Santa Casa BH completa 127 anos entre tradição, inovação e desafios na saúde

Provedor Roberto Otto Augusto de Lima detalha trajetória, desafios e o compromisso da instituição com a saúde em Minas Gerais e no Brasil
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Mais antigas que o Brasil, as Santas Casas de Misericórdia surgiram em Lisboa, Portugal, em 1498. O objetivo inicial era praticar as catorze obras de misericórdia cristãs, ajudando os pobres, os presos, os órfãos e os doentes. As Santas Casas vieram para o Brasil junto com a colonização portuguesa para cuidar de doentes e pessoas desamparadas nas novas vilas.

A primeira unidade foi fundada em Santos, em 1543. Hoje, a maior e mais importante delas está em Belo Horizonte. A Santa Casa BH, o maior hospital 100% do Sistema Único de Saúde (SUS) do País, foi fundada em 1899, menos de dois anos depois da própria Capital.

Nessa entrevista exclusiva, o provedor da Santa Casa BH, Roberto Otto Augusto de Lima, conta uma história de resistência, amor ao próximo, profissionalismo e inovação que deve orgulhar todos os mineiros.

A Santa Casa BH tem 127 anos. Poucas instituições no mundo duram tanto. Qual característica o senhor aponta que faz com que a instituição tenha essa capacidade de adaptação aos novos tempos?

Eu acredito muito que é o engajamento e o envolvimento dos profissionais da Santa Casa que a fazem ter essa resiliência. E também a tradição, a Santa Casa nunca esquece o seu passado, ela sempre se orienta pelo seu passado, mas também com muita inovação. A gente já vê isso desde o nascimento dela em barracas. Isso mostra o envolvimento daquelas pessoas que instituíram a Santa Casa, a obstinação delas em cumprir o seu objetivo. Então, eu acho que é algo que permanece na cultura da instituição. E, apesar de termos toda essa tradição, também temos uma cultura de inovação. A Santa Casa está sempre buscando meios de cumprir o objetivo dela, contornando obstáculos que surgem por todas as dificuldades sociais que o País sempre enfrentou.

Roberto Otto Augusto de Lima
Foto: Diário do Comércio / Giulia Simmons

O senhor é advogado especialista em direito tributário, com trajetória nas áreas jurídica, empresarial e de gestão em saúde. Como o senhor veio parar na Santa Casa?

A gente brinca que aqui a gente não escolhe, nós somos escolhidos. E isso é uma verdade. Eu nunca pensei em ser provedor da Santa Casa. Eu já participo da Associação Santa Casa há quase 18 anos como voluntário. E fui me envolvendo… A missão da instituição, o propósito que ela defende, acabam trazendo a gente para cá, sabe? É claro que a gente também precisa gostar de ser desafiado. Ela traz uma recompensa muito grande. Quando a gente vê os pacientes tendo alta, uma família agradecendo os cuidados que receberam, milhares de famílias que são impactadas pela nossa atuação, isso faz tudo valer a pena. Tem muita gente até que tem uma relação de quase amor e ódio com a Santa Casa porque as dificuldades são muito grandes.

Citando alguns dos números básicos da Santa Casa BH: 1.200 leitos, mais de 7 mil profissionais, 11 unidades integradas, mais de 3,6 milhões de atendimentos realizados todos os anos. Qual o significado de liderar o maior hospital SUS do Brasil?

Isso significa muita responsabilidade da instituição e dos que aqui atuam. A gente tem muita dificuldade de prever o futuro, quais vão ser as diretrizes do poder público. Vivemos um momento político caótico. Isso é desafiador para uma instituição desse tamanho, que precisa de muito planejamento para atuar. Precisamos estar antenados sobre quais serão as necessidades da sociedade e, principalmente, o que o poder público vai nos demandar, porque nós somos prestadores de serviços. Isso também está muito ligado à recompensa que nós temos como profissionais, quando a gente consegue superar esses desafios e ver a importância que a instituição tem para todo o Estado e para o País. Recebemos pacientes do Brasil inteiro. Isso aumenta o senso de responsabilidade e nos faz ter muita dedicação ao planejamento, à governança e também ter rapidez em tomar decisões, flexibilidade para que a gente possa mudar o rumo sem esquecer nosso objetivo maior.

Os anos 2000 foram muito duros para a Santa Casa BH por causa das dívidas. Hoje, o grupo tem uma série de prêmios em gestão. Como a profissionalização da gestão ajudou a resolver esse problema?

A Santa Casa BH passou, talvez, por um dos piores momentos nesse tempo porque o dinheiro público não chegava, tinha o serviço a ser prestado, não podia mandar os pacientes embora. E como que a gente equaliza algo tão grande, tão grave como era essa questão do orçamento? Voltando um pouco atrás, não existia Sistema Único de Saúde e nem Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social, anterior ao SUS). O Inamps financiava a saúde para quem tinha carteira assinada, mas antes disso não havia financiamento público. O que existia era só um apoio do poder público. Os imóveis foram doados para a Santa Casa. Nós também temos imunidade tributária desde as primeiras constituições brasileiras. Esse era o apoio que havia do poder público e o resto era da sociedade. Eram empresários, famílias que se dedicavam à instituição e dedicavam recursos para que ela pudesse atender. A Santa Casa também já atendeu saúde suplementar, e as coisas foram evoluindo para o que nós temos hoje. A nossa finalidade é o bem comum, a filantropia, o amor à humanidade. É importante compreender isso, porque as pessoas pensam em filantropia como serviço gratuito e não é isso. A gente também não pode falar que o SUS é gratuito. Ele é um grande plano de saúde solidário. Todos nós pagamos por ele. E eu falo muito que o paciente que nós recebemos paga para estar aqui. Ele é cliente. E aí entra a questão da sustentabilidade. A Santa Casa vem se profissionalizando ao longo dos anos. Hoje, todo o corpo de dirigentes é profissional. Isso veio das dificuldades que a instituição enfrentou. Em 1999 a Santa Casa quase fechou. Chegamos a ter menos de 80 leitos funcionando, sendo parte para a saúde suplementar. E os salários seis meses atrasados. Quando eu falo que são os colaboradores que sustentam a Santa Casa, é que eles trazem engajamento e resiliência à instituição. Esse é um exemplo muito contundente: entre 1998 e 2000, a Santa Casa estava prestes a fechar, com salários atrasados, sem pagar Fundo de Garantia e Previdência Social. Quem segurou a Santa Casa foram os colaboradores, porque eles vinham trabalhar sem receber, sem vale-transporte. Eles dividiam a passagem de ônibus, um trazia comida para o outro, porque não tinha nem alimentação aqui. Faziam fila para receber, às vezes metade da fila ficava sem o salário. Isso foi nos dando forças, a instituição foi se preparando, formando seus profissionais, e a gente vem tentando dar continuidade hoje em dia. A Santa Casa oferece vários programas de aperfeiçoamento profissional para os seus colaboradores. Temos o programa “Para Graduar”, pelo qual oferecemos uma bolsa de até 50% das mensalidades da faculdade para o nosso colaborador. E diversos outros programas para fortalecer o profissionalismo da instituição. A Fundação Dom Cabral é uma grande parceira. Todos os nossos superintendentes e diretores são formados lá. Isso fez uma diferença muito grande no ganho de eficiência. Outro programa, é que todas as vagas que surgem, primeiro são oferecidas para quem já trabalha na Santa Casa. A gente vem aperfeiçoando isso, temos um índice de aproveitamento interno e isso também engaja as pessoas, porque elas sabem que conseguem crescer na instituição. Os profissionais valorizaram a Santa Casa e a Santa Casa valoriza os seus profissionais.

Qual o traço de mineiridade marca a gestão da Santa Casa?

Acho que é resiliência. E o pão de queijo. Eu brinco porque, sempre nas nossas reuniões e sempre que recebemos pessoas de fora, oferecemos pão de queijo. É uma tradição e ninguém fica bravo comendo pão de queijo. Não importa qual rumo está tomando, qual interlocução está ocorrendo, mas a Santa Casa sempre permanece firme nas suas negociações e com o olhar no seu objetivo final.

Um espaço inaugurado recentemente e muito especial é o Centro de Autismo, uma doença ainda cercada de estigmas e sobre a qual ainda se sabe pouco. O que acontece aqui?

Aqui elas recebem o apoio de diferentes profissionais e têm oportunidade de ter várias experiências do cotidiano. Com isso, vão adquirindo habilidades que as tornam funcionais e independentes. A meta é chegar a 600 crianças em tratamento. Hoje estamos com cerca de 200. Como o serviço é inovador, a gente tem poucas referências no mundo de serviços como esse. Esse pioneirismo exige cautela. Com o aprendizado adquirido no dia a dia vamos nos adaptando. As pesquisas ainda estão muito dispersas pelo mundo.

Como surgiu a ideia do Centro?

Ela veio da demanda dos nossos profissionais de fonoaudiologia. Nós recebemos crianças para fazer a audiometria e os profissionais começaram a ver que o problema de muitas dessas crianças não era auditivo e, sim, do espectro autista. E eles não tinham para onde encaminhar essas crianças. Essa dor motivou o nosso Centro de Autismo. Depois de passar pelos trâmites internos e ser aprovado, fomos buscar parceiros porque não tínhamos recursos, tínhamos apenas o prédio que pensávamos transformar em um ambulatório do nosso Hospital São Lucas ou para alugar para gerar renda para a instituição. E aí eu falei: “não, a gente tem uma urgência” e ela venceu. O autismo ainda é pouco enfrentado. Conseguimos apoio parlamentar e da iniciativa privada também, o que foi fundamental. E seguimos buscando o apoio de todos.

O senhor assumiu a provedoria em 2021, ou seja, no meio da pandemia. Qual o saldo da pandemia para a Santa Casa?

O que a gente viu aqui foi uma transformação gigantesca. Ganhamos eficiência na busca de soluções. A Santa Casa se dividiu em dois hospitais. Eram 600 leitos para os pacientes sem Covid e 600 leitos que a gente chamava de hospital respiratório. Todas as unidades foram impactadas, inclusive a nossa funerária. Na época tivemos que alugar um freezer para guardar os corpos porque não tinha espaço. A funerária da Santa Casa de Belo Horizonte faz o serviço de sepultamento das pessoas com vulnerabilidade 100% gratuito. Isso vem da tradição portuguesa. O lema da Santa Casa quando da sua fundação era cuidar dos enfermos e enterrar os indigentes. Na época se usava esse termo. Estava no nosso estatuto. Temos também um legado assistencial: o aprendizado de como lidar com esse volume tão grande de pacientes respiratórios.

A educação sempre esteve no DNA da Santa Casa BH. A instituição foi protagonista na formação médica em Minas Gerais e agora recebeu a habilitação do Governo Federal para implantar seu próprio curso de Medicina. O que esse momento representa para a história da Santa Casa BH?

A Santa Casa BH é uma grande formadora de profissionais desde o técnico de enfermagem até o doutorado. Formamos também pelo exemplo e recebendo outras instituições que vêm nos visitar e recolher esse conhecimento que nós ofertamos como parte da nossa missão de “saúde de ponta para todos”. Sabemos que não vamos alcançar esse ideal sozinhos. Trazemos outras instituições e dividimos o conhecimento para que ele possa ser replicado.

Um espaço muito importante e que ajuda a contar a história da Santa Casa BH e da própria Capital é o Hospital São Lucas, que já tem 104 anos. Qual a importância do São Lucas hoje?

O Hospital São Lucas foi pensado pelo nosso diretor clínico e depois provedor, Hugo Werneck. A ideia era um hospital para quem pudesse pagar um pouco para que ajudasse na filantropia da Santa Casa. Como já falamos, não havia financiamento público para hospitais filantrópicos. Era realmente a sociedade que financiava. E aí nasceu o São Lucas, que continua nessa missão até hoje. Ele atende operadoras de saúde e temos o programa “São Lucas para Todos”. Aquela pessoa que, muitas vezes, está na fila do SUS aguardando algum procedimento, ou aquele que consegue pagar um pouco, consegue vir aqui no “São Lucas para Todos”, com preços diferenciados e podendo parcelar até em 24 vezes no cartão de crédito. Então, isso ajuda a Santa Casa a entregar mais que o SUS oferece, gerando receita para a filantropia. Hoje ele é um hospital cirúrgico no qual a gente vem tentando agregar tecnologia. Nós temos um robô Rosa, um robô ortopédico – eu acredito que seja o robô que mais realizou cirurgias ortopédicas em Minas. E teremos outras novidades, provavelmente novos robôs. E também outras tecnologias. Temos um microscópio, o Pentero 800, o único do Estado que propicia aos cirurgiões muita precisão nos procedimentos. É um hospital voltado para a qualidade e para a tecnologia.

E essa tecnologia, ela serve a todo grupo, né?

Sim. Temos 11 unidades, incluindo o São Lucas. O que a gente busca é a sinergia entre elas, uma complementa a outra. E, com isso, ganhamos eficiência.

O hospital vive um importante momento de modernização, tem investimentos superiores a R$ 10,8 milhões em reformas, tecnologia e novos espaços. E é o tempo todo avançando, crescendo, não tem isso de que agora está pronto, né?

A tecnologia avança muito rápido. Hoje a gente vive a era da inteligência artificial, e como atendemos muita gente, precisamos da tecnologia como aliada. Seja inteligência artificial, seja em equipamentos como o Pentero ou o robô Rosa, seja por meio do Elsevier, que é um sistema de inteligência artificial de apoio diagnóstico para o profissional médico, que pesquisa os artigos médicos nas revistas científicas mais renomadas do mundo. É um investimento em tecnologia para que a gente siga ganhando eficiência. A Santa Casa está sempre perseguindo a eficiência para que a gente possa reduzir custos e ampliar o acesso da população. O São Lucas faz parte desse ecossistema, assim como a Faculdade Santa Casa BH. Quantos profissionais médicos nós tivemos treinados nesse robô, por exemplo? A Faculdade Santa Casa BH é um olhar para o futuro. Nós tivemos agora a habilitação pelo MEC (Ministério da Educação) do nosso curso de Medicina. Agora só falta uma etapa, que é a autorização de funcionamento. Essa é uma história que não começou agora. Desde sempre nos envolvemos com o ensino, em levar adiante o conhecimento que temos aqui. O grande desafio que nós temos hoje no Brasil é formar especialistas. Apesar do número de faculdades ter crescido, o grande gargalo é a especialização, porque esses profissionais só vão conseguir obter o título e as habilidades necessárias para atuar, em um hospital como a Santa Casa, porque eles têm que viver isso na prática. E com o toque de humanização que a Santa Casa tem.

Chegando ao fim, gostaria que o senhor dissesse quais os caminhos para a gente ajudar a Santa Casa BH a continuar na sua caminhada?

Isso é muito importante. Só no ano passado nós fizemos investimentos de R$ 46 milhões e as fontes desses recursos são diversas. Além do recurso gerado pela própria Santa Casa, temos as emendas parlamentares e também a iniciativa privada, seja por meio de empresas ou pessoas físicas. No Centro de Autismo, por exemplo, a empresa pode adotar uma criança. Temos o programa de voluntariado, o bazar da Santa Casa que pode receber pontas de estoque e doações diversas para que nós possamos comercializar e gerar receita. E a pessoa física doando, por exemplo, parte do imposto de renda que ela paga para o Fundo da Criança e do Adolescente e/ou para o Fundo do Idoso. E também doações espontâneas. Agora estamos reformando a nossa fachada do quarteirão todo. Nós estamos na primeira etapa e pela Lei Rouanet. Nessa fase temos a participação do setor de mineração muito forte, mas temos ainda a segunda, a terceira e a quarta etapa para captar recursos. Temos investido muito em governança e transparência. Este ano ganhamos o segundo reconhecimento do Conselho de Auditores do Brasil como instituição destaque na auditoria interna. Trabalhamos muito para que as pessoas tenham a confiança e a certeza que aquele recurso que ele vai destinar para a Santa Casa vai chegar a quem precisa.

Sobre o autor

Daniela Maciel

Repórter do Diário do Comércio desde 2011. Graduada em Jornalismo pelo UniBH e em História pela UFMG.

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