US$ 789 milhões atravessam 8 mil quilômetros: Canadá vira o 3º maior comprador de Minas Gerais em 2026
Apesar da distância geográfica de cerca de oito mil quilômetros que separa Minas Gerais do Canadá, o país norte-americano tem ampliado sua importância como destino das exportações mineiras. Dados levantados pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Sede-MG), a pedido do Diário do Comércio, mostram que, nos cinco primeiros meses de 2026, o Canadá avançou da quinta para a terceira posição no ranking dos principais compradores de produtos mineiros, na comparação com o mesmo período de 2025.
Entre janeiro e maio deste ano, as exportações mineiras para o vizinho dos Estados Unidos somaram US$ 789,2 milhões, com volume embarcado de aproximadamente 22,4 mil toneladas. No período, o mercado canadense respondeu por 4,4% do total exportado por Minas Gerais.
“O mercado canadense demanda principalmente o segmento mineral, sobretudo em razão das exportações de ouro, que representaram 78,3% das vendas mineiras ao Canadá em 2025 e 84,7% no acumulado de janeiro a maio de 2026; e o agroindustrial, especialmente pelo café, que respondeu por 15,2% das exportações em 2025 e 11,2% nos cinco primeiros meses de 2026”, informa a Sede-MG. Em menor proporção, também aparecem produtos como açúcares, ferroligas, hidrogênio, gases raros e outros elementos não metálicos, além de fio-máquina de ferro ou aço não ligado.
Ainda segundo a Secretaria, as relações comerciais entre as duas economias apresentam um conjunto relevante de oportunidades, especialmente pela complementaridade entre ambas. “O Canadá é um mercado de alto poder aquisitivo, com demanda por produtos de qualidade, segurança de fornecimento, rastreabilidade, sustentabilidade e regularidade nas entregas, aspectos que dialogam com a pauta exportadora mineira”.
O selo canadense é passaporte para exportar, afirma especialista
Para a assessora técnica da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa-MG), Manoela Teixeira, exportar para o Canadá significa ter um aval, inclusive, para outros mercados, embasada por uma relação consistente, que existe desde 1997, quando houve os primeiros registros de venda do mercado brasileiro para o país, o que inclui Minas Gerais.
No entanto, ao se observar o desempenho mais recente dessa corrente de comércio, as exportações do agronegócio mineiro para o Canadá apresentaram retração. Entre janeiro e maio de 2026, os embarques registraram queda de 12,6% em valor e de 37,2% em volume na comparação com o mesmo período do ano anterior.
De acordo com dados da Seapa-MG, as vendas do setor para o mercado canadense somaram US$ 91,8 milhões nos cinco primeiros meses deste ano, com o envio de aproximadamente 13,4 mil toneladas de produtos. No mesmo intervalo de 2025, as exportações haviam alcançado US$ 105 milhões e 21,4 mil toneladas, respectivamente.
Manoela explica que este cenário é conjuntural e não traduz as relações robustas entre as duas economias. “A nossa pauta exportadora está concentrada no café – praticamente 95% a 96% – e ela vem apresentando queda pois estamos exportando o residual da safra passada”, diz.
Segundo a assessora técnica, a expectativa é que até o fim do ano este cenário se reverta. “Desde 1997, a nossa relação é superavitária com o Canadá. A gente muito mais exporta do que importa”, reforça.

Embora o café siga como o grande destaque das vendas, alguns produtos apresentaram crescimento importante nos primeiros cinco meses deste ano, conforme a Seapa-MG. O mel natural, por exemplo, passou de US$ 456 mil em 2025 para US$ 1,8 milhão em 2026, avanço de 294,7%. Também houve crescimento em itens como frutas secas ou frescas, preparações à base de cereais, óleos vegetais e lácteos, ainda que em bases menores.
“Como o Canadá é vizinho dos Estados Unidos, o mercado consumidor reflete muitos costumes dos americanos, entre eles o aumento do consumo de mel natural. Então é natural que haja essa expectativa de abastecimento interno. Quando aumenta muito uma demanda nos Estados Unidos, o Canadá reflete esse crescimento”, explica Manoela.
Mel mineiro mira espaço nas prateleiras canadenses
Atento ao crescimento das vendas de mel natural para o Canadá, o presidente da Cooperativa dos Apicultores e Agricultores Familiares do Norte de Minas (Coopemapi), Luciano Fernandes, afirma que, embora ainda não tenha fechado negócios com o mercado canadense, pretende levar os produtos dos 190 apicultores e das seis associações vinculadas à cooperativa para lá.
“Hoje, o nosso entreposto é 1,2 mil toneladas. Temos produção ligada aos cooperados. Se a gente tivesse esse mercado aberto, teríamos não só condições de entrar, mas ficar”, destaca.
Fernandes acredita que a chegada dos produtos da Coopemapi ao Canadá deve acontecer em breve e contribuir para um incremento de 30% a 35% no faturamento da cooperativa. “Nós temos um cliente na Alemanha que já tem negócios no Canadá. Então, vai ser natural essa entrada”, diz.
A cooperativa mineira já está no mercado há dez anos, tem produção anual entre 450 e 600 toneladas e, além da Alemanha já exporta para os Estados Unidos, Bélgica e Kuwait.
Missões empresariais e acordo comercial ampliam conexões
Instituições com trabalho sólido no fomento da economia mineira também desenvolvem ações de promoção do Estado junto ao mercado canadense. Em maio, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) levou 137 empresários, membros de entidades e autoridades governamentais para visitarem mais de 20 indústrias do país norte-americano com o objetivo de estreitar o relacionamento cultural e comercial.
“Durante a missão, organizamos diversas atividades, entre elas rodadas de negócios entre empresas mineiras que queriam exportar seus produtos e potenciais compradores em Toronto e Montreal”, afirma a analista de negócios internacionais da Fiemg, Laura Munaier. As expectativas de negócios geradas a partir desta expedição comercial e coletadas por meio de consultas com as empresas participantes, segundo ela, é de mais de US$ 1,2 milhão para os próximos 12 meses.
Ainda conforme Laura, a missão aconteceu em um momento oportuno, principalmente porque em maio avançaram as negociações do acordo de livre comércio entre o Mercosul e o Canadá.

Naquele mês, autoridades do bloco sul-americano estiveram em Toronto para dar continuidade às negociações de integração comercial entre as duas economias, com discussões sobre comércio de bens, serviços, regras de origem, propriedade intelectual, barreiras sanitárias e fitossanitárias, compras governamentais, desenvolvimento sustentável e outros temas. As reuniões levaram cinco capítulos do tratado à fase de encerramento.
“Esse acordo só tende a trazer benefícios para a indústria, principalmente a mineira, porque uma grande pauta das importações canadenses são produtos típicos aqui de Minas”, destaca a analista da Fiemg.
Sebrae-MG aposta no café especial como porta de entrada no Canadá
Assim como a Fiemg, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas em Minas Gerais (Sebrae-MG), também desenvolve uma série de ações com foco na internacionalização de diversos produtos mineiros.
Uma das frentes previstas para este ano será a realização de rodadas internacionais de negócios durante a Semana Internacional do Café, que acontece em Belo Horizonte, em novembro. A instituição está trabalhando para trazer compradores de diversos países, incluindo o Canadá, para conhecer de perto as regiões produtoras, vivenciar a experiência dos cafés de origem e estabelecer relações comerciais diretamente com cooperativas, produtores e empresas mineiras.
“Especialmente na costa oeste [do Canadá], fortemente influenciada pela cultura dos cafés especiais dos Estados Unidos, essa tendência já está consolidada. Embora aproximadamente 80% do café importado pelo país ainda tenha origem na Colômbia e no Vietnã e cerca de 20% venham do Brasil, existe uma oportunidade crescente para cafés brasileiros de origem controlada, principalmente os produzidos em Minas Gerais, Estado responsável por cerca de 50% da produção nacional”, afirma a gerente de Agronegócios e Artesanato do Sebrae-MG, Priscilla Lins.

Um exemplo concreto desse interesse vem, conforme a gerente, de um case recente da Expocaccer, cooperativa da região do Cerrado Mineiro apoiada pelo Sebrae em diversas iniciativas de competitividade e acesso a mercados. “Após participar de uma rodada de negócios no Canadá, a cooperativa exportou, em 2025, cerca de 20 contêineres de café para aquele mercado. Ainda é um volume pequeno diante do potencial de consumo canadense e da capacidade exportadora da cooperativa, mas demonstra que existe espaço para ampliar significativamente a presença dos cafés mineiros por lá”, diz.
Mercado promissor, mas com desafios a superar
Um mercado robusto e altamente exigente como o canadense — uma das maiores economias do mundo — impõe desafios comerciais que precisam ser superados para tornar a relação bilateral ainda mais eficiente e ampliar as oportunidades de negócios.
Para Manoela Teixeira, a questão mais importante para aperfeiçoar as tratativas entre Minas Gerais e Canadá é preparar os produtores para que eles possam negociar com assertividade e manter o atendimento da demanda de longo prazo.
“Além disso, também existe a questão de logística: voos diretos para o Canadá ainda são relativamente caros. Então, o envio de mercadorias é um pouco alto para o nosso empresariado. Já para os mercados de fruticultura, por exemplo, há desafios relacionados à refrigeração de carga por conta da perecibilidade dos alimentos, o que também contribui para aumentar o preço”, explica.
Segundo Laura Munaier, além dos desafios logísticos e comerciais, o mercado canadense ainda impõe barreiras para alguns produtos nos quais Minas Gerais possui forte tradição produtiva.
“O Canadá tem um protecionismo muito grande para importação de produtos derivados lácteos. Então é difícil para Minas exportá-los, pois estão sujeitos a uma taxa de 13% a 30% para os compradores canadenses. Isso acontece porque a indústria leiteira lá é muito forte”, relata.
Excluindo essas exceções, ela reforça que o país tem um mercado aberto, principalmente para produtos com os quais ele não tem expertise produtiva. “Eles são abertos, por exemplo, com tudo que não é conhecido lá ou não tem produção local. O setor de alimentos e bebidas, inclusive, foi o que mais conseguimos trabalhar nas rodadas de negócios durante a última missão”, conta.
Priscilla Lins, por sua vez, destaca que para as micro e pequenas empresas, os desafios vão além da exportação em si. É preciso investir em gestão, inovação, inteligência de mercado e diferenciação. “Exportar exige planejamento, conhecimento do consumidor, adaptação do produto às exigências de cada mercado e capacidade de construir relacionamentos comerciais de longo prazo”, enumera.
Nesse processo, Priscilla conta que o Sebrae Minas atua em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e o sistema que envolve a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), por meio do projeto AgroBR, que prepara produtores rurais e agroindústrias para o mercado internacional. O programa oferece capacitações, consultorias e apoio na adequação de processos, produtos e documentação às exigências de diferentes mercados, reduzindo riscos e aumentando a competitividade dos pequenos negócios.
“É importante destacar que a inserção internacional não acontece da noite para o dia. Para as micro e pequenas empresas, exportar é uma jornada de construção de competitividade. Quanto mais cedo esse processo começa, maiores são as chances de consolidar mercados e transformar a exportação em uma estratégia permanente de crescimento”, pontua a executiva.
Perspectivas de crescimento ganham força em importantes setores da economia
A analista da Fiemg Laura Munaier acredita que, devido ao cenário geopolítico atual, marcado pela escalada de tensões entre Estados Unidos e Irã, as vendas de Minas Gerais para o Canadá vão se intensificar ainda mais neste ano, embora a Fiemg não tenha a projeção de quanto será este aumento. Na comparação com 2025 para 2024, por exemplo, a Sede-MG já havia registrado um acréscimo de 72,2% nas exportações mineiras para o país. Mais detalhes no infográfico abaixo
“Para nós, esse número não é um acaso, principalmente porque esse período de crescimento [das exportações] engloba o tarifaço do Trump. O Canadá foi um dos principais países afetados, então eles estão muito em busca de diversificar a pauta importadora e exportadora”, explica. Antes da medida fiscal implantada pelo presidente americano, em meados do ano passado, Laura afirma que os Estados Unidos representavam mais de 70% das vendas externas do Canadá.
A assessora técnica da Seapa-MG também prevê um cenário positivo para o segundo semestre de 2026 e o início de 2027. O principal fator de crescimento, para ela, está atrelado ao aumento das vendas de café, esperado para os próximos meses.
“Mensalmente, a gente vem fazendo o acompanhamento dos números e percebendo o aumento de alimentos com maior valor agregado embutido, o que também é outra característica da pauta exportadora de Minas para o Canadá”, acrescenta.

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Manoela destaca ainda a intensificação do trabalho de promoção comercial dos produtos brasileiros para o país norte-americano. Segundo ela, as feiras internacionais estão sendo mais acessadas pelos produtores e empresários. “Agora há, também, uma abertura muito grande para frutas e derivados de frutas. Minas vem aumentando a sua capacidade exportadora nesse segmento”, conta.
A Seapa-MG, segundo ela, vem analisando a viabilidade para missões internacionais voltadas ao setor. “Abacate e limão são produtos que na forma in natura já têm uma capacidade de atender ao mercado”, revela.
Ainda conforme Manoela, além de conferirem credibilidade aos fornecedores que se apresentam aos potenciais compradores acompanhados e chancelados por representantes do governo, as missões internacionais trazem mais segurança para os compradores.
“Muitas vezes, os produtores têm que entrar com um investimento um pouco alto no início dos acordos. Mas, a gente acredita que quanto mais estudarmos o mercado e ficarmos de olho nas oportunidades, conseguiremos reduzir entraves e fazer bons negócios”, conclui.
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