Empreendedorismo após os 60 cresce e redefine trabalho no Brasil
São Paulo – Aos 59 anos, Rosana Sasaki decidiu que a carreira no mercado financeiro não precisava ser seu único caminho profissional. Executiva no Itaú, passou a conciliar trabalho corporativo e empreendedorismo, ao abrir uma empresa de eventos e turismo para pessoas maduras.
Rosana ainda não se aposentou e segue no mercado de trabalho tradicional enquanto cuida do empreendimento à noite e aos fins de semana. “Empreender depois dos 50 foi meio que por um acaso, mas o bacana é que a gente não começa do zero, a gente começa já com repertório”, afirma.
Estudo da empresa Nexus, de pesquisa e inteligência de mercado, aponta que 1 em cada 4 brasileiros acima 60 anos está no mercado de trabalho, e mais metade deles é empreendedor (50,6%).
O levantamento, feito com exclusividade para a Folha, tem como base a Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Para Marcelo Tokarski, CEO da Nexus, os dados mostram que o trabalho nessa fase da vida não desaparece, apenas muda de formato.
“Ao que parece, o empreendedorismo surge como duas possíveis alternativas: por escolha, ou seja, pela busca de autonomia e construção de um projeto de vida mais ativo, ou por necessidade de continuar gerando renda”, afirma, acrescentando que é importante não romantizar esse caminho.
O estudo mostra também o lado vulnerável desse movimento: 8 em cada 10 trabalhadores 60+ que atuam por conta própria não têm CNPJ.
Levantamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) mostra que o país chegou ao recorde de 4,5 milhões de empreendedores com 60 anos ou mais.
Além de crescer em número, esse empreendedorismo está mais associado à oportunidade. Entre 2024 e 2025, a proporção de negócios criados por empreendedores 60+ porque identificaram um nicho de mercado passou de 55% para 58%. Empreender é hoje o segundo maior sonho do brasileiro, atrás apenas da casa própria.
Gilvany Isaac, gestora nacional do Programa de Empreendedorismo Sênior (60+) e do Programa Futuridade, afirma que os números precisam ser lidos levando em conta as diferenças entre as idades, a renda e a trajetória profissional.
Aos 50, o empreendedorismo costuma aparecer mais como resposta à perda do emprego e à dificuldade de recolocação. Depois dos 60, ganha mais espaço a busca por propósito, autonomia e uma nova forma de usar a experiência acumulada.
“É um público [60+] que faz essa transição de carreiras por propósito. Mas a gente sabe que nem todo mundo está igual nesta transição. Aos 50 e poucos, muitas vezes perde o emprego e não consegue recolocação, aí vai para o empreendedorismo”, afirma.
Para Gilvany, a experiência torna o empreendedorismo mais atraente depois dos 60: o trabalhador chega com conhecimento, contatos e, muitas vezes, renda de aposentadoria, sem depender só do negócio.
A empresa de Rosana organiza viagens para um público entre 60 e 80 anos. Segundo ela, a proposta é criar experiências além dos roteiros tradicionais para esse público.
Em Olímpia (SP), por exemplo, o grupo participou de uma micareta fora de época, de um desfile, usou camisetas customizadas e tomou banho de espuma. No ano passado, Rosana levou 35 pessoas para sua primeira viagem internacional. Em outra ocasião, reuniu 400 pessoas em um mesmo hotel.
“Eu penso [na aposentadoria] como liberdade para escolher onde quero colocar minha energia, meu conhecimento e meu tempo”, diz.
A permanência dos mais velhos no trabalho também aparece nos vínculos formais. Entre janeiro de 2023 e junho de 2026, o número de trabalhadores de 50 a 64 anos com carteira cresceu 34,7%, de 9,39 milhões para 12,65 milhões. Entre os que têm 65 anos ou mais, o salto foi ainda maior, de 73,6%, de 993 mil para 1,64 milhão. Em comparação, os vínculos de jovens de até 24 anos cresceram 13,5% no período.
O aumento, porém, convive com o etarismo. Para Mórris Litvak, fundador da Maturi, empresa de trabalho e renda na maturidade, o preconceito leva profissionais mais velhos ao empreendedorismo como alternativa ao emprego formal.
Segundo ele, o Brasil envelheceu rápido, mas ainda se vê como jovem; a ideia de “rejuvenescer” empresas exclui profissionais mais velhos.
“É quase que normal, é aceito, é ok eu dispensar ou não contratar mais velhos”, diz.
Para Litvak, o etarismo é menos reconhecido que outras discriminações e muitas vezes passa despercebido. A trajetória da Maturi reflete essa dificuldade.
Criada em 2015 como Maturi Jobs, com foco em vagas para profissionais mais velhos, a plataforma ampliou sua atuação em 2020. Segundo Mórris, a dificuldade de recolocação fez crescer entre os usuários a procura por caminhos alternativos, como consultoria, prestação de serviços e empreendedorismo.
Empreender pode ser escolha ou consequência de uma porta fechada. Litvak afirma que, após os 50, pesa mais a renda; depois dos 60, propósito e complemento de renda.
A historiadora e cenógrafa Chris Ayrosa, 71, representa esse segundo movimento. Depois de décadas trabalhando com eventos, ela mantém hoje um escritório ao lado da filha e produz conteúdo para mulheres 70+, defendendo que a idade não deve interromper planos.
“Hoje, luto para que a geração mais nova olhe para a mulher de 70 anos sem preconceito”, afirma.
A executiva de recursos humanos Viviane Marrese, 64, transformou uma demissão após os 50 em novo projeto. Após décadas em multinacionais, foi impedida temporariamente de atuar em RH por acordo de não competição.
Ela criou um negócio de orientação para mulheres maduras. “Eu tenho 45 anos como RH e você tá querendo que eu vá começar do zero? Não, eu não vou começar do zero”, afirma.
Para quem empreende, estar no LinkedIn deixou de ser apenas uma forma de procurar emprego. Milton Beck, diretor-geral da plataforma para a América Latina, afirma que a rede se tornou uma espécie de cartão de visitas profissional.
Com 1,3 bilhão de usuários, o LinkedIn tem 100 milhões no Brasil, seu terceiro maior mercado, atrás de Estados Unidos e Índia. Beck destaca seu caráter profissional.
A empresa investe em estudos e treinamentos para o público 50+, mas, segundo Beck, persiste o preconceito: 50% dos recrutadores hesitam em contratar maiores de 45 anos.
O LinkedIn não estabelece filtro de idade para o candidato, mas a seleção é feita pelas empresas –e é nesse momento que o etarismo pode aparecer. A plataforma oferece cursos, conteúdos e iniciativas de conscientização voltados a profissionais mais velhos.
A plataforma orienta profissionais mais velhos a não reforçar o autoetarismo em reuniões e entrevistas, evitando insegurança com tecnologia e diferenças geracionais.
Gilvany, do Sebrae, também aponta o autoetarismo como barreira. “A própria pessoa [pode] achar que não tem mais a capacidade e que toda expertise dela não tem valor no mercado”, afirma.
Este é o novo capítulo da série sobre Longevidade da Folha. As reportagens discutem o impacto do envelhecimento nas contas públicas, a pressão sobre o sistema de Previdência e as transformações no mercado de trabalho. Especialistas também abordam desafios e oportunidades para empresas de áreas como habitação, turismo e varejo, bem como reflexões sobre o que significa viver mais e melhor em meio ao aumento do custo de vida.
Reportagem distribuída pela Folhapress
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