Rio de Janeiro/Houston – A mineradora brasileira Vale demonstrou preocupações sobre suas barragens de rejeitos em 2009, mas não implementou várias medidas avaliadas que poderiam ter evitado ou diminuído os danos do desastre fatal da semana passada, de acordo com uma apresentação corporativa vista pela Reuters.

Uma barragem usada pela companhia para armazenar os restos lamacentos do processo de beneficiamento da mina de ferro Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), entrou em colapso na sexta-feira (25), matando pelo menos 84 pessoas até o momento e deixando centenas de desaparecidos, em um dos maiores acidentes industriais do Brasil.

A estrutura continha cerca de 12 milhões de metros cúbicos e gerou uma avalanche de lama, que atingiu refeitório e área administrativa da Vale, assim como comunidades e rios da região.

O desastre de Brumadinho ocorreu pouco mais de três anos depois de uma tragédia similar em outra mina envolvendo a Vale, sócia da BHP Billiton na Samarco, causando uma perda de mais de R$ 70 bilhões em valor de mercado da empresa apenas na segunda-feira.

Mas uma década atrás, a maior produtora global de minério de ferro estava considerando maneiras de usar menos barragens de rejeitos, incluindo usos alternativos para essa lama, de acordo com uma apresentação de 73 páginas. O documento apontou para o aumento do volume de rejeitos produzidos nas minas da empresa.

Alternativas – O relatório sugeriu que a Vale fizesse materiais de construção a partir de rejeitos, incluindo tijolos, um passo que daria à empresa uma outra fonte de receita e diminuiria o volume que precisa ser armazenado usando barragens.

O relatório de 2009 da Vale recomendou que a companhia realizasse um projeto chamado “Barragens Zero”, que envolveria a filtragem de rejeitos, recuperação adicional de minério de ferro nos rejeitos, entre outras medidas.

Não se sabe se o relatório atingiu os níveis mais altos da administração da Vale nem por que não foi implementado.

Carolina de Moura, uma participante do Movimento dos Atingidos pela Vale, moradora de Brumadinho e acionista da Vale, disse à Reuters que cobrou, em abril do ano passado, em uma assembleia de acionistas da empresa, da diretoria da Vale, onde estava o projeto, ressaltando que Feijão estava inserido dele.

“Só que ela não tratou (dos rejeitos), porque o preço do minério de ferro caiu, a empresa implementou uma política de redução de custos, deve ter socado as barragens de rejeitos mais ainda e aí o que deu? O Córrego do Feijão estourou”, disse Carolina de Moura.

O autor do relatório, Paulo França, deixou a Vale um ano depois de apresentá-lo e agora trabalha como consultor do setor. Procurado pela Reuters, ele não comentou. A Vale também informou que não iria comentar. (Reuters)