O processo de reabertura gradual do comércio em Belo Horizonte ficou restrito às atividades liberadas na última segunda-feira | Crédito: Adão de Souza/PBH

Ao contrário do esperado, o Comitê de Enfrentamento à Pandemia do novo coronavírus (Covid-19) da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) não autorizou o avanço da flexibilização das medidas de distanciamento social na capital mineira.

A suspensão da continuidade do retorno das atividades econômicas levou em conta o aumento das taxas de transmissão do vírus e ocupação dos leitos da cidade. O comércio da Capital já soma cerca de 20 mil empregos perdidos, número que poderá chegar a 150 mil nos próximos meses.

O anúncio da paralisação foi feito pelo prefeito Alexandre Kalil (PSD), que se disse assustado com os números apresentados pelo comitê, que incluem o aumento do número de pacientes vindos de cidades do interior de Minas Gerais para se tratar em Belo Horizonte.

“Temos notícias assustadoras do interior, que não tem culpa. A culpa é de um sistema estadual abandonado e sucateado há anos”, afirmou, garantindo que será divulgado balanço semanalmente, sendo o próximo na sexta-feira (5).

Para o prefeito, o anúncio não chega a ser um desastre, pois os primeiros setores flexibilizados seguem autorizados a funcionar e admitiu que a decisão não foi unânime entre os membros do comitê, precisando de muito debate entre técnicos da equipe liderada pelo secretário municipal de Saúde, Jackson Pinto Machado.

Segundo ele, Belo Horizonte é a única capital que não exporta casos. “Ela vai ser infectada e vai ser demandada de fora para dentro. E a única do País que vai acontecer isso. Se fosse uma ilha, poderíamos flexibilizar à vontade. Mas não somos”, completou.

Estado – Por meio de nota, o governo de Minas informou que trabalha de forma organizada para conter o aumento de casos no Estado, que atualmente tem como epicentro a Capital, cujos moradores respondem por cerca de 19% dos casos confirmados, apesar de representarem 12% da população mineira. Disse ainda que, desde o início da pandemia, conseguiu ampliar em 30% a capacidade de atendimento intensivo na rede pública.

Atualmente, Minas conta com 2.885 leitos de UTI na rede do Sistema Único de Saúde (SUS). Até março, eram 2.013 leitos. A maior parte dos 872 leitos de UTI criados foi destinada ao interior.

“O governo do Estado continua trabalhando no combate ao coronavírus, respeitando a autonomia dos prefeitos e os auxiliando com a retomada econômica responsável e segura, por meio do plano Minas Consciente. Minas são muitas e Belo Horizonte é a capital de todos os mineiros. Todas suas regiões devem seguir unidas, zelando pela vida de cada um”, defendeu-se o Estado.

O secretário municipal de Saúde lembrou que contou para a decisão do comitê, o aumento na taxa de transmissão do novo coronavírus da cidade, que subiu de 1,09, na última sexta-feira, para 1,24, alcançando a classificação vermelha, impedindo a maior flexibilização das atividades. Contou também o avanço na ocupação do número de leitos disponíveis na rede pública hospitalar da Capital.

Segundo o comitê, o uso dos 220 leitos de UTI exclusivos para Covid-19 da cidade está em 55% e os de enfermaria, 43%. E das vagas específicas para pacientes com a doença, 17,2% estão ocupadas por pessoas de outras cidades.

“Entre os critérios estabelecidos por nossos infectologistas está o de frear toda vez que houver um indicador no alerta vermelho. E temos um no vermelho (taxa de transmissão) e um no amarelo (ocupação dos leitos). Se viermos a ter dois no vermelho ou vislumbrarmos a possibilidade de agravamento, poderemos, inclusive, considerar a adoção de lockdown”, alertou.

Questionado sobre o cronograma de reabertura a partir de agora, Machado disse que não há prazo estipulado, apesar de, na última semana, ter estimado a reabertura do comércio em quatro fases que poderiam levar até seis semanas. “Vamos monitorar diariamente. E vamos frear o processo sempre que for preciso”, repetiu.

Funcionamento – Assim, seguem podendo funcionar apenas os serviços considerados essenciais e os setores reabertos na segunda-feira (25), como salões de beleza, shoppings populares e alguns comércios varejistas (papelarias, livrarias, lojas de móveis, utilidades domésticas, entre outros).

Vale dizer que o último boletim epidemiológico da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES) apontou 1.766 casos de coronavírus em Belo Horizonte e 48 óbitos.

O infectologista e membro do comitê Carlos Starling ponderou que não é possível afirmar que a expansão da doença na Capital tenha relação com a reabertura de parte da economia. De acordo com ele, houve pequena aceleração no número de casos, que a equipe não atribui à flexibilização.

“Não deu tempo. Esses casos são, provavelmente, de semanas anteriores. Isso não pressionou o sistema de saúde. Ele está preparado para receber, mas temos de ser responsáveis para não deixar a epidemia pressionar a cidade e continuar evoluindo. Não dá para flexibilizar mais. Vamos continuar observando os dados e, a partir daí, podemos dizer sobre a ocupação de leitos”, justificou.

Comércio lamenta decisão e recorrerá ao Estado

Entidades representantes do comércio da capital mineira lamentaram a decisão da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) de não avançar com a retomada gradual da economia e prometeram pedir auxílio para o governo do Estado quanto à vinda de pacientes portadores do novo coronavírus (Covid-19) para a cidade.

O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH), Marcelo de Souza e Silva, disse que os comerciantes fizeram sua parte nos últimos 70 dias e que precisam, no mínimo, de uma previsibilidade de volta.

Ele argumentou que estava sendo criado um clima de responsabilidade. E defendeu que se setores como vestuário, calçados e acessórios não podem abrir, pelo número de estabelecimentos e pessoas, que retomassem outros como de instrumentos musicais ou de esportes, que trariam menos impacto à circulação na Capital.

“Nossa grande preocupação é com o desemprego que isso vai gerar. Já tivemos cerca de 20 mil empregos perdidos na cidade, número que poderá chegar a 150 mil, 10% da empregabilidade do comércio da capital mineira. Além disso, é mais barato fazer leitos de hospital do que recuperar a economia de uma cidade do porte de Belo Horizonte, em que 80% dos postos de trabalho vêm das atividades de comércio e serviços”, defendeu.

Em relação às quedas nas vendas, Silva disse que estão crescentes: cerca de 5% em março, 30% em abril e maio, com alguns setores chegando a 70% e até 90%. “Temos uma preocupação muito grande, pois é outra pandemia que vamos ter. Este já é um ano perdido para o comércio da capital mineira, e tudo o que for feito agora será no sentido de amenizar os prejuízos”, completou, sem precisar o número de estabelecimentos que já fecharam as portas de vez.

Além disso, por meio de nota, a CDL-BH pediu que a Prefeitura da Capital inicie imediatamente o diálogo com o governo do Estado para o enfrentamento conjunto no combate à propagação do Covid-19 e disse que segue à disposição para colaborar na união de esforços.

Já o presidente do Sindicato de Lojistas de Belo Horizonte (Sindilojas-BH), Nadim Donato, lembrou que os lojistas estão há 70 dias com as lojas fechadas e não é justo que o avanço do número de infectados no interior resulte no comprometimento do combate à pandemia na cidade.

“Se isso está de fato acontecendo, o Estado precisa ajudar e o Sindilojas vai cobrar essa atitude. Além disso, no decorrer desta semana, vamos trabalhar junto ao comitê para que possam entender a necessidade da reabertura das lojas”, frisou.