Cultura consciente, liderança e novas gerações: quem muda primeiro?
Um jovem te encara sem sorrir, sem desviar o olhar, sem reagir. Antes de rotular como desinteresse, vale perguntar: o que essa geração está tentando nos dizer com o corpo? Um estudo da Universidade da Califórnia em Los Angeles (Ucla, sigla em inglês para University of California, Los Angeles) mostrou que crianças afastadas das telas por cinco dias recuperaram, de forma significativa, a capacidade de reconhecer expressões faciais. A pesquisadora Yalda Uhls resume assim: o cérebro social precisa de prática constante, e quando a tela substitui o encontro, essa prática se perde. O chamado olhar da Geração Z não é frieza. É sintoma de um jeito novo de estar no mundo.
O mesmo movimento aparece na liderança. A Geração Z está recusando conscientemente cargos de chefia, fenômeno batizado de conscious unbossing. Segundo o Global Leadership Forecast da DDI, 80% dos profissionais de recursos humanos (RH) não confiam no pipeline de liderança de suas empresas, e os mais jovens são 1,7 vez mais propensos a abrir mão de um cargo de gestão para proteger o próprio bem-estar. Não é acomodação. É recusa consciente ao modelo de chefia que a geração anterior descreve, ela mesma, como desgastante.
Os números da gestão de pessoas confirmam a distância entre discurso e prática. Pesquisa do ecossistema Great People revela que 68,1% dos profissionais têm dificuldade em lidar com a Geração Z, e 96,9% consideram saúde mental um tema importante na gestão. Mas apenas 47,2% das empresas investem de fato em iniciativas nessa área. É nessa lacuna, entre reconhecer o problema e agir sobre ele, que a cultura consciente se perde.
E diante desse novo cenário, como construir uma cultura que seja sustentável? Importante lembrarmos que cultura não se impõe, se constrói junto. Talento não se retém pela régua antiga, se conquista pelo propósito. Segundo a Randstad, 55% da Geração Z já usa inteligência artificial para resolver problemas no trabalho, o maior índice entre todas as gerações. Eles chegam rápidos, conectados e exigentes. Cabe à liderança decidir se vai insistir em modelos que já não respondem, ou se vai ter a coragem de reaprender.
Não são gerações opostas. São prioridades diferentes esperando o mesmo cuidado. Pesquisa da Robert Half mostra que 86% da Geração Z prioriza crescimento acelerado, enquanto 66% dos Baby Boomers valorizam equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Liderar com consciência é abrir espaço para as duas coisas ao mesmo tempo, sem hierarquizar quem sofre mais ou quem merece mais escuta.
Cultura consciente não é sobre validar tudo que é novo, nem exigir que os jovens caibam em moldes antigos. É sobre construir pontes reais entre gerações. A pergunta que fica não é se as novas gerações vão se adaptar a nós. É se estamos dispostos a evoluir com elas?
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