Minas mira protagonismo na economia circular e avança na reciclagem veicular

Mudança de modelo cria oportunidades para indústria, empregos e tecnologia
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Minas mira protagonismo na economia circular e avança na reciclagem veicular
Milhões de veículos chegam ao fim da vida útil sem uma cadeia estruturada de reaproveitamento | Foto: Reprodução Adobe Stock

A economia circular, vista como eixo estratégico para a competitividade e a sustentabilidade industrial, ainda enfrenta obstáculos significativos no Brasil. Embora o conceito tenha ganhado força em setores como o automotivo, especialistas apontam que o País está longe de romper a lógica da economia arterial, baseada em extrair, produzir e descartar, e de capturar plenamente o potencial econômico da circularidade.

Dados globais reforçam a urgência: mais 90% de tudo o que é produzido no mundo não retorna ao ciclo produtivo. Em 2019, o índice global de circularidade era de 9%; hoje está em 6,9%, em razão do crescimento acelerado do consumo. “Estamos produzindo cada vez mais, e a taxa do que reciclamos está ficando proporcionalmente menor. Esse resíduo todo vai parar no meio ambiente”, afirma o professor Daniel Castro, pesquisador e coordenador de um projeto pioneiro de reciclagem veicular no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG).

O especialista lembra que a pressão sobre os recursos naturais já ultrapassa limites críticos. “Estamos acabando com os recursos do planeta”. Castro cita que habitação e infraestrutura concentram 42% do consumo global de materiais, seguidas pela alimentação (21%) e pela mobilidade (12%). Ele pondera, porém, que a solução não passa apenas por atacar os maiores consumidores, mas por mudar o modelo econômico. “Investimos 0,2% do PIB (Produto Interno Bruto) em sustentabilidade. Assim, não vamos resolver”, alerta.

Diante dessa necessidade, a transição para modelos produtivos mais sustentáveis, baseada na economia circular, dominou os debates do seminário “Inovação Tecnológica para a Economia Sustentável 2025”. Especialistas, empresários e representantes do governo estadual concordam: Minas Gerais reúne condições para liderar o setor no País, mas ainda precisa superar gargalos históricos na gestão de resíduos, na regulação e na articulação entre empresas.

Foto: Imagem gerada por inteligência artificial (IA)

Circularidade além da reciclagem e o protagonismo do setor automotivo

Para a professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais (IFMG) Camila Castro, a lentidão brasileira decorre de uma compreensão estreita do tema. “A reciclagem é apenas um ponto. Existem diversas estratégias ao longo da vida útil do produto, como prolongar o uso, remanufaturar, reutilizar e redesenhar. Precisamos de muitos atores pensando nisso desde a produção”, diz.

Ela explica que o desafio central é sistêmico, e mesmo setores avançados, como o automotivo, não conseguem fechar o ciclo de forma isolada. “A economia circular não funciona sozinha. É necessária sinergia para definir quem recicla, quem usa e quem processa. Uma empresa sozinha, ou mesmo várias sozinhas, não consegue sustentar o modelo”, completa.

A indústria, porém, já sente pressões concretas. O setor automotivo, por sua vez, é apontado como o mais promissor para ganhos de escala.

O Programa Mover estimula investimentos em novas rotas tecnológicas e aumenta as exigências de descarbonização da frota automotiva brasileira, incluindo carros de passeio, ônibus e caminhões. Com ele, as empresas terão de apresentar inventários de emissões, o que intensifica a necessidade de rastrear materiais, emissões e impactos ao longo da cadeia.

carros velhos
Cerca de 2 milhões de veículos chegam ao fim da vida útil todos os anos | Foto: Reprodução Adobe Stock

Sancionado em 2024, além de tratar da pauta do desenvolvimento sustentável, o programa traz obrigações já exigidas das empresas no exterior, como a descarbonização e a adoção de novas tecnologias. O programa prevê, por exemplo, limites mínimos de reciclagem na fabricação dos veículos e a criação do IPI Verde. Esse sistema tributário beneficia quem polui menos, com menor imposto. No total, serão R$ 19,3 bilhões em créditos financeiros entre 2024 e 2028. Eles podem ser usados pelas empresas para abatimento de impostos federais, em contrapartida a investimentos realizados em P&D e em novos projetos de produção.

O passivo ambiental e a crise dos desmontes

O diretor de Desenvolvimento Logístico da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Sede), Lucas Augusto Norberto e Silva, destaca que o País deve produzir 2,5 milhões de veículos em 2024, enquanto 2 milhões chegam ao fim da vida útil todos os anos. Ele ressalta, no entanto, que a desmontagem ainda carrega estigmas. Dos 2,8 mil estabelecimentos classificados como desmontes no País, apenas 500 são credenciados. Segundo ele, a baixa profissionalização limita ganhos econômicos, tecnológicos e ambientais.

“Se não tratarmos isso adequadamente, teremos um passivo ambiental monstruoso. Uma empresa sozinha não consegue processar esse volume. E, no Brasil, temos o agravante de que sempre tratamos a desmontagem como algo irregular. Regularizar e estruturar a cadeia pode gerar milhares de empregos”, sugere Silva.

Ele reforça que, além de reduzir emissões e apoiar metas de descarbonização das montadoras, pressionadas por compromissos internacionais, a circularidade tende a destravar valor econômico significativo. O diretor exemplifica que o valor agregado da reciclagem é ainda maior no caso dos veículos elétricos, especialmente com a entrada de créditos de carbono e energia. E adianta: o governo estadual está finalizando o decreto que irá regulamentar a cadeia até meados do próximo ano.

A criação de um Conselho Estadual de Economia Circular está entre as propostas para acelerar decisões e alinhar esforços de governo, empresas, academia e sociedade civil. Inclusive, já existe um grupo de trabalho com várias áreas do próprio governo, como as Secretarias de Meio Ambiente e da Fazenda, a Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep), o Cefet, a Secretaria Municipal de Educação (SME), a Stellantis e a Associação de Desmontes Veiculares e Peças Recicladas em Minas Gerais (Adlex-MG).

Rede nacional de reciclagem de veículos inicia operação com cinco desmontes

O seminário “Inovação Tecnológica para a Economia Sustentável 2025” também marcou o anúncio da primeira rede nacional de reciclagem de veículos, iniciativa coordenada pelo professor Daniel Castro, que há 15 anos desenvolve pesquisas no Cefet-MG com apoio do governo do Japão.

Segundo Castro, a rede já opera com cinco desmontes integrados, responsáveis por mais de 300 veículos reciclados. Todos são monitorados por um selo ambiental criado por ele, que certifica o impacto evitado e a rastreabilidade dos materiais.

A mudança regulatória impulsionará a demanda. O programa federal Mover, em fase final de estruturação, deve obrigar montadoras a encaminhar cerca de 20% dos veículos produzidos para reciclagem. “Esses veículos precisarão ser reciclados em algum lugar. A rede pretende absorver essa demanda e prestar o serviço por meio de empresas que trabalham com a reciclagem de materiais, como aço, plástico, vidro e borracha”, detalha.

Por fim, o professor calcula que o mercado brasileiro de reciclagem veicular deve movimentar R$ 20 bilhões ao ano, podendo crescer com a expansão dos veículos elétricos e com a monetização de créditos de carbono e energia. “É um movimento gigantesco para a economia”, conclui.

Escute, a seguir, uma análise da reportagem gerada com o apoio da inteligência artificial (IA)

Sobre o autor

Mara Bianchetti

Editora do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo pela Newton Paiva, com especialização em Jornalismo em Ambientes Digitais pelo UniBH. Premiada entre os jornalistas mais admirados da imprensa de Economia, Negócios e Finanças. LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/marabianchetti/

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