Economia

Indústria mineira tem terceiro avanço consecutivo no faturamento, mas recuperação ainda é gradual

Faturamento cresceu 1,5% em abril, impulsionado pela indústria extrativa, mas juros elevados e cenário internacional contêm expectativas
Indústria mineira tem terceiro avanço consecutivo no faturamento, mas recuperação ainda é gradual
Foto: Reprodução Adobe Stock / Photocreo Bednarek

O faturamento da indústria de Minas Gerais registrou alta de 1,5% em abril na comparação com março, marcando o terceiro avanço consecutivo do indicador no ano. Os dados são da Pesquisa Indicadores Industriais e foram divulgados nesta segunda-feira (8) pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg).

Apesar da sequência positiva, o desempenho do setor ainda é considerado moderado no acumulado do ano. Entre janeiro e abril, o crescimento do faturamento foi de apenas 0,2%, sinalizando um cenário de recuperação gradual após a desaceleração observada ao longo de 2025.

Segundo o analista de pesquisas econômicas da entidade, Arthur Augusto Dias de Oliveira, os dados mostram um “respiro” positivo para a indústria mineira. “Quando se observa apenas o acumulado do ano, o crescimento é muito pequeno, próximo da estabilidade. No entanto, ao analisar a trajetória mensal, nota-se uma melhora no faturamento ao longo dos primeiros meses deste ano”, explica.

O resultado recente foi impulsionado tanto pelo segmento extrativo (11,4%) quanto pela indústria de transformação (0,5%). Ainda assim, o principal destaque segue sendo a indústria extrativa mineral, que apresenta crescimento mais robusto e menos sensibilidade aos ciclos econômicos. No acumulado do ano, o segmento registra alta de 17,7%, enquanto a indústria de transformação acumula queda de 1,4%.

De acordo com Oliveira, esse comportamento está diretamente ligado ao cenário macroeconômico. “A taxa de juros elevada afeta mais a indústria de transformação, que depende da demanda interna e do crédito. Já a indústria extrativa está mais ligada à demanda externa, o que sustenta seu desempenho mesmo em um ambiente doméstico menos favorável”, afirma.

Apesar do avanço do faturamento, outros indicadores da atividade industrial apresentaram comportamentos variados no mês. As horas trabalhadas na produção cresceram 0,3%, registrando o terceiro resultado positivo consecutivo. Em contrapartida, a utilização da capacidade instalada recuou de 82,1% em março para 80% em abril.

No mercado de trabalho, o emprego industrial permaneceu estável, sem variação (0%). Já a massa salarial real caiu 0,6% no mês, enquanto o rendimento médio real recuou 0,2%.

Para o analista da Fiemg, o quadro reflete um momento de respiro da indústria, mas não exatamente um “boom” de crescimento. “Faturamento e horas trabalhadas indicam crescimento, mas a queda na utilização da capacidade instalada e a estabilidade do emprego mostram que esse avanço ainda não é disseminado para todos os indicadores”, avalia.

Mercado de trabalho e renda

Apesar da desaceleração observada no resultado mensal, os indicadores de renda permanecem positivos no acumulado do ano. A massa salarial real cresce 5,3%, enquanto o rendimento médio real avança 3,9%.

A desaceleração observada nos rendimentos é um movimento que, segundo o especialista, está alinhado à tendência nacional e ao ambiente econômico mais restritivo, marcado por juros elevados, crédito mais caro e aumento das incertezas.

“A massa salarial representa toda a remuneração paga aos trabalhadores e, quando cresce, ajuda a manter o nível de consumo. Isso acaba dando sustentação à indústria, mesmo em um cenário de crescimento moderado”, explica Oliveira.

Expectativas

As perspectivas para os próximos meses indicam continuidade do crescimento, mas em ritmo contido. O cenário internacional, especialmente o conflito no Oriente Médio, surge como um fator de risco relevante.

A escalada das tensões na região tem pressionado os preços do petróleo, o que impacta diretamente os custos de produção. O aumento dos combustíveis eleva o custo do frete e pode gerar efeitos em cadeia sobre a inflação.

“Esse movimento pode limitar o espaço para redução dos juros no Brasil. Com a inflação mais pressionada, o Banco Central tende a manter uma postura cautelosa, o que prolonga as condições financeiras restritivas”, afirma o analista.

Além disso, Oliveira pontua que o encarecimento de insumos como fertilizantes também pode afetar a cadeia produtiva, especialmente os setores ligados à agroindústria. “Isso acaba impactando a agricultura, que, por sua vez, afeta a indústria de alimentos”, diz.

Dessa forma, a continuidade do conflito no Oriente Médio acaba mantendo os juros elevados por mais tempo, o que é negativo para a economia. “Com a inflação mais alta, fica difícil para o Banco Central continuar cortando juros. O espaço para o corte fica menor. Ele pode até reduzir a taxa, mas talvez em intensidade menor do que ocorreria na ausência desse conflito no Oriente Médio”, avalia.

Oliveira ressalta que a manutenção dos juros elevados por mais tempo é negativa para a economia. “Ela desestimula o consumo, os investimentos e torna o ambiente econômico mais desafiador”, finaliza.

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