Minas transforma genética bovina em negócio global e lidera exportações de sêmen
Na Fazenda Morada do Sol, em Veríssimo, cidade a cerca de 43 quilômetros de Uberaba, no Triângulo Mineiro, o produto que sai do campo já não precisa necessariamente de um caminhão para cruzar fronteiras internacionais. Ele pode caber em uma palheta de sêmen ou em um recipiente para embriões. Em vez de transportar o animal, o criador consegue enviar aquilo que levou décadas para ser construído: a combinação genética de indivíduos selecionados para produzir mais, reproduzir melhor e suportar as condições do ambiente.
É esse movimento que ajuda a explicar a transformação da genética bovina mineira em um negócio internacional. Terceira geração à frente da propriedade, o médico veterinário e criador Bruno Aguiar, de 37 anos, herdou do pai e do avô uma tradição que começou com a comercialização de animais vivos, inclusive para a África.
Hoje, a fazenda, que mantém cerca de 200 animais da raça Gir Leiteiro, gado zebuíno originário da Índia, especializado e selecionado no Brasil para a alta produção de leite em climas tropicais, tem outra estratégia: a renda vem basicamente da venda de embriões bovinos, enquanto touros selecionados também integram centrais de produção de sêmen.
O faturamento médio do negócio, segundo Aguiar, é estimado entre R$ 30 mil e R$ 40 mil mensais. “Nós trabalhamos, no comercial, com várias empresas, entre elas a Zebuembryo”, afirma. Com sede em Uberaba, a empresa de biotecnologia é especializada na produção e exportação de embriões bovinos e em soluções genéticas integradas.
O criador explica que os animais são enviados à empresa, onde passam por uma quarentena antes da coleta do material genético. A central de doadoras, por sua vez, fica encarregada do envio para o exterior. Segundo Aguiar, a Fazenda Morada do Sol atua no mercado latino-americano e comercializa material genético com países como Bolívia, Colômbia, Equador, Guatemala, El Salvador, Costa Rica e Nicarágua.

Quando o campo começa a exportar o que não se vê
O modelo de negócio com o qual Bruno Aguiar trabalha ajuda a explicar uma transformação que ocorre em escala muito maior no campo mineiro. O Estado, que historicamente construiu sua força agropecuária sobre a produção de leite, carne e café, passou a exportar também aquilo que está por trás da produtividade desses alimentos: DNA selecionado, sêmen, embriões e biotecnologia.
Os números dimensionam esse movimento: entre 2021 e 2025, Minas Gerais exportou aproximadamente US$ 10,4 milhões em sêmen bovino e respondeu por cerca de 48,3% do valor exportado pelo Brasil no período, segundo a Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa-MG). No acumulado desses cinco anos, o Estado ocupou a primeira posição no ranking nacional.
Os dados mais recentes mostram que o mercado continua ativo. Nos cinco primeiros meses deste ano, o Estado exportou aproximadamente US$ 515,1 mil em sêmen bovino para dez destinos. Minas Gerais ficou na segunda posição nacional, com participação de 25,4% no valor exportado pelo Brasil. Colômbia, Guatemala, Paraguai, Equador, Argentina e Bolívia estão entre os compradores. (Mais detalhes no infográfico abaixo)

No Brasil, a trajetória também chama a atenção. Segundo dados do sistema Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), fornecidos pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) ao Diário do Comércio, as exportações nacionais de sêmen bovino permaneceram relativamente estáveis entre 2018 e 2020, em torno de US$ 2,6 milhões anuais.
Em 2021, o setor registrou crescimento expressivo, alcançando US$ 3,87 milhões, avanço de aproximadamente 49% em relação ao ano anterior. O movimento de expansão prosseguiu nos anos seguintes, com exportações superiores a US$ 4,2 milhões em 2022. Após uma leve retração em 2023, para US$ 3,97 milhões, o setor retomou a trajetória ascendente, atingindo o recorde de US$ 5,22 milhões em 2025. (Veja o infográfico abaixo)
Os números de 2026 também indicam a manutenção desse movimento. Até junho, as exportações brasileiras acumulavam US$ 2,4 milhões, mantendo o ritmo observado nos últimos anos.
Há, entretanto, uma ressalva importante em termos de volume, segundo a ApexBrasil. As estatísticas de comércio exterior são registradas em quilogramas líquidos, enquanto o mercado de genética bovina trabalha predominantemente com o conceito de doses de sêmen.
No caso dos embriões, a dificuldade é ainda maior: os códigos aduaneiros disponíveis abrangem embriões de diferentes espécies e outras categorias de produtos de origem animal. Por isso, os dados oficiais não permitem medir, de forma isolada e precisa, o valor das exportações nacionais de embriões bovinos.
A diferença metodológica, porém, não diminui a dimensão do fenômeno. Ela apenas mostra que uma parcela relevante desse mercado ainda é difícil de enxergar nas estatísticas tradicionais.

Antes de multiplicar a genética, é preciso encontrá-la
Para entender por que um pequeno tubo de sêmen congelado ou um embrião animal armazenado pode representar anos de pesquisa, seleção e investimento, é preciso voltar algumas etapas no processo. Isso porque o melhoramento genético começa antes da reprodução.
Na Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), em Uberaba, o trabalho consiste em transformar dados coletados no campo em informações capazes de identificar os indivíduos geneticamente superiores de cada raça.
“Uma das nossas tarefas é transformar dado bruto em informação para tomada de decisão. Os animais precisam ser avaliados e mensurados. Precisam, por exemplo, ser pesados e escaneados via ultrassom para assim obtermos dados de carcaça”, explica o supervisor adjunto de melhoramento genético da ABCZ, Henrique Torres Ventura.
Ventura afirma que o desempenho observado ou mensurado de um animal no campo é resultado de múltiplos fatores, entre eles o manejo, a alimentação, o clima e o sistema de produção. “Só que para definição sobre quem são os animais geneticamente superiores, a gente precisa de uma informação mais pura, ou seja, pegar esses dados que têm uma série de influências que não são genéticas e identificar aquilo que é genético”, diz.
A ABCZ registra entre 500 mil e 600 mil animais por ano, segundo o especialista. A entidade realiza quatro avaliações genéticas anuais para animais de corte e duas para animais destinados à produção de leite. “Identificados aqueles geneticamente superiores, eles são escolhidos para reprodução e acasalados. Aí vem toda aquela parte do sêmen, do embrião, mas antes eles já passaram por um processo de escolha”, completa.
O objetivo final do trabalho de seleção, segundo o supervisor de melhoramento genético, é simples, embora a tecnologia por trás seja sofisticada: produzir mais carne e leite com cada vez menos recursos.
A consequência ultrapassa os limites da fazenda. Na avaliação de Ventura, uma genética mais eficiente tem impacto econômico positivo na cadeia produtiva do setor. “Se você produz mais com menos recursos, você tem mais lucro. Isso gera mais emprego. Além disso, a economia de recursos, como água, terra e emissão de gases por unidade de alimento produzida, causa ainda uma diminuição do impacto ambiental”, destaca.
Quando o futuro do rebanho cabe no DNA
Segundo o pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e doutor em genética e melhoramento pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) Marcos Vinícius Barbosa, a seleção genômica começou a ser utilizada de forma efetiva no gado leiteiro brasileiro em 2016, sete anos após o início da prática nos Estados Unidos.
Henrique Ventura destaca que, antes de os estudos se tornarem realidade no mercado brasileiro, a identificação de um animal geneticamente superior dependia principalmente da genealogia, bem como da observação do próprio indivíduo e de seus descendentes. O processo, naturalmente, demandava anos de estudo.
Com a incorporação de informações do DNA aos modelos de avaliação, tornou-se possível estimar mais cedo o potencial genético de um animal. O ganho não está apenas na quantidade de informações disponíveis, mas também na possibilidade de reduzir o intervalo entre gerações.
“Antes da genômica era necessário esperar o tempo para o filho nascer, crescer e ser avaliado”, explica Ventura. “Como a genômica é a informação do próprio DNA, é possível selecionar com segurança ainda mais cedo”, diz.

O professor adjunto do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e especialista em melhoramento genético animal Delvan Alves da Silva complementa a explicação de Henrique Ventura ao destacar que a genômica não substitui as ferramentas anteriores, mas aperfeiçoa o processo e acrescenta uma nova e importante camada de informação.
“Eu posso pegar um bezerro macho que nasceu e coletar as informações, genotipar esse bezerro e consequentemente ter um valor genético do animal com melhor acurácia”, explica. Os benefícios, segundo o professor, também são econômicos. “Tempo é dinheiro. Estou reduzindo o tempo em consonância a um ganho genético maior”, afirma.
A ciência acelera o relógio do rebanho
A genômica, porém, resolve apenas uma parte do problema: ela ajuda a definir quem deve ser multiplicado. Já as biotecnologias reprodutivas respondem à pergunta seguinte: como multiplicar esse material genético o mais rápido possível? É nesse contexto que entram a fertilização in vitro (FIV) e a transferência de embriões.
“A seleção genômica me diz quem usar; a FIV e a transferência de embriões me permitem multiplicar esse material genético de elite mais rápido”, resume Silva.
O efeito é particularmente importante para fêmeas de alto valor genético. Delvan Alves explica que, por meio da reprodução convencional, uma vaca teria uma cria por ano. Com a FIV, uma fêmea selecionada pode gerar dezenas de embriões em um período muito menor.

Uberaba transforma genética em negócio global
A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) afirma que as exportações brasileiras de sêmen e embriões bovinos estão concentradas principalmente nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.
Em Minas, o principal polo está localizado no Triângulo Mineiro, com destaque para Uberaba, reconhecida como a capital mundial do zebu. A região concentra criatórios de elite, centrais de coleta e processamento de sêmen, laboratórios de fertilização in vitro e empresas especializadas na produção e comercialização de embriões bovinos.
Esse ecossistema, segundo a ApexBrasil, consolidou Minas Gerais como uma das principais referências mundiais em genética zebuína, especialmente para sistemas de produção em regiões tropicais.
O zebu que veio da Índia volta ‘brasileiro’ ao país de origem
Existe uma ironia na história por trás da expansão internacional da genética zebuína brasileira: o gado zebuíno utilizado no Brasil tem origem indiana. Ao longo de décadas, porém, esses animais foram importados e adaptados às condições locais.
“Há 100 anos nós trouxemos o zebu para o Brasil. Começamos a trabalhar esse zebu, desenvolvemos metodologias e agora estamos voltando para a Índia tanto com animais melhorados quanto com a nossa tecnologia genômica”, destaca Marcos Vinícius Barbosa.
Segundo Barbosa, a lógica foi invertida principalmente porque o mercado percebeu a qualidade do trabalho realizado com as raças zebuínas leiteiras no Brasil. Ele acompanha especialmente a evolução do Gir Leiteiro e afirma que a produção média da raça passou de aproximadamente 2,6 mil quilos por lactação, por volta do ano 2000, para mais de 5 mil quilos atualmente.

“E quando você considera o ganho em litros de leite nesse período, 31% foi devido ao melhoramento genético”, diz.
O crescimento, segundo o especialista, também é percebido em raças mestiças, como o Girolando, cuja produção média saltou de 3,2 mil para mais de 7 mil quilos no mesmo período, com 29% do aumento atribuído ao melhoramento genético.
“Em pouco mais de 25 anos, nós dobramos a média de produção, obviamente, não só pelo melhoramento genético, mas também por causa de melhorias nos sistemas de criação, nutrição, alimentação. Mas do ponto de vista genético, isso é muito expressivo”, reforça Barbosa.
O pesquisador da Embrapa também aponta que a genética brasileira interessa a países tropicais porque combina produtividade com capacidade de adaptação ao calor, à umidade, aos parasitas e a condições ambientais mais severas.
“No caso do Girolando, estamos falando de um animal moldado em um ambiente muito inóspito, na Índia, com alta umidade, um calor muito grande, sobre uma pressão muito grande também de endo e ectoparasitas. Ela foi remodelada aqui no Brasil, com foco maior em produtividade”, afirma.
A dimensão internacional desse polo ficou ainda mais evidente durante a 91ª ExpoZebu, realizada entre abril e maio deste ano, em Uberaba, e considerada a maior feira zebuína do mundo.
Durante o evento, no âmbito do Projeto Comprador, conduzido pela ApexBrasil e ABCZ, que integra o Brazilian Cattle, foram convidados nove compradores estratégicos de Bangladesh, Colômbia, Egito, Etiópia, México, Panamá, Paquistão, República Dominicana e Ruanda.

Segundo a ApexBrasil, 788 visitantes internacionais estiveram no encontro do mercado zebuíno, representando 44 países. Ao todo, foram realizados 731 contatos comerciais, dos quais 522 eram novos. Os negócios imediatos foram estimados em US$ 6,6 milhões, com expectativa de outros US$ 27,9 milhões em negócios futuros.
A 91ª ExpoZebu recebeu ainda uma missão internacional composta por 72 participantes de Bangladesh, Egito, Etiópia, Nigéria, Quênia, Ruanda, Sudão, Tanzânia e Zâmbia, acompanhados por adidos agrícolas da Etiópia, de Bangladesh e da Nigéria. A programação incluiu visitas técnicas a 11 empresas e fazendas integrantes do projeto Brazilian Cattle, além de encontros institucionais e comerciais com representantes do setor.
A ABCZ também recebeu delegações governamentais de países como Mauritânia, Congo, Cazaquistão e Quênia. Entre os resultados institucionais, houve a assinatura de um memorando de entendimentos para a implantação de uma fazenda-modelo na Nigéria, voltada ao desenvolvimento da pecuária local com genética brasileira.
Para o presidente do sistema formado pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg) e pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), Antônio de Salvo, a força mineira está presente tanto na pecuária de leite quanto na de corte, o que contribui para o crescimento do mercado de melhoramento genético.
“Nós temos um horizonte infinito de crescimento para melhorar a qualidade da nossa carne produzida aqui no Brasil”, destaca. Na avaliação dele, o potencial é especialmente relevante nos mercados tropicais.
Mais que um animal, uma tecnologia que cruza fronteiras
A expansão da genética bovina brasileira no mercado internacional revela outra mudança importante: o produto vendido pelo Brasil não é simplesmente um animal superior, mas também um pacote tecnológico.
Segundo a diretora-executiva da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), Lilian Matimoto, o comprador internacional que adquire sêmen de um animal brasileiro leva para o seu país o resultado de um sistema que envolve seleção, avaliação, reprodução, manejo e conhecimento.
“Nós fechamos 2021 com 21,6 milhões de doses de sêmen vendidas para os mercados interno e externo. Já em 2025, foram 25,5 milhões”, destaca Lilian Matimoto, que atribui o crescimento de 18% no volume à maior adoção de tecnologias reprodutivas, entre elas a Inseminação Artificial por Tempo Fixo (IATF). A técnica de biotecnologia reprodutiva utiliza hormônios para sincronizar a ovulação das fêmeas bovinas, permitindo que a inseminação seja realizada em uma data predeterminada, sem a necessidade de detectar o cio.

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Entre a porteira e o mundo, um caminho de exigências
A Zebuembryo é outra empresa de Uberaba que integra a cadeia brasileira de biotecnologia e exportação de material genético e contribui para aperfeiçoar rebanhos mundo afora. A companhia é especializada na produção e exportação de embriões bovinos.
Segundo o gestor da central de doadoras da Zebuembryo, Hebert Valério Filho, a empresa é uma das poucas habilitadas no Brasil a exportar embriões para mais de 40 países. “Somente em 2025, produzimos cerca de 22 mil embriões destinados a aproximadamente 12 países. Hoje nós temos em torno de 400 fêmeas em coleta pertencentes a cerca de 60 proprietários”, conta.
O processo, porém, é muito mais complexo do que simplesmente retirar um embrião de uma fazenda e colocá-lo em um avião. Para a exportação, as doadoras precisam cumprir requisitos sanitários e permanecer em estruturas habilitadas. O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) exige que a produção destinada ao mercado externo siga protocolos específicos de coleta e processamento.
“As exportações de material genético pelo Brasil são precedidas de acordo sanitário, formalizado entre o Mapa e o Serviço Oficial do país de destino. Esse acordo é formalizado por meio do documento, denominado Certificado Zoossanitário Internacional (CZI) ou Certificado Veterinário Internacional (CVI), que atesta o cumprimento de todos os requisitos de saúde animal definidos pela autoridade sanitária do país importador”, informa o Ministério.

Ainda segundo o órgão federal, cada país tem a prerrogativa de definir suas exigências sanitárias. Entretanto, no comércio internacional de animais e produtos de origem animal, incluindo o material genético, as condicionantes adotadas devem observar as normas e recomendações internacionais estabelecidas pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) e o marco jurídico da Organização Mundial do Comércio (OMC), especialmente o Acordo sobre a Aplicação de Medidas Sanitárias e Fitossanitárias (Acordo SPS).
Após a conclusão do acordo sanitário, a etapa seguinte é o acordo comercial, firmado entre o exportador e o importador, sem envolvimento do Mapa.
O órgão também afirma que não há prazo fixo para a abertura de um mercado. O processo depende da negociação entre as partes e pode envolver uma troca substancial de documentos, a realização de reuniões técnicas e, eventualmente, missões para avaliação in loco.
São justamente essas normas que ajudam a explicar por que a expansão da genética bovina brasileira tem valor estratégico: não basta ter bons animais. É preciso provar ao comprador internacional que o sistema é confiável.
A corrida agora é para a África
A América Latina ainda é o principal mercado da genética bovina brasileira, segundo a Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia). Mas a África desponta como uma das fronteiras de maior potencial.
“A África é o continente com maior número de terras aráveis não agricultáveis ainda. Por isso é um mercado que vai crescer muito. Eles têm buscado a nossa genética”, destaca a diretora-executiva da Asbia, Lilian Matimoto, acrescentando que a região tem clima similar ao do Brasil, o que favorece o envio de material genético.
A projeção da diretora-executiva da Asbia vai ao encontro das perspectivas da ApexBrasil. A agência contabiliza 21 novos mercados abertos em 13 países da África nos últimos três anos para a exportação de material genético bovino brasileiro, sendo 12 para embriões e nove para sêmen. (Veja o infográfico abaixo)
Ainda segundo a ApexBrasil, o envio de material genético dos rebanhos nacionais funciona como uma porta de entrada para o mercado global, estimulando a demanda por tecnologias, produtos e serviços complementares que compõem o pacote tecnológico da pecuária tropical desenvolvida no Brasil.

O embrião que encurta o tempo e favorece a produtividade
Um dos aspectos mais singulares desse mercado é que não existe necessariamente uma genética universalmente superior, mas aquela mais adequada a cada ambiente. Hebert Valério relata que a Zebuembryo trabalha a partir da realidade de cada comprador. Isso porque um animal extremamente produtivo no Brasil pode não ser a melhor escolha para uma região onde faltam alimento, água e infraestrutura.
“Não adianta eu mandar um indivíduo que produz 50 litros de leite para um País onde ele não consegue ter um ambiente adequado para essa produção”, exemplifica.
Em alguns projetos, segundo Valério, a genética brasileira pode reduzir drasticamente o tempo necessário para que um rebanho local alcance determinado nível de produtividade.
“Se eu tenho um indivíduo lá [no país comprador] que produz 20 litros de leite, ele vai gastar pelo menos entre 30 e 40 anos para poder chegar no patamar do indivíduo que o Brasil já tem hoje. Se eu enviar um embrião para ele, no próximo nascimento, terá um [indivíduo] que produz o volume de leite que ele precisa”, explica.
Já na pecuária de corte, o gestor da Zebuembryo afirma que atualmente há países que levam entre cinco e seis anos para ter um animal pronto para o abate. Com o embrião de um indivíduo melhorador, esse tempo pode cair para cerca de um ano e seis meses, especialmente em raças zebuínas como Nelore e Sindi submetidas a sistemas de produção intensivos ou semi-intensivos, como suplementação, pastejo rotacionado e confinamento.“Então a gente consegue ganhar anos de ciclo de produção mediante o melhoramento genético que o Brasil fez”, destaca.
É nesse ponto, segundo Valério, que o embrião deixa de ser apenas um produto comercial e passa a funcionar como uma espécie de atalho tecnológico para impulsionar a produtividade.

A genética diante de um mundo mais quente
O próximo salto da genética, porém, não está apenas em selecionar os animais que produzem mais, mas também em identificar aqueles que conseguem continuar produzindo em condições adversas.
O professor Delvan Alves aponta que os programas de melhoramento genético vão se preocupar cada vez mais com a resistência dos animais ao calor. Segundo ele, estudos com essa proposta já estão em desenvolvimento. A resistência dos rebanhos a doenças também ganha espaço nos trabalhos desenvolvidos na área.
Marcos Barbosa, por sua vez, aposta em um avanço mais expressivo da edição gênica, conjunto de técnicas de biologia molecular que permite alterar, remover ou adicionar material genético de forma precisa no DNA de um organismo.
“Hoje nós estamos com alguns trabalhos muito interessantes usando a edição gênica. Na raça Girolando, cuja parte zebuína é naturalmente mais resistente ao calor, estamos incluindo um gene, o receptor da prolactina (PRLR), que oferece ainda mais resistência às altas temperaturas para esse animal”, revela, acrescentando que o projeto está em desenvolvimento.
Segundo Barbosa, o PRLR é um gene que participa da resposta do boi à prolactina, hormônio relacionado à produção de leite e à reprodução. Algumas de suas variantes também podem contribuir para uma maior tolerância do animal ao calor.
A novidade, conforme o pesquisador, ainda é vista com ressalvas pela opinião pública. Há também questões legais associadas ao tema. Entretanto, ele acredita que os obstáculos serão transpostos e que, em curto prazo, o mercado poderá lançar mão da tecnologia para aumentar a produtividade dos animais.
Para Minas Gerais, as transformações já estão em curso. A história da Fazenda Morada do Sol, de Bruno Aguiar, em Veríssimo, ajuda a representar essas mudanças: o avô, segundo o criador, foi um dos primeiros a cruzar a raça holandesa com a zebuína Gir, dando origem ao Girolando; o pai transportava animais vivos para a África; e ele, hoje, exporta material genético.

O boi continua sendo o ponto de partida. Mas, cada vez mais, não é ele que Minas Gerais vende ao mundo. O que viaja é o resultado de uma seleção criteriosa, condensado em uma dose de sêmen ou em um embrião, além de uma promessa econômica que começa antes do nascimento do bezerro: a capacidade de transformar genética em produtividade.
E, nesse mercado, o ativo mais valioso pode ser justamente o tempo que o comprador deixou de esperar.
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