Economia

Atraso na migração automática do crédito eleva inadimplência do consignado privado

Problema operacional no sistema que transfere pagamentos em folha eleva taxas de atraso para trabalhadores da iniciativa privada
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00
Atraso na migração automática do crédito eleva inadimplência do consignado privado
Foto: Reprodução Adobe Stock

Uma falha na implementação do sistema que transfere automaticamente os descontos em folha de pagamento quando o trabalhador troca de emprego é a principal causa da alta da inadimplência nos empréstimos consignados para trabalhadores da iniciativa privada, segundo integrantes do governo ouvidos pela reportagem.

A elevação da inadimplência para essa modalidade de crédito, lançada no ano passado pelo governo Lula, chamou a atenção por se tratar de uma linha de crédito garantida por desconto em folha. Na semana passada, o Banco Central informou que a taxa de inadimplência da modalidade alcançou 7,9% em maio, alta de 0,4 ponto percentual em relação ao mês anterior.

A avaliação do governo é que mais da metade da inadimplência observada atualmente decorre desse problema operacional, e não de uma piora na capacidade de pagamento dos trabalhadores. A expectativa é que, com a implementação da migração automática entre vínculos empregatícios, os índices de atraso recuem gradualmente.

Quandocriou o programa, o governo apresentou como uma de suas principais inovações a possibilidade de manter automaticamente o desconto das parcelas mesmo quando o trabalhador mudasse de emprego.

A ferramenta busca eliminar uma fragilidade histórica do consignado privado: a interrupção do desconto em folha após a rescisão do contrato de trabalho. Isso exigia uma nova averbação quando o empregado era contratado por outro empregador. O órgão do governo responsável pela funcionalidade disse à reportagem que ela só deve entrar em operação em agosto.

Integrantes da equipe econômica afirmam, porém, que essa funcionalidade ainda não está plenamente operacional. Hoje, quando o trabalhador troca de emprego, o desconto das parcelas é interrompido até que o novo vínculo seja processado. Isso gera atrasos nos pagamentos e pode colocar o trabalhador, involuntariamente, em cadastros negativos de crédito, a depender dos critérios da instituição financeira.

O governo corre agora para fazer os ajustes no sistema para corrigir a falha no programa, que é apontado como vitrine do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) neste ano de eleições.

Em nota, o Ministério do Trabalho atribuiu o aumento da inadimplência ao “ambiente de custos de captação de recursos enfrentado pelas instituições consignatárias no mercado financeiro para alavancar a oferta de crédito no âmbito do programa”.

A Dataprev, empresa estatal responsável por gerir a base de dados sociais do país e processar benefícios como aposentadorias e seguro-desemprego, informou à reportagem que a funcionalidade que fará a migração automática dos contratos quando o trabalhador trocar de emprego está prevista para entrar em operação apenas em agosto.

Até lá, segundo a estatal, as instituições financeiras são informadas sobre o encerramento e o início de novos vínculos empregatícios para que façam uma nova averbação do contrato. A empresa afirma que não há falha neste sistema atualmente em operação.

Criado em março de 2025, o Crédito do Trabalhador reformulou o consignado para empregados da iniciativa privada. O programa permite a contratação do empréstimo diretamente pela Carteira de Trabalho Digital, dispensando convênios entre empresas empregadoras e bancos. A iniciativa também permitiu que trabalhadores contratados por pessoas físicas, como domésticos, passassem a ter acesso ao crédito consignado.

Nos bastidores, integrantes da equipe econômica afirmam que os dados de inadimplência geraram preocupação devido à imagem do Crédito do Trabalhador. O programa é uma das principais apostas do governo para ampliar o acesso ao crédito e reduzir as taxas de juros para trabalhadores da iniciativa privada, tema considerado sensível principalmente em um ano eleitoral.

Uma alta nas taxas de inadimplência poderia colocar em xeque a eficácia do novo consignado privado, que foi desenhado para reduzir os juros cobrados aos trabalhadores com carteira assinada.

Auxiliares do presidente Lula também buscam afastar a interpretação de que a alta da inadimplência representa uma deterioração da qualidade do crédito com a expansão do alcance do programa.

Representantes do setor bancário, ouvidos na condição de anonimato, afirmam que uma parcela da inadimplência é inerente ao próprio funcionamento do consignado privado. Isso ocorre, por exemplo, quando o trabalhador perde o emprego e deixa de ter o desconto em folha, fazendo com que as parcelas permaneçam em aberto até que ele seja reempregado ou renegocie a dívida.

Na avaliação de executivos do setor, porém, a alta recente da inadimplência também reflete problemas operacionais na implementação do Crédito do Trabalhador. Entre eles, está justamente a ausência da migração automática dos descontos quando o trabalhador troca de empregador. Nestes casos, o atraso não decorre necessariamente da incapacidade de pagamento. Ele resulta da interrupção temporária do desconto em folha enquanto o novo vínculo empregatício não é processado pelo sistema.

Outro ponto citado por integrantes do governo é que uma das principais medidas de reforço do programa só passou a valer recentemente. Em 26 de junho, entrou em operação a primeira fase da funcionalidade que permite usar o saldo do FGTS como garantia. A medida vale para operações de crédito consignado. A expectativa é que a medida contribua para ampliar o acesso ao crédito e reduzir as taxas de juros nos próximos meses.

Segundo os dados do BC, as novas concessões do consignado privado caíram para R$ 7,6 bilhões em maio, ante R$ 9,9 bilhões em abril. Segundo o BC, a redução é considerada natural após o recorde de R$ 10,8 bilhões registrado em março, o maior patamar da série histórica, iniciada em 2011. Mesmo com a queda nas concessões, o saldo da carteira de consignado privado avançou 4,8% em maio.

O Ministério do Trabalho afirma que a queda na Selic, atualmente em 14,25% ao ano, “não produziu efeitos significativos sobre o custo de captação das instituições financeiras, tampouco se refletiu em redução relevante das taxas de juros ao tomador final ou em condições mais vantajosas para a renegociação das operações de crédito”.

A pasta ainda escreveu que “a ausência dessa funcionalidade automática não impede a manutenção do contrato de crédito quando o trabalhador é admitido em um novo vínculo empregatício”.

Conteúdo distribuído por Folhapress

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas