Produção de vinhos em Minas passa por transformação com tecnologia da dupla poda

Técnica expandiu cultivo de uvas finas pelo Estado, elevou a rentabilidade das propriedades e abriu mercado que pode movimentar R$ 120 milhões/ano; MG tem 1º ATeG Viticultura do País
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Produção de vinhos em Minas passa por transformação com tecnologia da dupla poda
Foto: Diário do Comércio / Leonardo Morais / Editado com auxilio de IA

A vitivinicultura mineira atravessa um ponto de inflexão. O que começou como experimento pontual, restrito a poucas propriedades dispostas a testar uma técnica desenvolvida pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), hoje reúne cerca de 130 projetos vitícolas, mais que o dobro dos aproximadamente 50 produtores registrados em 2020. Esses projetos já ocupam regiões que haviam sido consideradas inviáveis para vinhos finos, do Sul de Minas ao Vale do Jequitinhonha, passando pelo Cerrado Mineiro e pela Serra do Espinhaço, e chegam a se espalhar para outros estados, como Espírito Santo, Rio de Janeiro, Mato Grosso e Bahia.

A expansão acontece pela dupla poda, tecnologia que desloca a colheita da uva para o inverno e resolveu um problema que, por décadas, permitiu ao Estado a produzir apenas vinhos de mesa feitos com uvas americanas: o excesso de chuva e calor do verão, que favorecia doenças fúngicas e inviabilizava a maturação das uvas viníferas europeias.

Cachos de uvas
Foto: Reprodução Adobe Stock

Agora, com a colheita acontecendo no inverno, a uva amadurece em um período mais seco e com maior amplitude térmica, condição que forma os compostos que dão cor, estrutura e acidez ao vinho fino. A mudança de calendário, aparentemente simples, é o que abriu caminho para que Minas Gerais passasse a colecionar premiações em concursos como o Decanter World Wine Awards, a Grande Prova de Vinhos do Brasil e o Concurso Mundial de Bruxelas, entre outros.

Esta reportagem acompanha a transformação técnica, econômica e as trajetórias individuais, que juntas, formam um retrato do que o avanço tecnológico oferece no setor da vitivinicultura mineira.

No lado técnico, a pesquisa não parou na criação da dupla poda. Ela segue ativa, testando a quantidade ideal de irrigação no Cerrado, região mais seca que o Sul de Minas, os limites de desfolha que equilibram o controle de doenças com a preservação da acidez da uva, e novas cultivares, na medida em que a técnica avança para solos e climas cada vez mais distintos daqueles onde tudo começou. Esse trabalho de bastidor é o que sustenta, silenciosamente, cada garrafa premiada.

Uvas
Dupla poda levou a colheita para o inverno e abriu novas fronteiras para a produção de vinhos finos | Foto: Reprodução Adobe Stock

Sozinha, a tecnologia não sustenta um negócio, mas combinada com a gestão profissional e a capacitação permite que haja avanço econômico nas propriedades. Os números do Programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG), desenvolvido pelo Sistema Faemg Senar, mostram um salto expressivo nos resultados. Entre as safras 2024/25 e 2025/26, os produtores atendidos pelo programa registraram crescimento de 68,35% na produção e de 276,02% no lucro total, que passou de R$ 122,8 mil para R$ 461,8 mil. Esses resultados indicam que o avanço real ocorre quando a técnica de campo se combina com gestão profissional da propriedade como empresa rural, com controle de custos, registro de investimentos e cálculo do preço do quilo da uva, práticas que, até pouco tempo, não faziam parte da rotina da maioria dos produtores.

Já as trajetórias individuais dão nome e rosto aos números. A Vinícola Beloto, em Andradas, no Sul do Estado, empresa centenária de uvas de mesa, decidiu investir em uvas viníferas somente depois de acompanhar os resultados da dupla poda em outras propriedades, um exemplo de como a mudança de mentalidade muitas vezes precede a mudança técnica.

Nossa equipe visitou vinícolas, em Diamantina, no Jequitinhonha, percorreu parreirais e conversou com produtores. A Quinta Dalva, a Quinta do Campo Alegre e a Quinta da Matriculada mostram três formas distintas de reconstruir uma tradição vitivinícola interrompida havia décadas, combinando ciência, memória afetiva e, em alguns casos, uma segunda geração familiar que assumiu o vinhedo.

A reportagem também mostra os limites e desafios dessa expansão. O retorno é lento (a primeira colheita de qualidade só chega no quinto ano), a mão de obra e os insumos representam custos elevados, e a tributação de 40% a 44% sobre o vinho nacional segue sendo tratada pelos próprios produtores como uma herança fiscal que penaliza a atividade e favorece rótulos importados de países como Argentina e Uruguai, onde o vinho é tratado como alimento.

Em Diamantina, essa equação levou o enoturismo a se tornar, em algumas propriedades, mais da metade do faturamento, uma dependência que revela tanto a criatividade dos produtores quanto a fragilidade de um modelo de negócio baseado apenas na venda da garrafa. Os próprios produtores também apontam a ausência de apoio institucional e de formação especializada nas universidades da região como entraves que a tecnologia, por si só, não resolve.

Trilhando a transição da pesquisa ao mercado, a vitivinicultura mineira mostra que a inovação pode redefinir territórios e economias locais. O futuro tende a ser promissor, quando toda a área plantada entrar em produção, a expectativa é que o vinho fino movimente R$ 120 milhões por ano em Minas Gerais. Porém, o sucesso dependerá do equilíbrio entre a excelência no campo, a viabilidade financeira das propriedades e a superação de gargalos, como políticas públicas e mudanças tributárias e estruturais.

Minas Gerais vira um novo território do vinho

A vitivinicultura em Minas Gerais deixou de ser uma atividade restrita a experiências pontuais e começa a se estruturar como uma nova frente econômica para o Estado. Impulsionado pela dupla poda, o setor já reúne cerca de 130 projetos vitícolas, mais que o dobro dos aproximadamente 50 produtores registrados em 2020. A tecnologia, desenvolvida pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), permitiu adaptar o ciclo da videira ao clima de Minas e criar condições para a produção de vinhos finos em diferentes regiões.

O avanço territorial e o aumento do número de empreendimentos, no entanto, são apenas uma parte dessa transformação. A combinação entre pesquisa, assistência técnica e gestão profissional começa a produzir resultados econômicos nas propriedades. Entre as safras 2024/25 e 2025/26, por exemplo, produtores atendidos pelo Programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) registraram crescimento de 68,35% na produção e de 276,02% no lucro total.

Com cerca de 436 hectares de vinhedos destinados ao processamento, dos quais aproximadamente 80% utilizam a dupla poda, Minas Gerais tem potencial para produzir 6 mil toneladas de uvas e 4,5 milhões de litros de vinho quando toda a área plantada estiver em produção. A projeção é movimentar R$ 120 milhões por ano, consolidando uma cadeia que ainda enfrenta custos elevados e longo prazo de retorno, mas já avança em escala, qualidade e geração de renda.

A coordenadora do Programa Estadual de Pesquisa em Vitivinicultura da Epamig, Renata Vieira da Mota, explica que toda essa evolução ocorre a partir de uma mudança importante no calendário da videira. No sistema tradicional, a planta produz as uvas durante o verão, quando as temperaturas são mais elevadas e a umidade favorece a ocorrência de doenças. Já com a tecnologia da dupla poda, a produção acontece no inverno, permitindo que a uva amadureça durante um período mais seco e com maior amplitude térmica. Esse trabalho desde o campo é importante para que as uvas cheguem à vinícola com as condições necessárias para a produção de bebidas de maior qualidade.

Renata Mota
Coordenadora do Programa Estadual de Pesquisa em Vitivinicultura da Epamig, Renata Mota aponta que técnica da dupla poda já se estende para outros estados | Foto: Erasmo Pereira / Epamig

“Tradicionalmente, a videira produz no verão. Contudo, o verão no Sudeste é chuvoso e quente, o que propicia doenças fúngicas nas videiras finas, as uvas viníferas. Historicamente, isso limitava a produção local a vinhos comuns feitos com uvas americanas, que são mais resistentes. A técnica desenvolvida na Epamig permitiu adaptar o ciclo da videira às condições do clima mineiro e abrir espaço para a produção de uvas com características adequadas à elaboração de vinhos finos, uma vez que não se faz vinho bom com uva ruim.”

Vinificação

A pesquisa também avançou para ajudar os produtores a fazerem o vinho. Assim, a Epamig adequou as estruturas de vinificação para trabalhar com as uvas viníferas e, à medida que os experimentos apresentaram resultados, os primeiros vinhos foram produzidos na unidade de pesquisa. O avanço científico abriu caminho para que propriedades rurais passassem a incorporar novas variedades e, posteriormente, estruturassem as próprias vinícolas.

dupla poda
Pesquisas da Epamig continuam ativas e buscam solucionar novos problemas que surgem com expansão da dupla poda para diferentes solos e climas | Foto: Erasmo Pereira / Epamig

Hoje, além do Sul de Minas, a técnica já avança para regiões como Cerrado Mineiro, Vale do Jequitinhonha, Serra do Espinhaço e Chapada de Minas, além de outras áreas do País, como Espírito Santo, Rio de Janeiro, Goiás, Mato Grosso e Bahia, nas quais a altitude e as condições climáticas podem favorecer a produção de uvas destinadas à elaboração de vinhos de qualidade.

“O diferencial da dupla poda está justamente na possibilidade de aproveitar a época do ano em que o clima contribui para o desenvolvimento da uva. No inverno, os dias são amenos, com temperaturas de 20°C a 22°C, e as noites são frias, chegando a 5°C a 9°C. Essa amplitude térmica favorece a formação de compostos fenólicos que dão cor e estrutura ao vinho, preserva a acidez e permite que o cacho fique mais tempo na planta para atingir a maturação ideal”, completa a coordenadora.

O avanço da viticultura mineira também se reflete no reconhecimento dos vinhos produzidos com a tecnologia da dupla poda. As bebidas conquistaram premiações nacionais e internacionais, incluindo o Decanter World Wine Awards (DWWA); a Grande Prova de Vinhos do Brasil; a ViniBra Expo; a Expovinis; o Concurso Mundial de Bruxelas; o Concurso do Espumante Brasileiro; o Vitis Mundi, além do Wines of Brazil.

Ainda conforme Renata Vieira da Mota, a tecnologia não elimina os desafios econômicos da atividade. A videira exige investimento e tempo para começar a produzir, enquanto a elaboração de um vinho de qualidade depende de uma sequência de manejos realizados no momento adequado.

De acordo com informações da Epamig, a primeira colheita acontece apenas no segundo ou terceiro ano, enquanto a produção de um vinho de qualidade pode ocorrer somente no quinto ano. A mão de obra também representa um componente importante dos custos, já que cada intervenção realizada no vinhedo tem impacto direto sobre o resultado econômico da propriedade.

Como funciona a dupla poda
1ª podaago/set
Os cachos são retirados e a planta apenas cresce
Verão
A chuva não prejudica, porque não há uva no pé
2ª podajan/fev
Agora, sim, é a poda para produzir
Invernojun a ago
Clima seco e noites frias: a uva amadurece com mais açúcar e acidez
Resultado
Uva de verão
Tem pouco açúcar e dá um vinho fraco, que precisa de correção
Uva de inverno
Amadurece no tempo certo e vira vinho fino

Pesquisa avança com vinhedos por diferentes solos e climas

Assim como a produção de uvas e vinhos finos avança para novas áreas, as pesquisas da Epamig continuam ativas e buscam solucionar novos problemas que surgem com a expansão da técnica para diferentes solos e climas.

“Os primeiros vinhedos foram instalados no Sul de Minas e não precisavam de irrigação devido ao solo argiloso, que retém umidade. Com a ida para o Cerrado, região mais seca, a irrigação tornou-se necessária”, reforça a coordenadora do Programa Estadual de Pesquisa em Vitivinicultura da Epamig, Renata Vieira da Mota.

Conforme ela, a Epamig estuda atualmente, em São Sebastião do Paraíso, a quantidade ideal de água e o momento correto de interromper a irrigação antes da colheita.

Outra iniciativa estuda a intensidade correta de desfolha dos vinhedos. Para facilitar o controle de doenças e a aplicação de defensivos, muitos produtores estão retirando folhas em excesso na região dos cachos. No entanto, o excesso de sol direto degrada a acidez da uva e prejudica a qualidade do vinho. A pesquisa da Epamig busca definir o limite ideal de desfolha.

Há também estudos que abrangem novas cultivares para diversificar a produção de vinhos, além de métodos e produtos que podem fazer com que a planta, no período de desfolha, direcione os nutrientes para o tronco e os ramos antes de perder as folhas, garantindo mais energia e vigor para a brotação seguinte.

ATeG Viticultura, 1º do País, eleva em 276% lucro dos produtores de uvas

Minas Gerais sediou a primeira experiência brasileira do Programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) voltada à viticultura. Desenvolvida pelo Sistema Faemg Senar no Sul do Estado, a iniciativa oferece acompanhamento técnico e gerencial aos produtores de uvas, contribuindo para a profissionalização da atividade e para a melhoria dos resultados das propriedades. A expectativa é ampliar o programa conforme o crescimento da demanda.

O analista técnico do ATeG, Altino Júnior Mendes Oliveira, explica que a criação do ATeG Viticultura aconteceu devido à demanda dos produtores que querem avançar na produção, melhorando a qualidade das uvas voltadas para a elaboração de vinhos e os resultados das propriedades.

As primeiras turmas do projeto reuniram produtores de Caldas, Andradas e Santa Rita de Caldas e começaram na safra 2024. As propriedades participantes passaram por um diagnóstico, que fez o levantamento completo da realidade econômica, ambiental, social e produtiva de cada fazenda. Com os dados, são definidos o planejamento estratégico e as melhorias necessárias, além das ações de capacitação profissional. O acompanhamento é contínuo e vai desde o manejo da lavoura até os aspectos econômicos da produção.

Campo Experimental da Epamig em Caldas
Campo Experimental da Epamig em Caldas, no Sul do Estado, é a maior referência em vitivinicultura da região Sudeste | Foto: Erasmo Pereira / Epamig

O modelo de atendimento, que dura dois anos, prevê visitas mensais de aproximadamente quatro horas, durante as quais o técnico acompanha as condições da lavoura, orienta os produtores sobre manejo do solo e das plantas, controle sanitário e escolha de cultivares, além de trabalhar a gestão da propriedade.

“A proposta é fazer com que o produtor não apenas produza mais, mas passe a compreender a propriedade como uma empresa rural, acompanhando custos, indicadores econômicos e resultados das decisões tomadas no campo”, explica Altino Júnior Mendes Oliveira.

Impactos

Até o momento, foram finalizados três grupos, somando mais de 80 produtores atendidos. Os resultados registrados pelo programa mostram o impacto dessa combinação entre assistência técnica e gestão. Entre as safras 2024/25 e 2025/26, o grupo de produtores atendidos pelo ATeG registrou crescimento de 276,02% no lucro total, passando de R$ 122,8 mil para R$ 461,8 mil.

No mesmo período, a produção avançou 68,35%, passando de 89,1 toneladas para mais de 150 toneladas de uva. A renda bruta cresceu 68,27%, ultrapassando R$ 810 mil, enquanto os custos operacionais e totais reduziram, indicando ganho de eficiência nas propriedades acompanhadas.

O trabalho de campo também mostrou que ganhos de produtividade podem vir de mudanças relativamente simples no manejo, desde que sejam realizadas de maneira técnica e no momento adequado. Segundo o técnico de campo do ATeG, Daniel Almeida Rodrigues, cada propriedade participante do programa passou por uma avaliação.

Daniel Almeida
Técnico de campo do ATeG, Daniel Almeida confirma que, em dois anos, melhor adubação e poda das videiras já representaram alta na produção de uvas nas vinícolas | Foto: Arquivo pessoal / Daniel Almeida

“Ao longo dos dois anos, foram feitas várias intervenções que contribuíram para a produção de uvas de maior qualidade. Melhoramos a adubação e a poda das videiras, que, aqui na região, eram bastante deficientes. Com a correção do manejo, houve aumento da produção e melhoria do peso, da qualidade e da padronização dos frutos. Também conseguimos avançar no uso de defensivos, reduzindo o volume e utilizando-os de forma mais racional e responsável, com aplicação na hora correta e na dosagem certa”, explica.

Além das intervenções em campo, os produtores também passaram por diversas qualificações, participando de cursos e palestras voltados para as atividades da viticultura. Ao mesmo tempo, passaram a registrar as despesas e os investimentos realizados no vinhedo e a calcular o custo de produção da uva, o que permite uma visão mais precisa da rentabilidade da atividade.

Para Daniel Almeida Rodrigues, a gestão é fundamental porque a propriedade precisa ser tratada como uma empresa, com acompanhamento dos custos e busca por resultados.

“No ATeG, a gente trabalha tanto a parte técnica quanto a gerencial. Hoje, os produtores que foram atendidos pelo ATeG Viticultura conseguem aprimorar a gerência da propriedade. Eles sabem que é preciso cuidar da produção como uma empresa porque, no final de tudo, o produtor precisa ter lucro”, acrescenta o técnico de campo.

ATeG em números
Fonte: Senar Minas
276%
de aumento no lucro entre as safras 2024/25 e 2025/26
68,35%
de crescimento na produção
R$ 810 mil
de renda bruta, alta de 68,27%
+80
produtores atendidos em três turmas concluídas

Tradição de quase um século encontra a colheita de inverno

A assistência técnica e gerencial é importante quando o produtor decide adotar uma nova tecnologia. Esse foi o caso de Rogério Bellotto, sócio e proprietário da Vinícola Beloto, em Andradas, empresa fundada em 1928 e pertencente a uma família com quase um século de tradição na produção de uvas e vinhos de mesa.

Acostumada ao sistema de colheita de verão, a propriedade começou a investir nas uvas viníferas depois de acompanhar os resultados obtidos com a dupla poda e perceber o potencial de produção de vinhos finos a partir da colheita de inverno. A família iniciou o plantio de uvas viníferas por volta de 2021, tendo a uva Syrah como primeira variedade. O primeiro vinho fino da propriedade foi produzido com a safra de 2024.

Vinícola Beloto
Vinícola Beloto, em Andradas, no Sul de MG, tem atualmente nove hectares de uvas de várias espécies | Foto: Arquivo pessoal / Rogério Bellotto

“A nossa produção foi iniciada há quase um século pelo nosso nonno Fernando Bellotto. A produção de uvas e de vinhos de mesa, desde sempre, ocorreu pelo método de colheita de verão, isto é, poda-se a parreira em agosto e a colheita é feita em janeiro. Com a chegada da dupla poda ou da colheita de inverno, por volta de 2005, nós vimos que a técnica estava dando certo nas uvas viníferas europeias, permitindo a colheita de uvas com qualidade superior e resultando em vinhos finos de qualidade. Isso começou a despertar o interesse dos consumidores de vinho. Então, nós também resolvemos investir nas plantações”, explana o produtor.

Atualmente, a vinícola possui nove hectares de uvas plantadas, com Syrah, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Sauvignon Blanc, além de 8 mil pés da uva Jacques, variedade americana mais tradicional de Andradas. A propriedade também passou a experimentar a inversão do ciclo da uva Jacques, conduzindo-a pelo método de colheita de inverno desde 2023. Entre os vinhos produzidos estão o Moro, de uva Syrah, e o Caterina, de uva Jacques.

Rogério Bellotto
Rogério Bellotto, proprietário da vinícola, fundada em 1928 e pertencente a uma família com quase um século de tradição na produção de uvas e vinhos de mesas | Foto: Arquivo pessoal / Rogério Bellotto

Rogério Bellotto é um dos produtores que participaram do ATeG Viticultura, e a entrada no programa ocorreu justamente no momento em que a propriedade precisava dominar o novo sistema de produção.

“Era um desafio para nós. Mas, quando nos propuseram o ATeG, foi como uma luz no final do túnel”, relata Rogério Bellotto, que passou a receber visitas mensais do engenheiro agrônomo Daniel Almeida Rodrigues.

Durante os encontros, eram discutidos procedimentos como poda, desbrota, poda de produção, poda de formação, pulverização e condicionamento do vinhedo, além do gerenciamento financeiro da propriedade.

“O ATeG Viticultura veio na hora certa, pois nós não tínhamos experiência nenhuma com poda de inverno, com o manejo e com as técnicas a serem utilizadas. Tínhamos experiência com uvas de mesa, mas colhidas no verão. Então, foi fundamental ter um profissional com experiência na viticultura e na dupla poda e, o melhor de tudo, de graça”, comemora Bellotto.

Vinícola Beloto em números
1928
Fundação: quase um século de tradição
2021
Primeiro plantio de uvas viníferas (syrah), por volta desse ano
2024
Safra do primeiro vinho fino
9 ha
plantados, com 4 variedades europeias e a uva Jacques
10 mil L
de vinho fino produzidos por ano, em média

Mudança em gestão

O acompanhamento também mudou a maneira como a família administra a produção. Rogério Bellotto passou a registrar investimentos e gastos do vinhedo e a calcular o custo do quilo da uva, informações que anteriormente não faziam parte da rotina da propriedade. Na avaliação do produtor, o resultado do programa foi essencial para o sucesso da produção, da qualidade e da sanidade das uvas, fatores que, posteriormente, se refletem na elaboração dos vinhos.

“O resultado alcançado com o ATeG foi essencial para o sucesso da produção, da qualidade e da sanidade das nossas uvas. Com uvas de qualidade e sanidade perfeitas, não tinha como não elaborar e vinificar vinhos de alta qualidade. A dupla poda foi um marco para a viticultura e para a produção de vinhos de alta qualidade. Hoje, temos várias vinícolas mineiras ganhando prêmios internacionais, e tudo isso graças ao método da colheita de inverno. Graças a essa técnica, hoje temos vinhedos e vinícolas em vários estados no Brasil”, aponta, satisfeito.

Os vinhedos de inverno da família Bellotto ainda são jovens, mas produzem cerca de 10 mil litros de vinho fino ao ano. A produção é vendida na loja da vinícola, em Andradas, e em algumas cidades do Sul de Minas e do Estado de São Paulo.

Em Diamantina, vinho renasce entre ciência e memória

A vitivinicultura de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, chega a uma nova etapa depois de mais de duas décadas de retomada. A dupla poda permitiu superar parte das limitações climáticas da Serra do Espinhaço e produzir vinhos finos em uma região antes considerada pouco favorável à atividade. O desafio agora é transformar essa conquista técnica em negócios capazes de ganhar escala sem perder a identidade artesanal.

A dupla poda foi decisiva nesse processo ao deslocar a colheita para o inverno, período mais seco e adequado à maturação das uvas. A técnica abriu caminho para a introdução de variedades europeias e passou a ser combinada com estações meteorológicas, análises de solo, leveduras selecionadas, manejo biológico e novos métodos de controle da produção.

Vitivinicultura de Diamantina
Vitivinicultura de Diamantina, bem na Serra do Espinhaço, chegou | Foto: Diário do Comércio / Leonardo Morais

Os avanços, porém, ainda não eliminaram os obstáculos econômicos. As propriedades operam com volumes reduzidos, enfrentam custos elevados de insumos e transporte e precisam realizar investimentos permanentes no manejo dos vinhedos. A tributação dos vinhos nacionais, estimada pelos produtores entre 40% e 44%, também limita a competitividade diante dos rótulos importados.

Nesse cenário, o enoturismo deixou de ser apenas uma atividade complementar e passou a sustentar parte relevante das operações. Nas quintas do Campo Alegre e da Matriculada, por exemplo, as experiências de visitação já representam, respectivamente, 40% e 50% do faturamento. A comercialização de vinho passa a ser integrada à gastronomia, à paisagem e à produção artesanal da região.

As trajetórias da Quinta Dalva, da Quinta do Campo Alegre e da Quinta da Matriculada mostram como ciência, experiência e tradição estão formando uma nova cadeia econômica em Diamantina. Ao mesmo tempo, revelam os limites para sua expansão: falta de formação especializada, pouco apoio institucional, tributação elevada e necessidade de investimentos em tecnologia e estrutura turística.

A retomada começou em 2003, quando o produtor e atual presidente da Associação dos Vitivinicultores e Olivicultores de Diamantina e Alto Jequitinhonha (Avodaj), João Francisco Meira, fundou a Quinta Dalva e decidiu testar a técnica da dupla poda em escala de vinhedo na região. Movido também pela memória de ter caminhado, quando criança, pelos vinhedos da antiga estação de enologia da cidade, ele recuperou uma atividade que teve importância em Diamantina entre a segunda metade do século XIX e meados do século XX.

A atividade passou por diferentes fases durante cerca de 100 anos, entre 1865 e 1965, antes de ser interrompida por uma combinação de fatores econômicos, logísticos e tecnológicos. Entre eles, Meira destaca a desativação da ferrovia de Diamantina nos anos 1960, que eliminou o único meio de transporte de carga pesada da região. “Sem asfalto e sem trilhos, não havia como escoar a produção de forma viável”, relembra.

A tecnologia disponível na época também limitava a competitividade. Os vinhedos da cidade eram compostos por variedades híbridas de uvas americanas, mais resistentes às chuvas de verão, misturadas com uvas europeias, como Syrah e Seibel. O resultado era considerado inferior ao produzido no Sul do País.

“Não havia conhecimento na época sobre a possibilidade de fazer com que uvas europeias valessem a pena no Brasil, porque a colheita de verão só funcionava no extremo Sul do Brasil”, explica o presidente da Avodaj.

Nos anos 2000, a tentativa de recuperar a tradição vitivinícola de Diamantina coincidiu com o desenvolvimento da técnica da dupla poda pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), em projeto conduzido pelo pesquisador Murillo de Albuquerque Regina. O período também foi marcado pela implantação do curso de Ciências Agrárias na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), o que ampliou o acesso a novas técnicas na região.

“A Quinta Dalva foi um dos experimentos que ajudaram a formalizar a dupla poda como prática de cultivo. A técnica permitiu que Minas Gerais contornasse o problema histórico do excesso de chuvas no verão”, relata Meira.

Sem ela, o produtor salienta que a retomada não teria sido viável. As uvas colhidas no verão apresentam teor de açúcar, medido em graus Brix, muito abaixo do necessário para uma vinificação adequada. Com frutose insuficiente, a fermentação produz vinho com teor alcoólico na casa dos 8 graus (°GL), abaixo do padrão regular de 11 °GL a 12 °GL. Para compensar, seria preciso adicionar sacarose ao mosto, prática que pode afetar a qualidade e a identidade do produto.

A safra de inverno, viabilizada pela dupla poda, inverte essa lógica. Conforme Meira, com a ausência de chuvas, a uva amadurece lentamente, retém o açúcar natural e chega à colheita com as condições ideais para produzir um bom vinho.

Uma tradição interrompida
1865
Começa a vitivinicultura em Diamantina, que se manteria ativa por um século
1918
Entra em operação a estação meteorológica da cidade: hoje são 108 anos de dados
1965
Fim da produção, após a desativação da ferrovia local nos anos 1960
2003
A atividade é retomada com a Quinta Dalva

Quinta Dalva se consolida com inovações

Passados mais de 20 anos desde o primeiro plantio, a Quinta Dalva consolidou sua operação no Vale do Jequitinhonha. O vinhedo conta hoje com cerca de 12 mil plantas e nove variedades, entre elas Tempranillo, Syrah, Cabernet Franc, Sauvignon Blanc e Chardonnay. A colheita anual gira em torno de cinco toneladas de uva, resultando na produção de 2.500 a 3.000 garrafas por ano.

Desde então, a tecnologia aplicada ao cultivo avança. Ao longo de duas décadas, a Quinta Dalva incorporou um conjunto de inovações que transformaram o manejo da videira em Diamantina.

Quinta Dalva
Quinta Dalva, pioneira na cidade, conta hoje com cerca de 12 mil plantas e nove variedades de uvas, entre elas, a Pinot Noir | Foto: Diário do Comércio / Leonardo Morais

A primeira frente foi a indução da frutificação de inverno com estimulantes modernos, indisponíveis no mercado nos primeiros anos da retomada. Esses produtos passaram a ser aplicados para aumentar o volume de produção no ciclo frio sem comprometer a qualidade do fruto.

A nutrição do solo também evoluiu. Protocolos de adubação foram desenvolvidos a partir de análises de acidez e matéria orgânica e substituíram um processo que antigamente era feito no olho e hoje conta com instrumentos de medição precisos.

Na vinificação, leveduras selecionadas pela ciência, escolhidas por funcionarem melhor com determinadas variedades e condições climáticas, substituíram cepas genéricas e melhoraram tanto a produtividade quanto a qualidade final do vinho.

A propriedade também opera com uma vantagem histórica. A estação meteorológica de Diamantina, em funcionamento desde 1918, fornece dados de temperatura e pluviosidade há 108 anos. Segundo Meira, o longo histórico climático permite um planejamento do manejo mais preciso do que qualquer tecnologia poderia oferecer sozinha.

Apesar dos avanços, ainda há limitações consideráveis onde a tecnologia não alcança. “Não controlamos chuva, vento, umidade relativa do ar, temperatura média, nem número de horas de sol. São variáveis concedidas pela natureza. Por isso, nada substitui a experiência humana e a conexão do viticultor com o vinhedo”, considera.

Tecnologia amadurece com segunda geração no Campo Alegre

Oito anos após a retomada da produção de vinhos em Diamantina, a Quinta do Campo Alegre entrou na vitivinicultura com uma estrutura tecnológica de peso. Em 2011, um grupo de dez produtores formou um projeto público-privado apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Entre eles, estava Leonardo de Andrade, fundador da propriedade, que iniciou a produção com um módulo experimental de 200 plantas.

Atualmente, a quinta é gerida pela segunda geração da família: a filha Ana Julia de Andrade e o marido, Luiz Felipe Oliveira, que entrou no projeto pelo casamento e aprendeu o ofício do zero.

Quinta do Campo Alegre
Hoje gerida pela segunda geração da família, Quinta do Campo Alegre, na encosta da Serra do Espinhaço, evoluiu muito em manejo | Foto: Diário do Comércio / Leonardo Morais

“Eu costumo falar que bateu uma loucura neles e eles resolveram embarcar nisso. Como qualquer atividade pioneira, passamos por diversas dificuldades que quem entra hoje na viticultura não vai precisar enfrentar”, destaca Oliveira.

A propriedade fica a 1.400 metros de altitude, na encosta da Serra do Espinhaço, e opera com sete variedades: Syrah, Tempranillo, Sauvignon Blanc, Pinot Noir, Malbec, Tannat e Cabernet Franc. A Merlot, segundo ele, foi removida após um único ano de produção, quando ficou claro que não se adaptava ao microclima local.

Os vinhos são comercializados, principalmente, na região de Diamantina e em pontos selecionados de Belo Horizonte e Montes Claros. Alguns rótulos especiais só são vendidos na própria propriedade.

Manejo em evolução

Ao longo de 15 anos, o manejo evoluiu de forma significativa. A dupla poda foi o ponto de partida, mas o desenvolvimento não parou.

Segundo Oliveira, no início, a poda era feita com menos gemas, ou brotos, por sarmento – o ramo da videira -, o que limitava a capacidade produtiva. Com o estudo da fertilidade de cada gema, a Quinta do Campo Alegre aprendeu a podar com mais gemas sem comprometer a qualidade do fruto.

“Quebramos um estigma importante: maior produção não significa necessariamente qualidade inferior”, afirma.

Além disso, novos clones desenvolvidos pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC), em São Paulo, foram introduzidos ao longo dos anos. A adubação evoluiu com o uso de aminoácidos e algas. O controle de pragas passou a incluir organismos como Trichoderma e Trichogramma, além de outros inimigos naturais que combatem fungos e insetos sem o uso de defensivos químicos.

“Aprendemos também que produzir melhor nem sempre está relacionado à quantidade de defensivo”, destaca Oliveira.

Outra iniciativa é a implantação de uma estação meteorológica no vinhedo, que monitora temperatura, umidade e pluviosidade em tempo real e projeta uma janela de cinco dias, permitindo planejar a poda com antecedência. O produtor avalia que o recurso é fundamental, especialmente em um microclima no qual a geada no inverno e o granizo no início do verão podem comprometer uma safra inteira.

“A produção já variou de duas toneladas a 16 toneladas em diferentes anos. Na última safra, foram produzidos cerca de 5.000 litros de vinho,” revela o produtor da Quinta do Campo Alegre.

Além das práticas já adotadas, a equipe está de olho em novas tecnologias e ferramentas para atenuar os desafios do cultivo. O próximo passo em estudo, segundo Oliveira, é o cultivo protegido, uma cobertura sobre a videira que reduz a incidência direta de umidade e, com isso, o ataque do míldio, um dos principais fungos que afetam a produção.

“É uma tecnologia que vai alterar todo o nosso manejo. Envolve aspectos técnicos, práticos e financeiros. A gente precisa estudar bem os custos e o impacto no produto final antes de qualquer decisão”, explica Oliveira.

Matriculada transforma laços de família em rótulos premiados

Se a Quinta Dalva e a Quinta do Campo Alegre representam a incorporação progressiva de tecnologia ao vinhedo, a Quinta da Matriculada busca um equilíbrio entre inovação e tradição. O médico Daniel Barrote, que fundou a propriedade em 2011, foi apresentado ao vinho pelo avô, apreciador dos rótulos portugueses, e faz questão de seguir práticas tradicionais do país europeu.

A convivência com o avô criou uma ligação afetiva com a bebida que hoje se reflete na forma como ele conduz o vinhedo. O produtor busca respeitar a tradição portuguesa sem abrir mão das ferramentas oferecidas pela ciência. Localizada a 1.250 metros de altitude, a propriedade reúne condições de clima e relevo que favorecem o cultivo de uvas destinadas à produção de vinhos de maior qualidade.

Para Barrote, a dupla poda foi o que levou os vinhos de Diamantina para o cenário nacional. “Vinho fino é difícil para o brasileiro aceitar que a gente faça com qualidade. A dupla poda proporcionou isso. Fez com que a gente conseguisse produzir vinhos que estão ganhando prêmios fora do Brasil”, destaca.

Daniel Barrote e a mulher Marília Barrote
Na Quinta da Matriculada, Daniel Barrote e a mulher Marília Barrote já comemoram rótulos premiados em concursos internacionais | Foto: Diário do Comércio / Leonardo Morais

Em 2024, a Quinta da Matriculada foi contemplada com medalha de ouro com o rótulo “Tão Tempranillo” no Brazil Wine Challenge, um dos principais concursos de vinhos da América Latina com amostras de 14 países. Em 2026, no concurso Wines of Brazil Awards 2026, a propriedade recebeu quatro medalhas no total, incluindo uma Grand Gold com o rótulo “Vin de Minas”.

O reconhecimento externo, no entanto, convive com desafios estruturais que encarecem a produção. O produtor relata que o solo da região é pobre em matéria orgânica, o que exige investimento maior em adubação em comparação com outras regiões produtoras. Somado ao frete de insumos e ao fato de que a dupla poda implica dois ciclos de tratamento por ano, o custo de produção em Diamantina é consideravelmente mais alto.

Uma das escolhas consideradas emblemáticas pelo produtor no vinhedo é a ausência de irrigação. “Quis manter o padrão mais tradicional. Quero concentração para um produto mais natural, e a videira precisa sofrer para dar bons frutos”, avalia Barrote.

Controle biológico

Embora preserve práticas tradicionais no manejo do vinhedo, Barrote caminha progressivamente para um controle de pragas mais biológico. “Tudo o que eu puder tirar de defensivo, eu vou tirar”, afirma. Às margens da Estrada Real, a propriedade também recebeu o título de Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), reforçando a aposta na sustentabilidade como parte da estratégia de expansão do negócio.

A propriedade opera com seis variedades: Syrah, Tempranillo, Sauvignon Blanc, Pinot Noir, Malbec e Merlot. Segundo Barrote, a Pinot Noir é a mais trabalhosa e, ao mesmo tempo, a variedade da qual ele menos abre mão, por resultar em um rosé mais apurado.

A Malbec e a Merlot são consideradas as mais instáveis. Segundo o produtor, ambas aceitam mal a dupla poda em Diamantina, com variação de qualidade entre as safras e sem padrão previsível. Já a Syrah, como nas outras quintas, é a âncora da produção.

Os rótulos carregam nomes dos filhos, dos netos e da esposa, Marília Barrote, prática que virou marca da vinícola. “A netinha já chegou e o netinho vem em outubro. Estamos preparando um rótulo em homenagem a ele”, conta.

Para o futuro, o plano é crescer com cautela. A meta é chegar a 10 mil garrafas por ano, sem abrir mão do caráter boutique da vinícola. “Quero que as pessoas que venham aqui se sintam em casa”, reforça o produtor.

Enoturismo sustenta investimentos nas quintas de Diamantina

Apesar dos avanços tecnológicos das quintas de Diamantina, a ampliação das operações enfrenta barreiras de custo. A dupla poda aumenta as despesas com o manejo, que precisa ser realizado em dois ciclos ao longo do ano.

Para viabilizar os investimentos em técnicas de cultivo, variedades e equipamentos, os produtores encontraram no enoturismo uma fonte de receita que, em pouco tempo, se tornou essencial para a sobrevivência dos negócios.

Na Quinta do Campo Alegre, por exemplo, a atividade representa 40% da receita total. A estrutura de visitação, toda em vidro, foi construída para aproveitar a vista do vinhedo e das rochas da Serra do Espinhaço. A experiência visual, aliada ao sabor, conquistou turistas de diferentes regiões do Estado e do País.

O território abriga ainda olivais e lavandários e, em datas especiais, chefs de cozinha são convidados para jantares e almoços harmonizados. Além disso, uma Rota Artesanal conecta a propriedade a produtores de queijos e cervejas de Diamantina.

“O turismo é mais do que um complemento. É uma forma de manter o projeto vivo”, destaca Luiz Felipe Oliveira.

Luiz Felipe Oliveira
Luiz Felipe Oliveira conta que, na última safra, foram produzidos cerca de 5 mil litros de vinho | Foto: Diário do Comércio / Leonardo Morais

Já na Quinta da Matriculada, o enoturismo é ainda mais expressivo e responde por 50% do faturamento. O modelo funciona com agendamento prévio, e as reservas são encerradas três a quatro dias antes da visita para permitir a organização da experiência enogastronômica.

Apesar do crescimento do enoturismo nas propriedades, João Francisco Meira avalia que Diamantina ainda não reconheceu todo o potencial da atividade. Para o produtor, o poder público e o setor hoteleiro não estão atentos ao que a vitivinicultura pode gerar para a cidade.

“O enoturismo envolve gastronomia, restaurantes, atividades indoor. É um potencial valiosíssimo que precisa ser mais bem aproveitado”, complementa.

Meira destaca ainda que as universidades públicas sediadas na cidade não abraçaram a vitivinicultura como uma atividade que merece atenção acadêmica. Atualmente, não há curso de formação especializada, curso técnico ou disponibilização eficaz de laboratórios para os produtores.

O peso dos impostos
40% a 44%
é a carga tributária sobre o vinho nacional
até 35%
mais baratos: é assim que vinhos argentinos e uruguaios chegam ao consumidor
40% a 50%
do faturamento das quintas de Diamantina vem do enoturismo

Tributação elevada limita expansão dos produtores de vinhos

A elevada tributação, que hoje gira em torno de 40% a 44% para os vinhos nacionais, é outro entrave estrutural que limita a expansão da vitivinicultura em Diamantina. Para Meira, tanto Minas Gerais quanto o Brasil possuem uma política fiscal com herança colonial.

“O Estado brasileiro trata o vinho como uma bebida alcoólica qualquer, sem considerar o impacto social, econômico e histórico. É uma herança da Coroa portuguesa, que sempre desestimulou a viticultura para privilegiar Portugal”, detalha.

Minas Gerais, segundo ele, possui um regime fiscal ainda mais punitivo. Com a reforma tributária, o cenário pode se agravar se o vinho passar a ser taxado no mesmo patamar de outras bebidas, como o uísque escocês. O resultado é a perda de competitividade frente a países como Argentina e Uruguai, que tratam o vinho como alimento.

Taça de vinho
Foto: Reprodução Adobe Stock

“Os vinhos finos argentinos e uruguaios custam até 35% menos para o consumidor. O imposto no Brasil é uma barreira que impede a ampliação da geração de receita para o próprio Estado e não estimula o empreendedorismo”, argumenta Meira.

Apesar dos desafios, os produtores de Diamantina enxergam o momento atual como o início de um ciclo longo. O que existe hoje na cidade, vinhedos produtivos, vinhos premiados internacionalmente e um movimento de enoturismo em crescimento, é resultado de duas décadas de aposta em um lugar que muitos consideravam inviável para a vitivinicultura.

Vinho Quinta da Matriculada
Na Quinta da Matriculada, enoturismo já é bem expressivo e responde por 50% do faturamento; turistas visitam a vinícola e se deliciam com comidinhas e vinhos | Foto: Diário do Comércio / Leonardo Morais

Para Luiz Felipe Oliveira, da Quinta do Campo Alegre, o horizonte da atividade exige uma paciência que ultrapassa qualquer planejamento de curto prazo. “Na vitivinicultura, nos primeiros 500 anos, a gente pega o jeito”, finaliza, com humor.

Sobre o autor

Michelle Valverde

Repórter do Diário do Comércio desde 2009. Graduada em Jornalismo pela Newton Paiva.

Sobre o autor

Leonardo Morais

Repórter de economia e negócios do Diário do Comércio, com experiência em jornalismo digital e produção multimídia. Graduado pela PUC Minas, foi premiado com o 2º lugar no Prêmio Sebrae de Jornalismo, Fotojornalismo (2024).

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