Perfil feminino no mercado financeiro une investimentos a objetivos de vida
A mulher que investe está cada vez mais interessada em entender o próprio dinheiro, mas ainda representa uma parcela menor do mercado financeiro. Para a gerente de Educação Financeira da B3, Maria Luiza Limeres, o perfil feminino tem uma característica particular: a relação com o dinheiro costuma estar diretamente ligada a objetivos de vida, como cuidar da família, empreender, garantir liberdade ou preparar o futuro.
Durante o painel “Como investir”, realizado no Encontro D’Elas, da Financial Experts, realizado na terça-feira (11) em Belo Horizonte, a gerente da B3 destacou que há uma oportunidade relevante de ampliar a participação feminina entre os investidores. Segundo dados apresentados por ela, 33% das mulheres possuem algum tipo de aplicação financeira, contra 41% dos homens.
Quando o recorte é a renda variável, a participação feminina é ainda menor. De acordo com a gerente, as mulheres representam 26% dos investidores da B3 nesse segmento, que inclui produtos como ações e ETFs. O número corresponde a aproximadamente 1,45 milhão de mulheres, considerando um universo de 5,5 milhões de CPFs de investidores em renda variável.
Apesar da participação proporcional ainda ser considerada tímida, Maria Luiza Limeres ressalta que houve crescimento no número absoluto de mulheres investidoras nos últimos anos, impulsionado pelo aumento geral da quantidade de pessoas físicas no mercado.
“A gente vê que tem um apetite, a gente vê que tem um interesse muito forte do grupo para entender, para se capacitar, para ser dona do próprio dinheiro, estabelecer uma relação melhor com o dinheiro”, afirmou.
Na avaliação apresentada no encontro pelas painelistas, uma das principais diferenças no comportamento financeiro feminino está na maneira com que a mulher costuma enxergar o dinheiro. Em vez de ser associado exclusivamente a poder ou patrimônio, o recurso tende a estar relacionado a uma finalidade. “Mulher investe o dinheiro com algum objetivo”, destacou a CEO da Vos Investimento, Mariella Gontijo, que também participou do painel.
Segundo ela, a educação financeira voltada ao público feminino precisa partir justamente dessa conexão. Em vez de começar apenas pela classificação tradicional de perfil de risco, a abordagem deve considerar o que a investidora pretende realizar com os recursos. “Se você não linka o dinheiro da mulher com o objetivo que ela tem, ela não tem interesse em tomar conta do dinheiro”, explicou.
A mudança de comportamento, segundo a CEO, ocorre quando a mulher percebe que precisa assumir o controle financeiro para alcançar uma meta concreta. Entre os exemplos citados estão a necessidade de manter a família, salvar uma empresa ou garantir condições para o futuro.
Esse aspecto também ajuda a explicar o movimento de aproximação das instituições financeiras com o público feminino. Para as painelistas presentes, a expansão da participação das mulheres no mercado de investimentos exige não apenas a oferta de produtos, mas também informação e educação financeira.
Mais mulheres no controle do patrimônio
Outro ponto destacado durante o painel foi a perspectiva de uma transferência crescente de patrimônio para as mãos das mulheres. Mariella Gontijo chamou a atenção para estudos que apontam para uma participação feminina cada vez maior na riqueza mundial. São indicadores que mostram que em 10 anos mais de 50% do patrimônio do mundo estará na mão de mulheres.
Para ela, esse movimento aumenta a responsabilidade das mulheres em se preparar para administrar o patrimônio que chegará às suas mãos. “Dinheiro é poder”, afirmou. Mas, na visão da CEO da Vos, esse poder deve ser entendido principalmente como poder de escolha e liberdade. Ter recursos próprios pode permitir que uma mulher empreenda, mude de carreira, permaneça em uma relação ou deixe um relacionamento, por exemplo, sem ficar financeiramente dependente. “Eu acho que a gente tem uma responsabilidade de se preparar para tomar conta desse dinheiro”, disse.
A expectativa também é de que essa mudança produza efeitos para além das finanças pessoais. Mariella Gontijo citou o perfil filantrópico de mulheres que passaram a administrar grandes fortunas após processos de transferência de patrimônio, como foi o caso de Jeff Bezos que se separou de MacKenzie Scott em 2019 após 25 anos de união. A ex-mulher recebeu uma fortuna no divórcio e tornou-se mundialmente famosa por sua intensa e rápida atuação na filantropia.
Ela relatou também o caso de uma cliente que recebeu uma grande herança e decidiu direcionar os recursos para investimentos de impacto. Segundo Mariella Gontijo, a investidora queria que o patrimônio não apenas garantisse sua própria vida financeira, mas também contribuísse para causas nas quais acreditava. “Isso é não querer só entender de finanças, é entender aonde você vai alocar o dinheiro, o que eu quero para o mundo, tem uma mudança muito grande aí”, afirmou.
A característica reforça, na avaliação de Mariella Gontijo, uma tendência de a mulher considerar não apenas quanto determinado investimento pode render, mas também onde o dinheiro será aplicado e quais efeitos pode produzir.
Ser conservadora não significa investir pior
A sócia da Portofino Family Office, Alice Carsalade, também chamou a atenção para outro aspecto recorrente entre as mulheres: muitas se definem como conservadoras, mas nem sempre conhecem de fato os ativos que compõem suas carteiras.
Ela comenta que a avaliação de ser conservadora não deve ser vista como uma característica negativa ou como sinônimo de falta de conhecimento. “Ser conservador não é ser menos. Ser conservador no Brasil é melhor do que ser agressivo”, ressaltou.
Para Alice Carsalade, o ponto central não é simplesmente escolher entre ser conservadora ou agressiva, mas compreender os investimentos, os riscos assumidos e a finalidade de cada recurso.
Educação financeira como porta de entrada
A estratégia das especialistas para ampliar a participação feminina passa, portanto, pela educação financeira. As instituições vêm direcionando parte das estratégias especificamente às mulheres, diante do interesse crescente desse público em compreender melhor as próprias finanças.
O desafio é transformar esse interesse em autonomia efetiva. A ideia que as painelistas quiseram passar é de que assumir o controle do dinheiro significa mais do que aprender a investir. Significa conquistar liberdade para fazer escolhas e, em uma perspectiva mais ampla, participar das decisões sobre o destino de uma parcela cada vez maior do patrimônio. “Minha vontade é que todo mundo saia daqui com essa vontade de querer tomar conta do dinheiro”, afirmou Mariella Gontijo. “Não é só a liberdade, é mudar o mundo. Então, eu estou torcendo para esse dinheiro chegar nas nossas mãos”, finalizou.
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