Linha de crédito para veículos pesados é falha, mas aponta demanda reprimida, dizem especialistas
Representantes do setor de transporte ouvidos pelo Diário do Comércio reagem de forma distinta com relação à nova linha de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) voltada à renovação da frota de veículos pesados. Enquanto o desempenho do programa evidencia sinais de uma demanda reprimida e aumento na procura, especialistas apontam entraves que podem limitar o alcance da medida.
Para o presidente da Federação das Empresas de Transporte de Cargas e Logística de Minas Gerais (Fetcemg), Gladstone Lobato, o programa tende a beneficiar apenas uma parcela do setor. Segundo ele, empresas com frota relativamente mais nova conseguem se adaptar melhor à lógica da renovação, ao vender veículos ainda com valor de mercado e adquirir modelos mais modernos. No entanto, essa realidade está distante dos transportadores autônomos e pequenas transportadoras.
“Hoje, o autônomo trabalha com uma frota muito envelhecida, com idade média próxima de 20 anos, e veículos que praticamente não têm valor de revenda. Ele não tem condição de esperar meses para vender o caminhão e ainda assumir um financiamento”, afirma.
Lobato também critica as condições financeiras da linha de crédito, especialmente as taxas de juros. “São taxas inviáveis. Para o autônomo vai dar mais de 12% ao ano, mais o spread do banco. Nenhuma operação de transporte consegue garantir rentabilidade suficiente para cobrir juros na faixa de dois dígitos ao ano”, argumenta.
Outro ponto levantado pelo representante da Fetcemg é a ausência de políticas complementares, como a retirada obrigatória de veículos antigos de circulação. Para ele, sem essa medida, o programa pode apenas ampliar a frota, sem necessariamente modernizá-la. “O governo deveria focar na desativação dos veículos mais antigos. Sem isso, a tendência é só aumentar o número de caminhões nas estradas, que já são precárias, especialmente em Minas Gerais”, critica.
Lobato também destaca a falta de confiança no ambiente econômico como um fator que inibe investimentos de longo prazo. “É um financiamento de até sete anos. Muitos empresários e autônomos não têm segurança para assumir esse compromisso diante das incertezas do país”, completa.
Por outro lado, o diretor regional da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) e vice-presidente do Sindicato dos Concessionários e Distribuidores de Veículos (Sincodiv-MG), Camilo Lucian, observa que o interesse inicial pelo programa revela uma demanda reprimida no setor.
De acordo com ele, o rápido comprometimento de parte significativa dos recursos disponibilizados indica que os transportadores estavam aguardando melhores condições de financiamento. “As concessionárias já perceberam aumento nas consultas e nas negociações. Ainda é cedo para medir o impacto direto nas vendas, porque há um intervalo entre a aprovação do crédito e a entrega dos veículos, mas o movimento, a procura existe”, explica.
Questionado sobre a retração de 26% nos emplacamentos de veículos pesados, Lucian pontua que, em Minas Gerais, as vendas de caminhões e ônibus caíram de forma significativa, influenciadas pelo alto custo dos veículos, juros elevados e maior cautela das empresas. Nesse contexto, a retomada de programas de incentivo, como o Move Brasil, do qual a linha do BNDES faz parte, pode contribuir para uma recuperação gradual da demanda.
Na concessionária Iveco Deva, o gerente de vendas, Carlos Figueiredo, avalia que o impacto da liberação da linha de crédito foi pequeno nas vendas. Segundo ele, houve uma leve melhora na procura por caminhões, mas aquém das expectativas. “Deu uma melhora, sim, mas muito pequena ainda. Está bem menor do que nós da área comercial esperávamos”, afirma.
De acordo com Figueiredo, o entrave maior não está necessariamente nas condições da nova linha, mas no acesso efetivo ao crédito. Ele explica que, apesar de o BNDES disponibilizar recursos com taxas mais atrativas, a análise de risco continua sendo feita pelos bancos repassadores e é nesse ponto que o processo tem travado. “O BNDES é um repassador. Quem aprova ou não o crédito são os bancos, e hoje essa aprovação está muito difícil”, destaca.
Para o gerente, o empecilho reflete o ambiente financeiro. “A dificuldade está muito mais ligada ao crédito em si. A inadimplência está alta, e isso acaba segurando mais as liberações”, explica.
Sobre a linha de crédito
A linha de crédito do BNDES Mais Mobilidade dispõe de até R$ 21 bilhões para financiar a aquisição de caminhões, ônibus e implementos rodoviários, com foco na renovação e modernização da frota nacional. Em cinco dias após sua abertura, o programa já havia alcançado mais de 31,2% do orçamento previsto, evidenciando a forte procura.
Aberta no último dia 29 de maio, a linha contabiliza 4,9 mil operações em todo o País, atendendo transportadores autônomos de cargas, pessoas físicas associadas a cooperativas, empresários individuais e pessoas jurídicas do setor de transporte rodoviário ou urbano de cargas e passageiros, com prazos que podem chegar a até dez anos, incluindo períodos de carência.
As taxas de juros giram em torno de 13% ao ano, variando conforme o perfil do tomador. O programa também exige critérios ambientais e de fabricação nacional para os veículos.
O prazo para protocolo das operações no sistema do BNDES vai até 28 de agosto de 2026. O programa poderá ser suspenso ou encerrado antes dessas datas em caso de esgotamento da dotação orçamentária disponível.
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