Investidores têm, cada vez mais, cobrado maior atenção do governo à Amazônia | Crédito: Ueslei Marcelino/Reuters

A maior conscientização mundial em relação à importância da sustentabilidade está mudando as agendas das empresas e dos investidores. Com a pandemia do Covid-19, tornou-se ainda mais evidente a importância das empresas adotarem práticas sustentáveis como estratégia de negócios.

No mundo, investidores tendem a priorizar empresas que adotam melhores práticas ambientais, sociais e de governança, ou seja, os fatores ESG, como são conhecidos pelo mercado. No Brasil e em Minas Gerais, várias mudanças deverão ser adotadas pelas empresas, para que os investimentos possam ser conquistados.

A preferência por investir em empresas sustentáveis é crescente. Para se ter ideia, a emissões de títulos voltados para ESG no mundo devem alcançar US$ 350 bilhões ou R$ 1 trilhão em 2020, volume 36% maior do que o registrado em 2019, segundo previsão do Climate Bonds Initiative (CBI).

Dentre os desafios que podem impactar na atração de investimentos no Brasil e em Minas está a necessidade de uma maior gestão sobre as queimadas e o desmatamento que atingem a Amazônia, Pantanal e o Cerrado. De acordo com o professor e gerente do Núcleo de Sustentabilidade da Fundação Dom Cabral (FDC), Heiko Spitzeck, está cada dia mais evidente a pressão de investidores para que o governo brasileiro atue de forma mais consistente no controle do desmatamento.

Existem também iniciativas de bancos locais que querem investir em negócios para proteção das florestas. A agenda de sustentabilidade também vem sendo cada vez mais trabalhada pelos bancos internacionais.

De acordo com Spitzeck, o setor financeiro, já no ano passado, começou a articular mais a agenda de sustentabilidade. Na discussão financeira, os fatores ESG estão sendo priorizados e existe uma maior cautela nos investimentos frente a impactos sociais e ambientais negativos.

“Os bancos internacionais não querem colocar sua reputação na linha quando o dinheiro poderá ser usado para o desmatamento, o trabalho infantil e poluição, por exemplo. Essas questões estão sendo colocadas na pauta e as empresas que dependem do financiamento internacional, serão impactadas. Então, a gente vê que a transparência das empresas em relação ao desempenho social e ambiental será avaliada pelos investidores”, ressalta.

Segundo Spitzeck, a crise provocada pela pandemia e a queda de renda têm feito com que o consumo interno retraia e o País tem dependido mais das exportações. “Os setores que mais exportam são a mineração e o agronegócio. São também os que mais impactam no meio ambiente e que dependem de investimentos estrangeiros. Todo mundo que está conectado com os mercados fora do Brasil será mais cobrado em relação às melhores práticas ambientais, sociais e de governança”, alerta.

O momento também é considerado oportuno para as empresas repensarem a atuação. “Muitas diretorias e conselhos estão fazendo a pergunta: qual o papel social da minha empresa? Se não olharem para os stakeholders, para os fornecedores e clientes, eles irão perder. Quando a discussão do ESG vem pelo financeiro é uma vitória, porque se o financeiro demanda, chega no negócio”, observa Spitzeck.

COP da ONU – Tiago Fantini Magalhães, conselheiro de empresas e consultor em Governança, explica que os fatores ESG são novos para parte das empresas de todo o mundo, porém, já vinham sendo discutidos pelos países durante as Conferências das Partes (COP) da Organização das Nações Unidas (ONU). “Na agenda privada das empresas essa discussão nunca foi objeto de debate. Mas, neste ano, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, os ESG foram destacados e isso ganhou discussão mais robusta”, lembra Fantini.

Ele destaca que, nas bolsas de valores, investidores já estabelecem e verificam empresas que enfrentam com mais clareza a sustentabilidade e diversidade. Estas empresas valem mais, têm ações com maiores valorizações. Segundo Fantini, a preocupação com a sustentabilidade é crescente e, por isso, o mercado mundial tende a estabelecer sanções e restrições para empresas que não se adaptarem à nova realidade.

“Alguns fundos de investimentos do mundo estão dizendo que não trabalham com papéis de empresas que não sejam reconhecidas como sustentáveis. Então, temos agendas positivas que pressionam. A lei de mercado irá estabelecer sanções e exclusões, que geram mudanças de comportamento. Essa agenda é importante porque são novas formas de exploração da natureza que nos permitem ter o lucro, mas de forma responsável e gerando retorno para a sociedade”, pondera.

As empresas que adotam as práticas sustentáveis como estratégia de negócios apresentam melhores resultados financeiros, o que já vem sendo observado pelo mercado investidor, que tende a direcionar os aportes nesse sentido. Além da concentração de investimentos, outro fator que tem contribuído para o aumento do interesse em relação ao ESG é a estimativa de que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) representam cerca de US$ 12 trilhões em oportunidades de negócios.

Empresas tendem a adotar visão mais social

A fundadora e diretora da Legacy for Business, embaixadora do Capitalismo Consciente Brasil e líder do chapter do capitalismo Consciente em Minas Gerais, Francine Pena Póvoa, avalia que a tendência é que a visão das empresas mude e que elas busquem trabalhar de forma sustentável, aproveitando as oportunidades de negócios e contribuindo para a geração de resultados positivos para todos.

“São oportunidades que vão gerar negócios rentáveis e impactar positivamente na sociedade e na geração de empregos. Produzir com sustentabilidade é um caminho sem volta, é uma necessidade das empresas cumprirem com o real papel na sociedade, ser sustentável e gerar valor para todos os envolvidos. O momento é favorável para todas as empresas pensarem e tomarem medidas concretas em relação aos ESG”, argumenta.

Além da pressão vinda dos investidores, os consumidores também estão em busca e dispostos a pagarem mais por produtos mais sustentáveis, rastreáveis e de empresas responsáveis, o que também favorece a mudança de comportamento.

A gestora da Comunidade B Minas, Bruna Freire Ribeiro Hirszman, explica que o perfil do consumidor vem sendo reconstruído pelo comportamento de uma nova geração que questiona o que consome e de quem consome e o mercado também seguiu essa tendência.

“Estamos vivendo a transição para uma nova economia, que clama por ser mais justa, inclusiva e regenerativa, clama por líderes mais conscientes da necessidade de colaboração, de integração e até de altruísmo e compaixão. O protagonista dessa mudança é o segundo setor, o setor empresarial. Neste contexto, investidores buscam um sistema mais estável, seguro, resiliente e sustentável, e são, portanto, grandes incentivadores das práticas ESG, assim como os consumidores”, explica Bruna.

Irreversível – O economista, contador e professor do curso de Ciências Contábeis do Ibmec BH, Alexandre Queiroz de Oliveira, adverte que o tema ambiental é irreversível, em função do processo de evolução da sociedade, onde as pessoas não admitem que o meio ambiente não seja respeitado pelo homem e pelas empresas. Além disso, a questão social e a sobrevivência da humanidade são questões prioritárias. Desta forma, a tendência é que as empresas mudem o comportamento.

“Quando se está em uma empresa que gera lucros, parte deve ser vertida para a sociedade, ajudando na preservação, na conduta de investimentos em pesquisas para cura de doenças, por exemplo. Isso será irreversível no futuro das empresas, que terão a responsabilidade incorporada nos estatutos, na forma de trabalhar e na maneira de produzir”, conclui Oliveira.

Agronegócio precisa evoluir, diz Paolinelli

Um dos setores que serão cobrados em relação aos fatores ambiental, social e de governança (ESG) é o agronegócio. De acordo com o ex-ministro da Agricultura, o engenheiro agrônomo Alysson Paolinelli, o Brasil precisa evoluir muito ainda.

“A agricultura deixou de ser extrativa há muito tempo. Ainda tem muito produtor – do pequeno ao grande – usando nossos recursos de forma extrativa e não repõe, e isso tem que ser reduzido. É preciso um grande esforço de governo e de sociedade para aumentar a agricultura tecnificada, que repõem os recursos naturais que usa. Mais que isso, a atividade precisa gerar renda para quem trabalha nela”, aponta o especialista.

Paolinelli defende que deve haver um esforço para ampliar agricultura e a pecuária tecnificada e de mercado, o que será essencial para resolver os problemas econômicos, sociais e ambientais. Para isso, o produtor precisa ser receptivo às inovações, com senso e capacidade de governança. “Todo nosso trabalho tem sido feito na ciência que o Brasil desenvolveu, procurando preservar e melhor as condições ambientais”, ressalta.

Conforme Paolinelli, para atender à demanda mundial crescente por alimento, o Brasil irá ampliar a produção, mas não degradando novas áreas, mas através da ciência, pela tecnologia e pela inovação. “Vamos mostrar ao mundo que a agricultura tropical é a mais sustentável que se tem hoje”, afirma.

De acordo com a coordenadora da Assessoria de Meio Ambiente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), Ana Paula Mello, em relação ao ESG, o mundo das finanças está prestando cada vez mais atenção. A intenção é ter uma nova prática de investimentos, pensando em finanças verdes, consumo consciente, investimentos em sustentabilidade, foco em empresas que tenham estas preocupações e ações voltadas para o meio ambiente, o social e a transparência.

“Isso tem se intensificado e gerado ações e discussões maiores no setor agropecuário. Mas, o que precisamos é de métricas padronizadas e adequadas às propriedades rurais, para conseguirmos mensurar o que nosso setor tem de ativos ambientais e como podemos fazer uma comunicação transparente junto à sociedade. O setor precisa desenvolver essa forma de comunicação, que infelizmente, não fazemos bem”, salienta.

Ana Paula destaca que a Faemg, através do Senar, tem diversos cursos que tangenciam as questões ambientais e sociais, da educação, inserção da pessoa qualificada no mercado de trabalho e garantia de renda, o que está diretamente ligado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), porém, o trabalho de traduzir estas ações para a linguagem internacional e financeira, não é feito.

Segundo Ana Paula, novos investimentos têm sido feitos pela ótica dos ESG. “Hoje se pensa em investir em produtos e empresas que tragam o consumo consciente, que tenham responsabilidade com o meio ambiente, com a sociedade e que sejam transparentes na comunicação”, resume.