Vinícolas de Ritápolis e região articulam nova rota do vinho para impulsionar o turismo na região

Viticultores da região se unem para valorizar a produção local e atrair turistas para experiências singulares em Minas Gerais
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Vinícolas de Ritápolis e região articulam nova rota do vinho para impulsionar o turismo na região
A Quinta da Juliana já recebe turistas interessados em conhecer o parreiral e degustar os três rótulos produzidos no local; empreendimento fabricou 6 mil garrafas na primeira safra | Foto: Divulgação Quinta da Juliana

Elegante e sofisticado, o enoturismo é quase um estilo de vida, no qual os viajantes percorrem o mundo em busca de sabores e experiências singulares. Segundo projeção da Persistent Market Research, divulgada pela publicação britânica The Drinks Business, o mercado global de enoturismo deve alcançar US$ 138,4 bilhões até 2033, com crescimento anual de 13% a partir de 2026.

Aos poucos, o Brasil e, especialmente, Minas Gerais têm se tornado destinos para os amantes do vinho. De olho nesse potencial e com o objetivo de divulgar e valorizar a originalidade da produção regional, viticultores de Ritápolis e municípios vizinhos, no Campo das Vertentes, planejam criar um novo roteiro do vinho.

De acordo com o assessor de governo da prefeitura de Ritápolis, Humberto Mafra Almeida, as conversas com a Instância de Governança Regional (IGR) Trilha dos Inconfidentes já começaram. O circuito reúne Alfredo de Vasconcelos, Antônio Carlos, Barbacena, Barroso, Carandaí, Carrancas, Conceição da Barra de Minas, Coronel Xavier Chaves, Desterro do Melo, Dores de Campos, Entre Rios de Minas, Ibituruna, Itutinga, Lagoa Dourada, Madre de Deus de Minas, Nazareno, Piedade do Rio Grande, Prados, Resende Costa, Ritápolis, Santa Bárbara do Tugúrio, Santa Cruz de Minas, São João del Rei, São Tiago, São Vicente de Minas e Tiradentes.

“Há alguns anos, algumas vinícolas começaram a se instalar na região e hoje temos vinhos excelentes e reconhecidos. O objetivo, ao criar o roteiro, é oferecer aos turistas a singularidade dessas cidades, que fazem parte de um território grande e diverso, com opções de turismo religioso, cultural, histórico e de natureza, entre outras. Essa é uma forma de ampliar e diversificar a oferta, estendendo a permanência dos turistas na região”, explica Almeida.

Ritápolis, conhecida por abrigar a fazenda onde Tiradentes teria nascido, conta com pouco mais de 5 mil habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre as colinas do município, a Quinta da Juliana já recebe pedidos de visitas de turistas interessados em conhecer o parreiral e provar os três rótulos disponíveis: Vinho Rosé Belle de Ju, Vinho Sauvignon Blanc Alvorada e Vinho Tinto Syrah Terra.

Segundo o sócio-proprietário da Quinta da Juliana, Marcos José de Paula, o empreendimento produziu 6 mil garrafas na primeira safra e deverá chegar a 12 mil na próxima. Quando estiver em plena atividade, terá capacidade para produzir 80 mil garrafas por ano.

“Entendemos que o roteiro vai ajudar a divulgar Ritápolis, que parece parada quando comparada a outras cidades próximas, como Tiradentes, São João del-Rei ou São Tiago, por exemplo, que apresentam uma identidade forte e reconhecida pelos turistas. Temos aqui atrativos naturais, história e restaurantes excelentes, mas pouca gente conhece. A rota das vinícolas, além de divulgar a produção, também abrirá as portas para que os turistas conheçam outras riquezas do município e da região”, avalia de Paula.

A Quinta da Juliana uniu Marcos ao amigo Antônio Lucas de Paula, que, apesar do mesmo sobrenome, não é seu parente. Outra coincidência é que as esposas dos dois se chamam Juliana.

A reativação do aeroporto de São João del-Rei e a retomada da rota para Belo Horizonte, operada pela Azul Conecta, em agosto, também animam o empresário, que já planeja instalar uma fábrica para transformar em vinho as uvas produzidas na região.

“Nós começamos o projeto quase como uma brincadeira. Só que quem quer brincar, brinca com um hectare, e nós começamos com 10. O enoturismo dá visibilidade e gera mercado. Já estamos projetando construir uma fábrica para vinificar em Ritápolis, montar um receptivo e talvez até um hotel. Hoje, geramos 12 empregos diretos e cerca de 10 indiretos. Esse número chegará a algo entre 30 e 40 pessoas”, afirma o sócio-proprietário da Quinta da Juliana.

Enoturismo une vinhos, memórias e sabores de Minas

Idealizada por três gerações de mulheres da família, Bernadete, Gena e Maria Rita, a Sá Marias está localizada a mais de 1.200 metros de altitude e mantém um cultivo em terraços inspirado no Vale do Douro. O empreendimento oferece uma experiência completa, inclusive com hospedagem na casa do Sítio Dutra, equipada com um charmoso fogão a lenha, ampla área externa, rede e churrasqueira para festas familiares ou reuniões de amigos. Para completar, há um forno de cupinzeiro usado na Experiência com Quitandas, que pode ser solicitada pelos visitantes.

Para a proprietária da Sá Marias, Bernadete Maria de Sousa, a força das histórias de Minas Gerais, unida à qualidade ímpar e à originalidade dos vinhos da região, deve ser mais bem aproveitada para gerar desenvolvimento e renda. Ainda sem um receptivo formal, ela vem “ajeitando” o espaço, reunindo histórias e ajudando a organizar produtores locais de diferentes segmentos.

“Temos uma área muito pequena. Produzimos 1.326 garrafas, basicamente um lote exclusivo. Penso que o enoturismo é que vai me dar retorno. Quero que esse seja um espaço de memórias, para contar as histórias das ‘sás’, corruptela de ‘senhoras’ usada no interior de Minas, que nos trouxeram até aqui. Será um turismo rural, no qual poderei mostrar os muros de pedras feitos pelos escravizados, contar a história de Bárbara Heliodora, figura da Inconfidência Mineira e poetisa que nasceu em São João del Rei, e levar as pessoas à capela construída pelo meu pai. Aqui, vou servir, junto com os meus vinhos, os laticínios de excelência produzidos em Ritápolis e o artesanato desenvolvido em várias cidades próximas”, planeja Bernadete Maria de Sousa.

Não são apenas as vinícolas que esperam ganhar projeção e ampliar os negócios com a criação do novo roteiro. Responsável pela Estalagem e Queijaria Canto do Rio, que produz queijos desde 2021, Ana Letícia Leão entende que as ofertas complementares ajudam a divulgar e desenvolver a região como um todo.

“É ótimo para a região, que tem muito a ganhar com uma importante rota de queijos, vinhos e turismo rural”, pontua Ana Letícia Leão.

A expectativa das produtoras é que a articulação entre vinícolas, queijarias e demais empreendimentos rurais consolide um roteiro capaz de atrair visitantes durante todo o ano, e não apenas em datas pontuais. Para Bernadete Maria de Sousa e Ana Letícia Leão, o crescimento conjunto do enoturismo e da produção artesanal de queijos tende a fortalecer a economia local, gerar renda para pequenos produtores da região e preservar histórias e tradições que, até então, permaneciam restritas ao conhecimento de quem já conhecia essas propriedades.

Sobre o autor

Daniela Maciel

Repórter do Diário do Comércio desde 2011. Graduada em Jornalismo pelo UniBH e em História pela UFMG.

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