A demanda aquecida da carne bovina no exterior mantém as cotações elevadas | Crédito: REUTERS/Paulo Whitaker

A demanda externa aquecida pela carne bovina e a maior retenção de fêmeas têm contribuído para a sustentação dos preços do boi gordo em um período de demanda interna reduzida em função das medidas de isolamento adotadas para o controle do novo coronavírus.

Desde o início de maio, os preços do boi gordo estão se mantendo estáveis ou com pequenas variações negativas, o que é atípico para o período atual, tradicionalmente marcado por desvalorizações mais significativas devido ao abate maior em função da queda da qualidade das pastagens. Os valores continuam remuneradores e estão entre 15% e 30% maiores que os praticados no ano passado, dependendo da região.

O zootecnista e consultor de mercado da Scot Consultoria, Rafael Ribeiro de Lima Filho, explica que o período atual é de final de safra, quando as temperaturas caem e ocorre uma redução das chuvas.

Com isso, a tendência é de que a qualidade do capim caia e, com essa menor capacidade de suporte de pastagem, existe, de maio a junho, a desova de safra, com a saída dos animais gordos das pastagens. Com o maior descarte, existe uma pressão de baixa sobre a cotação. Porém, ao longo de maio, o mercado ficou entre estabilidade e ligeiras quedas.

“A pressão, que normalmente é grande, tem sido mais amena em Minas Gerais, São Paulo e parte do Centro-Oeste, onde houve estabilidade ou pequena queda de preços. Um ponto importante que justifica a menor pressão é a maior retenção de matrizes, que vem ocorrendo devido a um cenário positivo do mercado do boi gordo. Esta retirada das matrizes do abate já reduz a boiada”, afirma.

Demanda externa – Ainda segundo Ribeiro, outro fator que tem sustentado as cotações do boi gordo é a demanda externa maior, o que reduz a oferta de carne no mercado interno. Já o mercado nacional, que consome cerca de 70% da carne bovina produzida, vem sendo muito prejudicado com a queda do consumo provocada pelas regras de isolamento para contenção do novo coronavírus.

Em Minas Gerais, os preços da arroba do boi gordo estão variando entre R$ 179,5 e R$ 187, o que representa valorização de 15% a 30% frente aos valores praticados em igual período do ano anterior.

De acordo com o analista de agronegócio da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), Wallisson Lara, desde os últimos meses de 2019, a demanda internacional pela carne bovina está alta, o que tem sustentado os preços do boi gordo em patamares elevados.

Os casos de Peste Suína Africana (PSA) na China, que dizimou quase metade do rebanho, fez com que o país asiático buscasse por proteína no mercado mundial e a primeira opção foi a carne bovina.

Segundo dados da Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), as exportações de carne bovina estão mantendo os resultados positivos em 2020 devido à demanda dos países asiáticos, principalmente, a China. De janeiro a abril de 2020, a receita gerada com os embarques de carne bovina foi de US$ 218,3 milhões, 13,8% maior que a registrada anteriormente. Ao todo, foram exportadas 48,2 mil toneladas, 1,4% a mais.

“A opção de exportar a carne bovina foi muito importante para o produtor mineiro, uma vez que o consumo interno foi muito impactado pelas medidas de isolamento para o controle do coronavírus, que provocaram o fechamento de bares e restaurantes e reduziram a renda da população. Estes fatores provocaram uma queda no consumo. Com as exportações, foi possível um equilíbrio e a sustentação dos preços do boi gordo em níveis rentáveis”, diz Lara.

Confinamento – Ainda segundo Lara, em relação ao confinamento de bovinos, até o momento, com os preços do milho em alta, média de R$ 40 a saca de 60 quilos, os custos estão elevados, o que vai exigir grande planejamento do produtor. No mercado futuro, a arroba está avaliada em torno de R$ 205, em outubro, gerando uma margem apertada para o produtor.

“O pecuarista que antecipou as compras de insumos tende a ter melhores resultados. Estamos esperando a segunda safra do milho para ver como ficarão os preços do cereal, o que será decisivo para a tomada de decisão do produtor em relação a confinar os bovinos”, explica Lara.