Crédito: Ronaldo Guimarães / Sebrae Minas

Os microempreendedores individuais e as micro e pequenas empresas (MPEs) têm papel relevante na economia de Minas Gerais. Com a pandemia do Covid-19 os negócios foram afetados e muito empresários estão se reinventando para manterem os negócios ativos no mercado.

Além do maior uso das mídias sociais e das vendas on-line, várias adaptações estão sendo feitas nos negócios e têm sido essenciais para superar o momento de crise.

No Estado, o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais (Sebrae Minas), desde o início da pandemia, tem buscado promover diversas ações e consultorias com o intuito de ajudar os empreendedores individuais e as MPEs e impedir um colapso do setor em meio à crise da saúde.

Em entrevista ao DIÁRIO DO COMÉRCIO, o superintendente do Sebrae Minas, Afonso Maria Rocha, explicou que a crise provocada pela pandemia do Covid-19 já causou o fechamento de diversas empresas e o momento é de buscar adaptações para sobreviver.

Momento é de as MPEs se adaptarem para sobreviver

Com o atual cenário da economia mineira e brasileira resultante das medidas de isolamento social, é possível os micro e pequenos empresários enxergarem um futuro?
Estamos vivendo um momento de revolução na questão do uso da internet para a realização dos negócios. O futuro das empresas passa por essa reestruturação.

Elas precisam se adaptar mais para conviver com o virtual e o remoto. Daqui para frente, quanto menos os negócios precisarem contar com recursos presenciais, mais seguros, financeiramente, serão.

As empresas que entraram na pandemia mais bem estruturadas para o e-commerce, com estrutura já desenvolvida e prática de transações pela internet estão sofrendo menos. As lojas físicas não irão acabar, mas haverá uma mudança no comportamento.

As empresas que não tinham este preparo estão em um movimento de adaptação em velocidade gigantesca. Isso é importante para a sobrevivência das mesmas.

Como as empresas podem sair melhor dessa crise?
No primeiro momento, é preciso fazer um planejamento, reduzir todos os custos possíveis e imagináveis, renegociar contratos e buscar não demitir os funcionários, porque se demitir agora, quando a crise for superada, terá que contratar, tendo mais custos: o de demissão e de contratação.

Muitas empresas que estão fechadas, devido a decretos, começaram a se adaptar ao novo cenário, criando perfis nas redes sociais, trabalhando o delivery e estruturando banco de dados para trabalhar relacionamento. Digo que o relacionamento com os clientes é um ponto mais importante que vender somente.

Se a empresa foca somente na venda, ela estressa o cliente. O relacionamento é uma atitude mais amigável com o cliente, onde o vendedor entra em contato, conversa, apresenta produtos conforme o perfil e a venda vem por conquista. Muitas empresas estão se reinventando.

Como está a situação das micro e pequenas empresas em Minas Gerais?
As empresas estão passando por um momento de crise e em processo de adaptação, mas muitas fecharam. Hoje temos 44,1% das empresas com interrupção temporária dos negócios, outras 43,9% mudaram a forma de trabalhar, 9% não mudaram e 2,1% fecharam em definitivo.

Vale ressaltar que esse índice de 2,1% não é muito confiável porque temos muitas empresas ainda paradas e que podem não retomar as atividades.

Qual a maior dificuldade enfrentada pelas empresas no momento?
No atual momento, o que a empresa mais precisa é de capital de giro para pagar os custos com salários, energia, aluguel, fornecedores e o acesso ao crédito está muito difícil. O capital de giro para o empresário é o respirador para o doente de Covid-19. Se não tiver, vai fechar a empresa.

Não está faltando dinheiro na praça, são muitas as linhas de crédito, mas os bancos estão muito restritivos, devido ao risco maior de inadimplência. Uma pesquisa feita pelo Sebrae mostrou que das empresas que buscaram pelo crédito em torno de 58% tiveram o pedido negado.

É importante que o empresário, ao buscar o crédito, tenha um planejamento bem desenvolvido, avaliando o montante necessário, se realmente vai ajudar, os juros, prazo de carência e formas de pagamento para não agravar ainda mais a situação.

A falta de conhecimento para a adoção do e-commerce, que ganhou força com o fechamento de parte dos estabelecimentos e o receio da população com o contágio pelo Covid-19, é um empecilho para o segmento? Como as MPEs têm lidado, de modo geral, com a tecnologia?
As empresas que não tinham uma estrutura de e-commerce estão sofrendo mais, porém, os empresários estão buscando ajuda e meios de atuarem no e-commerce. Minha recomendação é que peçam ajuda mesmo. Não somente para as instituições como o Sebrae Minas, mas também dos amigos que podem divulgar para outros e contribuir para alavancar as vendas.

Estamos vendo muitos empresários vendendo pelas redes sociais, aplicativos, investindo em banco de dados de clientes, cadastrando onde moram e hábitos de consumo. Faz parte do relacionamento e é fundamental para vender.

Os cursos on-line, entre outros conteúdos disponibilizados pelo Sebrae, têm apresentado uma boa resposta?
Fizemos um trabalho muito grande e nos adaptamos em tempo recorde para atender de forma remota. Oferecemos consultorias por telefone, atendimento pelo WhatsApp, internet e por agendamento. Estamos com um número muito grande de palestras e lives sempre focadas em temas, conforme observamos as dores dos nossos clientes.

São abordagens da área financeira, ligadas aos recursos digitais, criação de perfil nas redes sociais, formas de alavancar vendas e dicas e orientações para criar uma loja virtual. Tudo isso tem gerados bons resultados. De janeiro a maio, atendemos em torno de 300 mil empresas, ante as 90 mil atendidas em igual período do ano anterior.

Estamos registrando retornos positivos dos empresários já atendidos. Ainda temos no site, um link com cursos do Ensino a Distância (EAD) com mais de 100 opções e a demanda está muito grande.

O engajamento da população a campanhas de incentivo às compras de pequenos negócios locais é uma realidade?
Não temos dados, mas é uma campanha extremamente simpática e elogiada pelos comerciantes de bairro. É uma maneira de ajudar esse segmento de micro e pequenas empresas, que geram muitos empregos. Os pequenos empreendimentos são mais sensíveis às crises, têm mais dificuldade, por isso, é importante trabalhar esse conceito de valorizar e comprar do empresário local pequeno.

Esse é um legado que a pandemia deixará, não só no aspecto da mudança do modelo de negócios, do uso de tecnologias e da transformação digital. Estamos vendo transformação social. O legado da pandemia é que a sociedade seja mais solidária.

O desempenho das MPEs no agronegócio tem sido diferente dos outros segmentos na pandemia ou as dificuldades são as mesmas?
Os microempreendedores individuais e as micro e pequenas empresas do agronegócio também estão registrando perdas com a crise provocada pela pandemia. Nossa pesquisa mostrou que 43% das empresas do setor registraram queda no faturamento.

É importante lembrar que a cadeia sofre com os restaurantes, bares, hotéis e escolas fechados. O impacto também é sentido com as restrições de funcionamento das feiras livres, onde grande parte dos empresários atua. Por outro lado, os negócios com supermercados estão em alta, assim como as exportações. Mas, temos setores mais impactados que o agronegócio, como as academias, que registraram queda de 72% no faturamento, economia Criativa (77%) e turismo (75%), por exemplo.