiva ou sem aproveitá-lo em todo o seu potencial. Isso pode acontecer no processo de produção, durante o uso ou no descarte e, infelizmente, pode acontecer várias vezes ao longo desse trajeto. Em todas as fases, o desperdício aumenta os custos e penaliza o meio ambiente sem criar valor real. Combatê-lo é uma tarefa que precisa entrar definitivamente para a pauta do debate público e modificar hábitos de governos, empresas e da população. A tecnologia tem sido uma boa aliada na tarefa de conscientizar pessoas e empresas e diferentes plataformas têm gerado lucro, empregos, agregado valor às cadeias produtivas, preservado o meio ambiente e recursos naturais enquanto mitigam o desperdício de alimentos e produtos têxteis.
Os alimentos talvez sejam a ponta mais visível do desperdício no mundo. Basta um olhar mais atento sobre a coleta de lixo para perceber o quanto de comida de boa qualidade vai parar todos os dias nas latas de lixo. Mas o problema começa muito antes de chegar à casa dos consumidores. Dados publicados pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2024, mostram que o Brasil está em 10º lugar entre os que mais desperdiçam alimentos no mundo. Todo ano, cerca de 46 milhões de toneladas de comida são desperdiçadas, aponta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o que representa 30% de toda a produção brasileira. O impacto anual estimado é de R$ 61,3 bilhões, o equivalente a 3% do Produto Interno Bruto (PIB).
Com o objetivo de atuar na ponta do consumo, aliando comércio e consumidores, plataformas como a Food To Save e a Connecting Food têm feito uma pequena revolução evitando que comida boa seja jogada no lixo, reduzindo custos e ainda gerando ganho de imagem para as empresas parceiras.
Desde 2019, a Connecting Food já evitou a emissão de mais de 50 mil toneladas de CO₂ ao evitar o desperdício de 22 mil toneladas de alimentos. Esse resultado é fruto de uma operação que alia tecnologia, rastreabilidade e inteligência de dados para conectar grandes empresas do setor alimentício, como GPA e Assaí Atacadista, a uma ampla rede de mais de 710 organizações que atendem pessoas em situação de vulnerabilidade em todo o Brasil, em mais de 330 cidades.
De acordo com a engenheira de alimentos e fundadora da Connecting Food, Alcione Pereira, em Minas Gerais, a plataforma evitou o desperdício de 200 toneladas de alimentos, oportunizou 60 mil refeições complementadas, teve R$ 1,3 milhão em alimentos doados e atendeu 20 organizações da sociedade civil (OSCs) atendidas.

“Comecei a estudar sobre desperdício e entrei em uma escola de empreendedorismo de impacto. Não queria fazer uma ONG, queria um negócio lucrativo. De 2015 a 2018, com muitos testes, consultorias técnicas, até encontrar o nosso modelo de negócios. Ajudamos a diminuir o custo de descarte e ainda ajudamos a melhorar a reputação institucional do parceiro”, afirma Alcione Pereira.
A plataforma combate o desperdício em diferentes frentes:
- Gestão: coordenação e monitoramento do fluxo de doações entre doadores e organizações sociais.
- Estruturação: composição e otimização de processos de doações nas empresas, com base em expertise técnico consultivo.
- Projetos especiais: estratégia, planejamento e implantação de diferentes modelos autônomos de redistribuição de alimentos em territórios e áreas vulneráveis.
- Mobilização e engajamento: programas customizados para fortalecer a causa dentro das organizações, por meio de experiências, dados e histórias.
Já a Food To Save atua conectando estabelecimentos e consumidores em torno de soluções que dão um novo destino aos alimentos que seriam descartados. Em 2025, a plataforma ajudou a salvar mais de 3 mil toneladas de alimentos, evitando a emissão de mais de 2,9 mil toneladas de CO₂. No total, as ações da Food To Save geraram R$ 31 milhões em receita incremental para os parceiros comerciais.
Em Minas Gerais, foram mais de 280 mil sacolas salvas, alcançando 55 mil clientes, 280 toneladas de alimentos salvos (9,33% do total) e 707 toneladas de CO₂ evitados na atmosfera (24,4% do total).
Segundo o CEO da Food To Save, Lucas Infante, a plataforma, criada em 2021, para revolucionar o desperdício de alimentos no Brasil, está presente em 14 estados e mais de 100 cidades. Por meio de um aplicativo, liga estabelecimentos como padarias, supermercados, franquias, indústrias, hortifrutis, entre outros, que possuem excedentes de produção, produtos próximos à data de vencimento ou fora do padrão, mas que ainda estão perfeitamente consumíveis a clientes engajados com o consumo consciente. Em 2025, realizou sua primeira aquisição estratégica, incorporando a Fruta Imperfeita, que conecta pequenos e médios produtores com alimentos imperfeitos diretamente aos consumidores.

“Cada um tem um papel vital para mudar a realidade do desperdício. O grande desafio sempre foi uma questão de reeducação da sociedade. Somos mais que um aplicativo, somos um movimento contra o desperdício. O Brasil ainda está longe de fazer essa mudança. Ainda não existem tantos incentivos para a responsabilidade ambiental, apesar de discutirmos sobre isso há tantos anos”, afirma Infante.
A meta para 2026 é dobrar os resultados obtidos no ano passado. Em Minas Gerais, o principal foco é Belo Horizonte e a sua Região Metropolitana. Entre os principais parceiros da plataforma está a rede mineira de supermercados Supernosso, em terceiro lugar entre as marcas que mais salvaram alimentos, com 144.849 sacolas salvas; 144 toneladas de alimentos salvos; 362 toneladas de CO₂ não emitidos.
“Minas Gerais é um estado muito grande e com a população pulverizada, o que nos impõe desafios diferentes de outros territórios. Ainda assim, tem resultados surpreendentes, com parceiros muito engajados. Agora nos voltamos para o nosso marketplace, trabalhando na ampliação de parceiros e na expansão das cidades e em como deixar a experiência mais leve e intuitiva. Tem que ser fácil para a pessoa e para as empresas. O boca a boca é a maior propaganda”, pontua o CEO da Food To Save.
Cotton Move quer evitar desperdício de produtos têxteis no Brasil
A indústria têxtil é apontada como uma das mais poluentes do mundo justamente por causa do desperdício ao longo da cadeia produtiva e, especialmente, pelo descarte inadequado. Especialistas de mercado estimam que o mundo gera hoje cerca de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano, sendo o Brasil responsável por 4 milhões de toneladas anuais.
Dados da Fundação Ellen MacArthur, ONG internacional dedicada à promoção da economia circular, apontam que menos de 1% dos resíduos têxteis é reciclado em novos materiais têxteis, num processo chamado upcycling e que enfrenta barreiras tecnológicas e fiscais para ganhar escala. Outros 13% são transformados em produtos de menor valor agregado, como forros e enchimentos, no chamado downcycling.
Iniciativa brasileira de economia circular focada na reciclagem de roupas e na gestão de resíduos têxteis, a Cotton Move atua por meio de centenas de Pontos de Entrega Voluntária (PEVs) para coletar roupas usadas para transformá-las em novas fibras, fios e produtos de moda de menor impacto ambiental.
Para o CEO da Cotton Move, José Guilherme Teixeira, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída pela Lei nº 12.305/2010, é um bom começo, mas prefeituras e estados podem fazer mais, criando regulações e fiscalizações. O marco legal organiza a gestão dos resíduos no Brasil, definindo regras para evitar danos ao meio ambiente e à saúde humana, exigindo a participação de governos, empresas e cidadãos.
“A questão do desperdício não é só da indústria, é preciso que toda a sociedade civil se engaje. Durante os anos, a indústria foi cobrada por melhores soluções no processo de produção, mas não se evoluiu na questão do descarte têxtil. É um absurdo que se descarte a céu aberto, impactando diretamente o meio ambiente, gerando alterações no clima”, diz.
O trabalho da Cotton Move obedece quatro passos fundamentais:
- Coleta de descartes: recebe roupas pós-consumo e retalhos da indústria têxtil em mais de 900 pontos de coleta espalhados pelo Brasil.
- Transformação industrial: o material recolhido é triturado e processado para virar nova matéria-prima em escala industrial.
- Parcerias com o varejo: marcas conhecidas apoiam o ecossistema e utilizam fibras recicladas em novas coleções e embalagens.
- Acesso digital: o aplicativo ou site oficial ajuda a localizar o ponto de descarte voluntário mais próximo.
- A transformação industrial dos materiais recolhidos pela Cotton Move acontece no parque industrial de uma parceira estratégica em Elói Mendes, no Sul de Minas. Desde a sua fundação, em 2018, a plataforma soma mais de 500 pontos de entrega voluntária, mais de 820 mil peças produzidas com fibras recicladas e mais de 81 mil produtos feitos do upcycling de tecidos.
“Resolver a questão do descarte não resolve a questão do desperdício. O consumo e a produção conscientes precisam ser incentivados. Em setembro teremos uma nova versão do aplicativo, mais interativa com o consumidor porque precisamos continuar trabalhando na educação da população sobre o tema da reciclagem e do combate ao desperdício”, completa o fundador da Cotton Move.
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