Demanda chinesa pela carne bovina vem impulsionando o preço da arroba em Minas, que vem sendo negociada acima de R$ 200 - Crédito: REUTERS/Paulo Whitaker

A demanda chinesa aquecida pela carne bovina brasileira deve sustentar, por pelo menos dois anos, os preços das carnes em patamares rentáveis para os produtores mineiros. A tendência é que o mercado se mantenha favorável, permitindo que os pecuaristas invistam na produção e recuperem as perdas acumuladas nos anos anteriores. O assunto foi debatido, ontem, durante a divulgação do balanço de 2019 e as perspectivas para 2020, promovido pelo Sistema da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Sistema Faemg).

Em novembro, os preços pagos pela arroba do boi gordo, em Minas Gerais, atingiram patamares recordes, com o volume sendo comercializado acima de R$ 200, o que impactou de forma negativa no consumo. Para o início do ano, é esperado recuo nos valores, mas os mesmos devem se manter acima dos praticados em anos anteriores, quando a arroba era negociada próxima a R$ 150, e cobrindo os custos de produção.

De acordo com o presidente do Sistema Faemg, Roberto Simões, a valorização é importante para garantir renda aos pecuaristas, mas a alta rápida dos preços impactou de forma negativa no consumo. Por isso, haverá um ajuste, mas os preços se manterão rentáveis para o setor.

“Nós tivemos três anos e meio de contenção de preços e os custos produção se mantiveram em elevação nesse período. Então, há um novo patamar de preços, mas, com certeza não é nas alturas que chegou. Preços muito altos não servem nem para o consumidor, nem para o produtor. É melhor que se tenha uma cadeia mais bem administrada com correções de preços de acordo com o aumento de renda dos consumidores”, explicou Simões.

De acordo com o analista de agronegócio da Faemg, Wallisson Lara, a manutenção do mercado firme para as carnes nos próximos dois anos se deve, principalmente, a epidemia de Peste Suína Africana (PSA) que vem dizimando o rebanho suíno na China.

A estimativa é que mais de 50% do rebanho chinês seja descartado em busca do controle sanitário. Os chineses, que são os maiores produtores e consumidores de carnes, estão buscando alternativas para substituir a carne suína. Por isso, a demanda pela carne bovina produzida no Brasil deve se manter elevada, uma vez que o País possui condições de atender.

“A China tem um embaraço com os Estados Unidos (EUA), país que está entre os maiores produtores mundiais de carnes. Outros players que poderiam abastecer a China são a são Austrália, que destina 80% da produção ao consumo interno e 20% para a exportação, e convive com problemas climáticos, e a Argentina, com o cenário econômico catastrófico, com inflação alta e precisando abastecer o mercado interno. Então, o país pronto para atender a demanda é o Brasil. Temos genéticas, sanidade, clima, qualidade e pessoas para produzir”.

Tendência – Ainda segundo Lara, a tendência é que o mercado para a carne continue firme por pelo menor dois anos, influenciado pela demanda da China. O momento é considerado importante para que o pecuarista invista na produção e reduza as perdas acumuladas nos últimos anos.

“Com a Peste Suína Africana, é mais interessante para os chineses comprarem do mercado externo, do que produzirem. Vemos para os próximos dois anos um mercado chinês ávido pelas carnes, principalmente, de bovino. O produtor mineiro e brasileiro podem estar certos que estamos no caminho certo e podem investir. Até mesmo o mercado futuro, para meados de 2020, garante preços favoráveis para o setor produtivo”.

Jair Bolsonaro decarta o tabelamento diante da alta

Rio– O presidente Jair Bolsonaro descartou ontem determinar um tabelamento do preço da carne diante da alta recente do produto em consequência do aumento das exportações para a China, e afirmou que países árabes também estão interessados em aumentar a compra de commodities agropecuárias do Brasil.

“O pessoal reclamando do preço da carne. A China está comprando, aumentou o preço no Brasil. Vamos lá: ou apoiamos o livre mercado ou não apoiamos. Tabelar, eu não vou tabelar”, disse Bolsonaro em discurso durante visita a Palmas, no Tocantins.

“Isso já não deu certo lá atrás. É uma chance para aqueles que criticam o homem do campo comprarem um pedaço de terra e criar boi. Vai lá para ver a moleza que é”, acrescentou.

Bolsonaro já havia comentado sobre a alta recente do preço da carne esta semana, dizendo que o aumento se deve a uma combinação de entressafra com uma elevação das exportações, e apontando para uma queda em breve.

O Brasil, maior exportador global de carne bovina, está vendendo cada vez mais para a China diante da alta da demanda chinesa devido ao surto de peste suína africana na criação de porcos do país asiático, o que faz com que os consumidores brasileiros paguem mais pelo produto nos açougues do País.

Em novembro, a inflação oficial do Brasil registrou aceleração e o resultado mais alto em quatro anos, a 0,51%, com forte impacto da alta dos preços das carnes.

No discurso de ontem, que foi transmitido por satélite pela Radiobrás, Bolsonaro também comentou a recente redução dos juros cobrados pela Caixa no cheque especial e no financiamento imobiliário, e disse que os bancos privados terão que seguir o mesmo caminho para não perderem clientes.

Ao criticar governos passados, a quem acusou de corrupção, Bolsonaro disse que se aparecer algum caso de corrupção em seu governo, ele colocará o eventual ministro envolvido “no pau de arara” se o mesmo tiver responsabilidade confirmada. (Reuters)