Aos 50 anos, FDC leva gestão brasileira para o mundo

A Fundação Dom Cabral, uma das melhores escolas de negócios do mundo, celebra seu cinquentenário e projeta o futuro com o "jeito mineiro" de educar
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Aos 50 anos, FDC leva gestão brasileira para o mundo
Batista conta sobre a trajetória e planos da FDC em entrevista ao Diário do Comércio | Foto: Reprodução Fundação Dom Cabral

Sediada em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a Fundação Dom Cabral (FDC) está completando 50 anos. A instituição, focada em educação corporativa, frequenta a seleta lista das dez melhores escolas de negócios no prestigiado ranking do Financial Times há anos. Ela é a única brasileira e a melhor da América Latina nesse rol.

Quem recebeu o Diário do Comércio para uma entrevista exclusiva para contar a história da escola que se expande pelo mundo sem perder o jeito mineiro, que une humanismo e inteligência artificial na mesma proposta, foi o presidente-executivo da FDC, Antonio Batista.

A FDC nasceu numa época em que a gestão das empresas brasileiras não era tão profissionalizada. Qual era o principal desafio naquela época que uma escola de negócios precisava responder?

Estamos vivendo um ano muito especial, 50 anos de uma história bonita de uma contribuição muito relevante e reconhecida pela sociedade. A Fundação nasceu em pleno milagre econômico. O Brasil estava passando por grandes transformações econômicas. Aqui em Minas Gerais, em particular, a instalação da Fiat fez uma movimentação muito grande nos setores automotivo, siderúrgico e na mineração. O setor de telecomunicações explodindo, o setor de construção civil, com o crescimento das cidades. E as empresas tinham uma necessidade muito premente de formar executivos. O crescimento dos quadros gerenciais exigia profissionalização. A FDC nasce fora do eixo Rio-São Paulo com um desejo e uma vocação para a educação que forma executivos que transformam as empresas que transformam a sociedade. Então, nós crescemos, como o professor Emerson Almeida sempre nos lembra, “sem sala de aula, sem professores, sem recursos”, mas com disposição para fazer algo significativo, com coragem e ousadia para fazer uma transformação positiva através da educação para o mundo corporativo. E acho que fomos bem-sucedidos, porque hoje a Fundação tem uma penetração ampla no Brasil. Formamos mais de 30 mil executivos por ano regularmente. E com uma expansão internacional também muito grande, uma reputação nos rankings, nas acreditações internacionais. Só no ano passado recebemos 2 mil alunos estrangeiros.

Sempre me pareceu que além das técnicas de gestão, há um grande esforço também na formação humana desse gestor e há um certo pioneirismo nessa mentalidade, certo?

É verdade. A FDC tem uma formação humanista. Acreditamos que, apesar da força da inteligência artificial, a capacidade de discernimento, de julgamento, de crítica é humana. Então damos ênfase a isso nas nossas metodologias e conteúdos. O século XX foi marcado pela ênfase na performance, no resultado para o acionista, o que é muito importante. Nós acreditamos que as empresas devem ser lucrativas, competitivas, mas isso não é mais suficiente no século XXI. É importante juntar as palavras performance e progresso para a sociedade, para outros grupos sociais além dos stakeholders e dos acionistas. Temos procurado trazer esses conteúdos, inclusive com disciplinas de outras áreas, como ciência política, filosofia, psicologia, neurociência, arte, porque esse balanceamento de disciplinas vai formar o novo líder que sabe tomar decisões melhores. O que a gente busca, em última instância, é o fortalecimento das instituições. Entendemos a educação como a ferramenta mais poderosa de transformação do indivíduo.

Diversidade de conhecimentos e também de pessoas, né? Hoje a FDC atende empresas de todos os portes e setores.

Nesses 50 anos vivemos uma expansão gradual para diferentes áreas, territórios, programas e segmentos de atuação. Nascemos como um centro de formação de executivos e empresas. Hoje somos um centro de formação de líderes e organizações. Isso abre a nossa potencialidade de atuação. Começamos com grandes empresas, com multinacionais, depois expandimos para médias empresas. Depois criamos um centro de gestão pública onde buscamos trazer eficiência e práticas de gestão profissionais na formação de quadros públicos. É um trabalho muito importante. Também expandimos para a educação acadêmica. Tradicionalmente as escolas de negócios vão da educação acadêmica para educação executiva, nós fizemos o caminho inverso, e hoje temos um portfólio completo que vai da graduação em administração e em economia ao pós-doutorado, além do MBA executivo e da especialização. E mais recentemente expandimos para a educação social. Quando falamos de educação executiva, de uma maneira geral, estamos falando para o topo da pirâmide. E a gente podia e deveria levar o treinamento em gestão, o treinamento gerencial também para a base da pirâmide. A área de educação social procura levar para jovens, empreendedores populares, organizações sociais, toda essa expertise que levamos para as grandes empresas.

O que o Brasil tem a contribuir com a educação executiva no mundo?

O Brasil é um país muito grande, com culturas muito diferentes, que gerou um povo trabalhador, muito criativo e com executivos também muito inovadores e que buscam o consenso, a convergência. Esses são elementos muito importantes em tempos de polarização. O brasileiro tem uma tendência diplomática que tanto falta ao mundo corporativo e ao mundo político hoje em dia. Temos assistido a uma busca das multinacionais por executivos brasileiros para ocupar posições lá fora, sobretudo para processos de transformação cultural que precisam de muita habilidade ou processo de crises.

E qual o traço de mineiridade que está no DNA da FDC?

Já dizia Guimarães Rosa que “Minas são muitas”, e a FDC também é plural. Eu acho que um traço muito mineiro nosso é o acolhimento, a capacidade de escuta. Essa coisa de abrir a casa de uma maneira genuína e transparente. Acho que a Fundação tem esse cuidado com o outro. Não queremos ter a primazia do conhecimento. Achamos que o conhecimento está lá fora, nas empresas, nas organizações, nos executivos. Nosso trabalho é entender, decodificar e retransmitir. O mineiro valoriza suas raízes, mas pensa no mundo. Brecht já dizia: “Se queres ser universal, canta a tua aldeia”. E nós cantamos nossa aldeia, queremos levar Minas para o mundo e trazer o mundo para cá.

Nos anos 1990, o senhor estruturou o Paex – Parceiros para a Excelência, uma solução educacional para empresas de médio porte no Brasil e na América do Sul. Ele é um dos programas mais conhecidos da Fundação. Qual a função mais importante do Paex?

A média empresa é aquela empresa que voa abaixo do radar. Ela tem um poder de transformação muito grande, de geração de emprego e renda, geração de produtos e serviços de altíssima qualidade. Normalmente são empresas familiares que têm desafios de gestão, de estratégia e também desafios de governança, de sucessão, de profissionalização.

Atuamos há mais de 35 anos com empresas de médio porte. Temos um centro de médias empresas com uma produção de conhecimento muito grande, professores atuando com uma experiência muito real, ajudando as famílias de fundadores a se transformarem. Já passaram mais de cinco mil famílias de todo o Brasil e mais de 10 mil empresas, por soluções como o Paex, o PDA (Programa de Desenvolvimento de Acionistas) e por todo o portfólio de serviço para gestão, governança e sucessão da Fundação. É um trabalho maravilhoso, você vê as empresas crescendo, se transformando, depois de uma temporada aplicando técnicas e ferramentas de gestão e se capacitando.

Outra questão que o senhor também está intimamente ligado, que é a do legado, 50 anos é hora de pensar no que nos trouxe até aqui e no que vai nos levar para o futuro.

Nós criamos uma iniciativa que se chama CEOs Legacy, há 10 anos, olhando para as transformações da sociedade, em que os líderes não sejam apenas escravos do resultado, mas que sejam também agentes de transformação, agentes da prosperidade. O CEOs Legacy reúne CEOs de grandes organizações nacionais e multinacionais. Pelo menos 100 já passaram por essa iniciativa. Normalmente as pessoas começam a pensar em legado quando estão na faixa dos 65 anos, quando já estão chegando ao fim da carreira. A ideia é antecipar essa reflexão. Ele tem capacidade de transformação, de vocalização de mudança, então, tentar antecipar essa reflexão quando ele ainda tem poder de implementação.

E tem ainda mais coisa para acontecer este ano, certo?

O primeiro é o lançamento, já aprovado pelo MEC, da graduação em ciência de dados e inteligência artificial, que complementa o portfólio de administração e economia que já está em curso. E outros cursos virão de graduação. Na sequência, vamos lançar o Centro Global de Tecnologia e Inteligência Artificial. A ideia é criar um núcleo de pesquisa, de troca de experiências, de aplicação de inteligência artificial nas empresas. E já no mês que vem será ofertado ao mercado o Global Business Foundation. É um programa em parceria com escolas internacionais com duplo diploma de International Master destas escolas. Esse programa será totalmente em inglês, com alunos brasileiros e alunos estrangeiros que virão para a Fundação Dom Cabral para cursarem aqui os estrangeiros e depois um ano de estudos dos brasileiros lá fora.

E assim a FDC leva o Brasil e Minas para o mundo. Essa é uma missão da Fundação?

Acho que a missão é a palavra adequada. Nós temos 60 alianças internacionais com escolas de negócios do mundo inteiro. Temos 2 mil alunos estrangeiros de intercâmbio, de diferentes nacionalidades, um conselho consultivo internacional muito atuante. Isso projeta a imagem, não só da Fundação Dom Cabral, mas a imagem de Minas e do Brasil.

Tudo isso está inserido num momento em que o Brasil tem uma capacidade muito positiva de ser protagonista de transformações importantes como a transição energética, com a nossa capacidade de produção de energia limpa, a segurança alimentar, somos uma potência agrícola. A nossa capacidade de criar soluções baseadas na natureza. O Brasil está muito bem posicionado com a nossa capacidade diplomática nesse mundo em guerra. Nós temos uma dívida social muito grande, uma desigualdade que a gente não pode mais conviver com ela. O Brasil é uma das 10 maiores economias do mundo, mas um dos países mais desiguais do mundo, mas temos condições de oferecer soluções para o mundo, mas isso não cai do céu. É preciso intencionalidade de governos, empresas e comunidades. Na Fundação temos uma visão muito otimista dessa capacidade de transformação brasileira e que seja feita de uma maneira sustentável e distribuída.

Sobre o autor

Daniela Maciel

Repórter do Diário do Comércio desde 2011. Graduada em Jornalismo pelo UniBH e em História pela UFMG.

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