Propostas e valores
Os tais debates televisivos, que seus promotores e patrocinadores tentam apresentar, ou vender, como o momento mais alto das campanhas políticas, estão na realidade bem distantes dessa condição. E é pertinente colocar em dúvida, sobretudo, se de fato contribuiriam para esclarecimento dos eleitores ou simples apresentação de candidatos. A coisa toda está mais para o espetáculo, próxima mesmo de shows televisivos, e responde a uma lógica perversa para assim favorecer preferências, ainda que para isso padrões mínimos de qualidade tenham que ser postos de lado. Quem preferir acreditar que estaríamos sendo excessivamente rigorosos que busque na memória episódios envolvendo Leonel Brizola, Fernando Collor e o próprio presidente Lula. Distorções e desvios explícitos falam mais alto, sobretudo, para os que tentam associar os debates, agora novamente em pleno andamento, a um ato democrático, de apresentação e convencimento.
Também neste caso o modelo vem dos Estados Unidos e está associado ao surgimento das redes nacionais de televisão. Quem melhor teria percebido o potencial dessa mídia teria sido o presidente John Kennedy, que, na campanha de 1960, inaugurou uma nova era e fez do marketing político sua principal estratégia. Foi assim, afinal, que políticos em campanha se permitiram comparações com sabonetes e vendidos ao público com as mais refinadas estratégias publicitárias. Um terreno fértil também para as pesquisas de opinião, que muito ajudaram na embalagem e no perfume dos sabonetes. Foi deste terreno que brotaram os debates.
Uma ideia que parece brilhante e que até poderia ter sido. Todos os candidatos juntos para discussões que deveriam ser enriquecidas pela apresentação e defesa dos respectivos projetos. Um ideal que se perdeu, talvez nunca tenha chegado ao público, permitindo assim que o espaço acabasse ocupado por troca de acusações e bravatas quase sempre sem nexo com a realidade. Tudo falso, tudo engessado por regras e filigranas variadas que inviabilizam a troca e a exposição desejáveis. Onde afinal tanto as presenças quanto as ausências, estas sobretudo, contribuem para expor a baixa qualidade do espetáculo oferecido e, tanto pior, embutindo desvios que certamente não favorecem no aprimoramento das instituições, no fortalecimento do espaço político, muito menos na qualidade dos votos que chegarão às urnas.
Tudo isso para também nos fazer lembrar que a política no Brasil deixou para trás, parece ter perdido, valores essenciais para mergulhar num pantanoso clientelismo. Como já foi dito, faltam propostas e valores, sobram ambições e este é afinal a realidade que os debates televisivos explicitam.
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