José Mendo foi fundador do Instituto Brasileiro de Mineração - Crédito: Fábio Ortolan/ Divulgação

Humanista, educador, conciliador, profundo conhecedor da atividade minerária e defensor de uma relação de transparência entre governos, mineração e sociedade. Assim, amigos, líderes empresariais e familiares definem o engenheiro de minas e metalurgista José Mendo Mizael de Souza, falecido aos 80 anos no último dia 23 de setembro, em Belo Horizonte, sua cidade natal.

Em quase seis décadas de atividade profissional, José Mendo, formado pela Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (EEUFMG), em 1961, participou de praticamente todos os eventos e ações que moldaram a atual indústria mineral brasileira, sobretudo na conscientização e na evolução da atividade rumo ao desenvolvimento sustentável.

“A mineração era o motivo principal da missão profissional dele, que sempre trabalhava com muito amor e dedicação. Desde o início de suas atividades, há mais de 50 anos, ele defendia a sustentabilidade da atividade. Trabalhava por uma mineração organizada e fazia questão de dizer que a atividade era de interesse público e social para o desenvolvimento do País”, relata seu filho, o advogado da área ambiental e de mineração, Marcelo Mendo Gomes de Souza.

Sua trajetória foi marcada por forte atuação institucional, começando pela criação do grêmio Luiz Enrich, da Escola de Engenharia da UFMG, passando pela fundação do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) em 1976 e pela Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas), entre 2008 e 2018. “Em todas as entidades pelas quais passou ele era motivador, agregador, atemporal, sempre buscando a conciliação”, explica Marcelo Mendo, ressaltando que seu trabalho tinha como premissa uma mineração de alto comprometimento e responsabilidade social.

BDMG e Ibram – Em seu extenso currículo estão funções de grande relevância para Minas e para o Brasil, como a de diretor do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), em 1976, respondendo pelas áreas de Mineração, Metalurgia e Indústria. Foi nessa ocasião, explica Marcelo, que José Mendo reuniu os principais stakeholders do setor para constituir o Ibram, onde atuou como diretor, secretário executivo e vice-presidente executivo até 2006.

Por uma questão regimental, José Mendo nunca assumiu o cargo de presidente do Ibram, embora tenha sido fundador e exercido esse papel. A importância do engenheiro de minas e metalurgista para o instituto e para a mineração brasileira é ressaltada pelo atual presidente da entidade, Flávio Penido.

“Jose Mendo sempre defendeu o valor da sustentabilidade em uma época em que nem havia exigência de uma licença ambiental como ocorre hoje. A mineração brasileira deve demais à ele e muito brevemente vamos prestar uma homenagem e incluir sua fotografia como presidente do Ibram, pois ele foi fundador da entidade e embora não tivesse o cargo de presidente por uma questão de regimento, ele cumpriu por muitos anos essa função”, reconhece Penido.

“Era uma pessoa de grande dinamismo, com uma visão muito otimista, que prestigiava demais a nossa profissão”, agradece Penido, também formado pela Escola de Engenharia da UFMG.

Trabalho era pautado na transparência

Segundo o advogado Marcelo Mendo, em sua trajetória no Ibram, José Mendo sempre trabalhou para congregar os diversos segmentos que compõem a cadeia minerária, defendendo a necessidade de informar à sociedade que os ônus temporários dos impactos da atividade se justificavam pela necessidade da sociedade pelos produtos minerários.

“Era um comunicador nato e formou a base do pensamento que temos hoje, de responsabilidade socioambiental, ainda mais nesse momento em que a reputação da atividade não é das melhores”. Segundo Marcelo, José Mendo sempre se preocupou em promover a interlocução com os diversos agentes da sociedade, e fazia isso com muita propriedade, porque tinha um espírito democrático e conciliador.

Em 2006, José Mendo se aposenta e deixa o Ibram para se dedicar aos estudos e reformulação da legislação brasileira pertinente à área de mineração, tendo como suporte os princípios fundamentais da Constituição brasileira de erradicação da pobreza e da promoção do desenvolvimento.

Além de permanente atuação institucional, nos últimos anos José Mendo também se dedicava à sua empresa, a J. Mendo Consultoria, criada em 2006, para atendimento das demandas do setor mineral brasileiro, sobretudo em planos estratégicos e consultoria para as diversas fases de um empreendimento mineral.

ACMinas – Em 2008, Jose Mendo aceitou o desafio de presidir o Conselho Empresarial de Mineração e Siderurgia da Associação Comercial de Minas, permanecendo no cargo até 2018.

O presidente da entidade, Aguinaldo Diniz Filho, expressou os votos de pesar pela partida do saudoso ex-vice-presidente.

“Agradecemos por todos os anos de dedicação e seu excelentíssimo trabalho em nossa entidade. Rogando a Deus para que o acolha e dê o necessário conforto aos corações daqueles que tiveram o privilégio de conviver com um cidadão honrado e empresário exemplar”.

Desenvolvimento sustentável era uma das metas

Para o consultor em comunicação empresarial, Lindolfo Paoliello, que presidiu a Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas), no período de 2015 a 2018, José Mendo era “um lutador pela mineração do bem”.

De acordo com Paoliello, que o conheceu quando ele ainda atuava como diretor da área de mineração do BDMG, nos anos 70, “José Mendo representava o diálogo e respeito pela sociedade e o diálogo e respeito pelo mercado na busca de melhores produtos e novas tecnologias, que proporcionam uma mineração sustentável”.

Paoliello conta que o primeiro contato com Jose Mendo, como diretor do BDMG, evoluiu, anos depois, para uma amizade pessoal e para uma grande parceria na Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas), iniciada em 2008.

Naquele ano, na qualidade de vice-presidente da entidade, Paoliello promoveu um evento, que tinha como eixo a discussão de uma nova agenda, com a integração da mineração, governo e sociedade. Neste evento, que contou com a participação de presidentes de empresas brasileiras, foi criado o Conselho Empresarial de Mineração e Siderurgia. José

Mendo tornou-se presidente deste conselho até 2018, com a proposta de realizar essa agenda de transparência entre mineração, governo e sociedade.

“José Mendo foi uma rara coligação de ser humano, profissional e cidadão. Um profissional e cidadão ligado ao associativismo, dedicado ao que hoje é desejo nacional, de que a mineração se volte para o diálogo com a sociedade, com o governo, diálogo respeitoso e transparente”, ressaltou Paoliello.

Uma das preocupações de José Mendo, explica Paoliello, era com o desenvolvimento de tecnologia aplicada, “um ponto estratégico de mineração, integrada com a comunidade e respeito ao meio ambiente, de modo que a mineração possa ser respeitada e querida”.

Na qualidade de consultor empresarial, ele chama atenção para esse empenho de Mendo em desenvolver uma atividade industrial focada no desenvolvimento sustentável.

“Para existir, uma empresa precisa obedecer uma concessão da sociedade. Tem que ser desejada, querida, ou pelo menos tolerada pela sociedade”, reforça.

Além de sua atuação como líder empresarial, Paoliello chama atenção para outra faceta de José Mendo, preocupado com as questões familiares.

“Ele fazia palestras em escolas sobre educação familiar… era um humanista, com grande capacitação técnica, uma pessoa agregadora”. (AR)

Mendo se destacou tanto no setor privado quanto no público

No setor público, José Mendo destacou-se também como conselheiro do então presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social- CDES) no período de 2003 a 2007.

Na iniciativa privada, trabalhou como diretor da Indústria de Calcinação Ltda (Ical); foi superintendente de Desenvolvimento da S.A Mineração da Trindade (Samitri), com foco no então Projeto Samarco, empresa à época pertencente ao Grupo Belgo-Mineira.

No campo institucional, foi membro do Conselho Temático de Meio Ambiente da CNI; conselheiro suplente do Conama; Conselheiro do Copam-MG, vice-presidente do Organismo Latinoamericano de Mineração (Olami), além de diretor da Sociedade Interamericana de Mineração (Sim); e representante da Mineração brasileira no Internacional Council on Mining and Metals (ICMM).

Também atuou como presidente do Conselho Diretor e da Diretoria da Associação Brasileira para o Progresso da Mineração (Apromim), e presidente do Centro de Estudos Avançados da Mineração (Ceamin), entidade criada por ele para reunir especialistas de diversos campos do conhecimento ligados à atividade.

Reconhecimento – Ao longo de sua trajetória, por diversas vezes foi reconhecido pelo seu trabalho l, sendo considerado a personalidade do setor, pela Revista Brasil Mineral. Também foi eleito como um dos “100 Engenheiros do Século” pela Associação dos Ex-Alunos da Escola de Engenharia da UFMG, juntamente com a Sociedade Mineira dos Engenheiros entre todos aqueles que formaram na Escola de Engenharia nos primeiros 100 anos (1911 a 2011) de existência da referida escola.

Homenagens – Nesses últimos dias, após o falecimento de José Mendo, seus familiares receberam mensagens e homenagens de diversas entidades e grupos empresariais de todo o País, além de publicações especializadas e instituições acadêmicas.
“A vida de José Mendo daria um grande livro”, resume o presidente do Ibram, Flávio Penido.