Crédito: REUTERS/Paulo Whitaker

Benjamin Salles Duarte *

Todos os grãos, cereais e oleaginosas são indispensáveis à alimentação humana e animal, às exportações do agronegócio e são matérias-primas consumidas pelas indústrias e agroindústrias, agregando valores aos produtos num conjunto de outras exigências tecnológicas, e resultantes também dos ganhos havidos e por haver no campo da genética vegetal e animal. Esses cenários socioeconômicos e científicos complexos abrigam também milhares de pesquisadores, cientistas, consumidores, e um substantivo elenco de empreendedores rurais e urbanos. Há 7,6 bilhões de habitantes nesse planeta Terra e previsão de 9,3 bilhões em 2050!

Esses grãos secularmente têm um leque considerável de múltiplas aplicações e todos eles compartilham também de uma longa história no caminhar da humanidade num cenário de múltiplos hábitos alimentares, necessidades humanas, comércio e trocas, valores, crenças, e até contidos nos fundamentos de práticas culturais e religiosas nos continentes da Terra, com seus deuses, lendas e mitos!

Ceres é a deusa romana da Agricultura, principalmente dos grãos, de onde deriva o termo cereal, apenas um exemplo entre dezenas de outros ligados aos povos e à cultura humana durante milênios (Google).

Além disso, a agricultura, antes terra e esforço hercúleo humano ao longo de milhares de anos, hoje é sinônimo de ciência e tecnologia tracionada pelas demandas de consumo nos mercados globalizantes. Uma saga extraordinária nas artes de pesquisar, difundir, plantar, cuidar, colher, transportar, armazenar, ganhar, perder, abastecer e exportar. Assim posto, a oferta brasileira de milho passou de 32,3 milhões de toneladas, safra 1998/99, para 100 milhões de toneladas na de 2018/19, ou mais 206,7%.

Em Minas Gerais, na mesma comparação acima entre essas duas safras, a produção de milho cresceu de 4,06 milhões de toneladas para 7,53 milhões, mais 85,5%, sendo que na soja essa oferta foi de 1,33 milhão de toneladas para 5,07 milhões de toneladas, avançou 281,2% (Conab). Minas abriga também o Centro Nacional de Milho e Sorgo (Embrapa).

Ressalte-se que na década de 1970, a Emater-MG desenvolveu o primeiro projeto mineiro com a cultura da soja em escala comercial, com o plantio de 2 mil hectares em Ituiutaba e no cerrado do Triângulo Mineiro, com as variedades IAC-2, Pelicano e Santa Rosa, contando com o apoio do BDMG.

Nesse caminhar, o Brasil é o 3º produtor mundial de milho, depois dos EUA e China, num cenário de oferta de 1,12 bilhão de toneladas na safra mundial de 2018/19. Atualmente é o 2º exportador mundial, podendo vender no mercado externo até 35 milhões de toneladas em 2019 (Usda). Ele está presente também em mais de 150 produtos e subprodutos, entre os quais e por via úmida; bolos, sorvetes, fermento em pó, alimentos infantis, corn flakes, sopas, mostarda, papel, papelão ondulado, tecelagem, mineração.

E mais, cosméticos, lixas, explosivos, geleias, compotas, embutidos, cervejas, refrigerantes, molhos, rações, silagens, antibióticos, panificação, produtos farmacêuticos, sondas petrolíferas, óleo comestível, glucose, entre dezenas de outros e como também é usado na produção de energia limpa renovável, biodegradáveis, havendo outros produtos derivados do milho obtidos por via seca (Abimilho).

E mais, registros históricos revelam que a soja aportou no Brasil em 1882, através da Bahia por Gustavo Dutra, sem alcançar êxito à época desse pioneirismo. Em São Paulo, os primeiros cultivos foram praticados pelos imigrantes japoneses por volta de 1908, sendo introduzida oficialmente no Rio Grande do Sul em 1914, e no Paraná em 1954 (Matos, 1986). Vale salientar que a soja já era conhecida na China desde 5.000 aC.

Com ganhos consideráveis de produção e produtividade numa série histórica, derivados de pesquisas agronômicas, a oferta de soja cresceu de 30,7 milhões de toneladas na safra 1998/99 para 115,1 milhões de toneladas em 2018/19, mais 274,9%, portanto, em apenas 20 anos (Conab). Hoje, o Brasil é o 2º maior produtor mundial, superado apenas pelos EUA, e o maior exportador desse grão no mercado externo. A dobradinha milho e soja responde por mais de 80% das safras brasileira de grãos, cereais e oleaginosas, atingindo 88,8% na safra 2018/2019.

Contudo, o grande destino da soja continua sendo a fabricação de rações para os rebanhos de pequenos e grandes animais, e a produção de óleo para consumo doméstico como frituras, margarinas e maioneses, embora seja largamente usado na alimentação fora de casa por demandas de consumidores definitivamente urbanizados, sendo que a taxa média de urbanização brasileira é de 85% (IBGE). Registre-se que essa modalidade de negócios tem atraído empresários brasileiros como também grandes grupos econômicos internacionais ligados aos sistemas agroalimentares.

Entretanto, a soja também é usada para fins industriais, podendo-se enumerar; lubrificantes e graxas, detergentes, óleos para motores e óleos industriais, aditivos, solventes, adesivos, vernizes, massa de vidraceiro, dispersantes, antiespumantes, dielétricos, substituto do couro, adesivo de madeira compensada, anticorrosivos, calefação, loções, sabonetes, fibras.

Acrescentem-se; velas especiais, tintas, carpetes, tecnologia de concretos, reagentes, espuma para extintores de incêndio, seladores, biodiesel, poliéster, protetores solares, fluídos hidráulicos, tingimentos, reagentes analíticos, e outros usos adicionais (Agrolink). O mundo natural é uma poderosa fonte de novos conhecimentos e práticas, ciência e tecnologia, que se desdobram para além das paisagens rurais! O PIB do agronegócio brasileiro deverá atingir R$ 1,52 trilhão em 2019.

*Engenheiro agrônomo