Acordos comerciais Crédito: Ueslei Marcelino/Reuters

São Paulo – O Brasil precisa atender a exigências de consumidores globais de alimentos, especialmente europeus, com a adoção de práticas agrícolas sustentáveis e que coíbam o desmatamento, sob pena de ver fracassar acordos comerciais importantes, como no caso da União Europeia e Mercosul, disseram ontem integrantes do agronegócio.

Para o presidente da Cargill no Brasil, Paulo Sousa, a comunidade europeia tem requisitos ambientais claros e só fechará um acordo comercial se o País “pelo menos” estiver indo na direção de uma agricultura sustentável. “Negar o pedido da sociedade que quer fazer uma parceria comercial conosco é pedir para não ter esse acordo. Temos que mostrar que estamos fazendo o dever de casa para irmos ao encontro desses requisitos que eles têm para fazer acordo de longo prazo com nosso País”, afirmou o presidente da Cargill, durante o Congresso Brasileiro do Agronegócio, realizado pela internet.

Segundo ele, o consumidor é quem define como as empresas agem, e o Brasil – visto como aquele com maior capacidade de atender ao crescimento global da demanda por alimentos – deve atender a preocupações relacionadas à emissão de carbono e biodiversidade.

“A Europa colocou para ela mesma requisitos muito fortes e metas agressivas de redução de carbono. É difícil para o consumidor europeu ver que está se liberando carbono na forma de madeira”, afirmou ele, em referência às queimadas.

Segundo Sousa, não adianta o brasileiro ficar “bravo”, argumentando que europeus e americanos já desmataram suas áreas no passado. “Isso é conversa que não vai levar a nada, o fato é que hoje o Brasil tem o papel de suprir a cadeia global de alimentos, tem que fazer isso com critérios modernos, com critérios que aquele consumidor queira e aprove”, comentou.

Para o presidente da Organização das Cooperativas do Brasil (OCB), Márcio Lopes de Freitas, “chega de botar a culpa no passado, na história”. “Tem que ver o que o consumidor quer, a humanidade quer mudança, ela quer o comportamento adequado do produtor”, disse ele, ressaltando que o cooperativismo, pela sua organização, tem essa capacidade de atender àqueles requisitos.

A presidente do Conselho Diretor da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia), Grazielle Parenti, ressaltou que “a reputação do agro é fundamental para que possamos continuar abrindo mercados”.

Ela também chamou a atenção para a necessidade de o Brasil cumprir requisitos visando a um acordo entre União Europeia e Mercosul, por exemplo. “(Esse acordo) é uma avenida para o Brasil, que vai trazer no longo prazo um crescimento gigantesco”, comentou.

Segundo Grazielle, “na guerra da comunicação”, às vezes, o Brasil não vai tão bem, mas “precisamos contar a nossa história”. “Precisamos fazer a coisa certa, às vezes, não é simples e barato, mas é a coisa certa, e temos oportunidade muito grande pela frente que não podemos desperdiçar”, disse ela, reforçando que o Brasil precisa divulgar a evolução tecnológica de seus sistemas produtivos e sua sustentabilidade.

Também participando do congresso, o presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Celso Luiz Moretti, ressaltou que o Brasil tem um código florestal que regula questões ligadas ao desmatamento e também possui programas como o RenovaBio, que visa a estimular ainda mais a descarbonização da matriz de combustíveis.

Conforme o sócio-diretor da MB Associados, José Roberto Mendonça de Barros, para aumentar a produção agrícola “não é preciso queimar um hectare de floresta”, uma vez que a agricultura brasileira pode ampliar a produtividade e mesmo utilizar áreas de pastagens.

Comunica mal – Neste contexto, o presidente da OCB avaliou que o governo brasileiro não tem sido eficiente em comunicar as iniciativas do agronegócio brasileiro, principalmente aquelas que dizem respeito à sustentabilidade, e muitas vezes apenas reage de maneira equivocada.

“O nosso governo tem sido muito menos competente do que a iniciativa privada na comunicação do nosso Brasil lá fora, principalmente do Brasil agro”, afirmou ele.

Segundo Freitas, a “exceção” nesse processo tem sido a ministra da Agricultura, Tereza Cristina.

Para ele, a ministra “tem sido uma gigante na habilidade inclusive de contornar problemas que o governo causa na comunicação externa”.  “A iniciativa privada, as empresas, as cooperativas, as próprias organizações dos produtores têm sido mais eficientes, o governo tem atrapalhado muito mais do que ajudado e precisa rever esse conceito”, destacou. (Reuters)

Brasil quer expandir plantio de trigo

São Paulo – O Brasil está trabalhando para voltar a ter uma área plantada de trigo expressiva, disse a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, pontuando que o cereal é um dos poucos produtos agrícolas em que o País não é autossuficiente.

Falando na abertura do Congresso Brasileiro do Agronegócio, a ministra comentou que o Brasil tem “água, clima e tecnologia única, feita para o nosso solo”.

Ela não entrou em detalhes sobre como o País, um dos maiores importadores globais de trigo, poderá ampliar o plantio – os preços do cereal estão em patamares historicamente elevados, diante de um dólar forte frente ao real.

Após uma safra ruim no ano passado e um consumo firme em 2020, o Brasil deverá importar um volume recorde de trigo neste ano, conforme avaliação da Companhia Nacional do Abastecimento (Conab).

A safra brasileira de trigo de 2020, cuja colheita deverá se intensificar em mais algumas semanas, tem potencial para superar 7 milhões de toneladas neste ano e atingir um recorde, caso as condições climáticas permaneçam favoráveis, um alento aos moinhos, que têm chance de reduzir parte das importações em 2021, afirmaram especialistas à Reuters na semana passada. (Reuters)