Turismo

Aos pés do Pico da Bandeira, Caparaó Mineiro é um destino de natureza e sabores

A região da Zona da Mata mineira se destaca por cafés especiais, empreendedorismo e paisagens deslumbrantes, atraindo visitantes ao Parque Nacional
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00
Aos pés do Pico da Bandeira, Caparaó Mineiro é um destino de natureza e sabores
Paisagens do Caparaó Mineiro combinam montanhas, mata preservada e o terroir que dá origem a alguns dos cafés especiais mais premiados do Brasil | Foto: Diário do Comércio / Daniela Maciel

O Circuito Pico da Bandeira reúne 23 municípios na região da Zona da Mata, na divisa com o Espírito Santo. Deles, quatro formam a Rota das Experiências do Caparaó Mineiro: Caparaó, Alto Jequitibá, Espera Feliz e Alto Caparaó que são vizinhas do Parque Nacional do Caparaó.

Fazem parte dos atrativos da rota: turismo rural, gastronomia, história, cafés especiais e o próprio parque, que abriga quatro dos 10 picos mais altos do Brasil: Pico da Bandeira (3º lugar), Pico do Calçado (4º), Pico do Cristal (7º), Pico do Calçado Mirim (10º).

Para o presidente da Agência de Desenvolvimento do Caparaó Mineiro, Ramiro Aguiar, a grandeza da região é, antes de tudo, construída pelas pessoas.

“O que é imperdível aqui são as nossas pessoas. São os anfitriões que contam as suas histórias, a ligação com o Pico da Bandeira e também com os cafés especiais. Os cafés especiais são o primeiro grande atrativo que as pessoas ouvem falar e vêm atrás. A altitude e as águas muito especiais garantem o grande diferencial do nosso terroir. Estamos no limite com o Parque Nacional do Caparaó, então, existe uma ligação entre a natureza e o café, um protegendo o outro. O café protege o parque do fogo, dos invasores, e o parque fazendo esse terroir tão diferente com as matas, as águas cristalinas e o ar puro que temos aqui”, destaca.

Criado em 1961 e com altitudes acima de mil metros, cachoeiras cristalinas e paisagens de tirar o fôlego, o parque oferece trilhas com variados graus de dificuldade e pode ser aproveitado de diferentes maneiras, desde passeios de poucas horas até o pernoite no camping.

E é justamente na altitude que surge outra grande riqueza do Caparaó Mineiro: o café. De um produto que não tinha valor comercial no início do século passado, até se transformar em um produto para exportação e hoje ser um dos principais produtores de cafés especiais do Brasil, o Caparaó conta uma história de empreendedorismo e resistência.

O pioneiro dessa história é fundador do Ninho da Águia, uma das marcas mais premiadas do País, Clayton Barrosa Monteiro. Ele assumiu, em 1996, a propriedade em Alto Caparaó que está na família há mais de 100 anos. No começo não produziam café por causa do frio e a produção era de caprinos e agricultura de subsistência. O café chegou apenas nos anos 1950, com muita dificuldade, e o café especial, no fim do século passado, com a chegada do produtor.

Clayton Monteiro
Clayton Monteiro conta que turismo e produção de café estão se igualando em importância | Foto: Divulgação Patrick Arley

“Por estarmos perto do parque, a vocação natural da nossa região é o turismo rural e o ecológico. Desde quando eu comecei a produzir café – mesmo sem saber que seriam cafés especiais – já visualizava o real potencial da região: o turismo. Mas como a produção do café era muito forte, o turismo foi ficando em segundo plano. Só agora as duas atividades estão se igualando. Foi um caminho natural a partir das premiações e hoje a principal receita da fazenda é a torrefação e receber os turistas na propriedade”, explica Monteiro.

O casal Dayane e Robson Xavier Lima propõe a experiência Centenas de Delícias, no Sítio Centenário, em Caparaó. A ideia é viver momentos de descanso e imersão cultural no mundo do café. Durante a vivência, o visitante aprende na prática a classificação física dos grãos ou “catação do café”, que consiste na retirada de impurezas e de grãos defeituosos.

“Não existe um pé de café que é especial. É o manejo, o trabalho que o agricultor faz em cima da plantação que vai tornar o café especial, mantendo o máximo de qualidade possível da hora em que tiramos do pé, porque ele é uma fruta, até o momento que beneficio esse café e empacoto para vender. Então, é uma planta normal e o que vai fazer o café ser especial são as nossas decisões”, ensina Dayane de Lima.

Mais que café, produtores plantam sonhos no Caparaó Mineiro

Em Alto Jequitibá, o “Café com sonhos” é uma celebração das conquistas da produtora Silmara Emerick que se tornou não só dona própria marca, como dos seus sonhos, com a ajuda do marido Charles, que trocou a cidade pela lavoura no Sítio Imperial da Serra.

Charles Lopes de Souza
A gente acaba tendo ideias e compartilha com os vizinhos, afirma Souza | Foto: Divulgação Patrick Arley

“Eu estudava ainda quando conheci o Charles, nos casamos em 2003. Ele não entendia muito de lavoura, mas eu não queria morar na cidade e ele topou vir pra roça, cuidar de um pedacinho de terra que o meu pai deixou. Moramos numa chácara por 11 anos e nossos filhos nasceram lá. Eu cuidava dos filhos e da parte das secas do café no terreiro. Eu sempre cuidei para o meu café ser bom, eu não gostava que a chuva o molhasse. Sempre produzi um café bebida dura aqui no sítio. Se o café molhasse, além de perder qualidade, também perdia valor. Hoje conseguimos ter vários sensoriais de café. É um trabalho que demorou muito porque começamos a separar as lavouras na roça para descobrir de onde estavam saindo aqueles cafés. Então fazemos todo esse processo para chegar a cada um desses sensoriais”, descreve Silmara Emerick.

Mas no Sítio Imperial da Serra tem mais coisa sendo produzida e ajudando os produtores vizinhos. A necessidade e o talento fizeram o produtor Charles Lopes de Souza também inventor.

“A demanda de ferramenta para um sítio pequeno e um sítio grande é a mesma coisa, é o mesmo lavador, o mesmo secador, mas a quantidade não é a mesma, só que o preço é o mesmo e isso dá diferença. Aí vem a adaptação. A gente acaba tendo ideias. E compartilha com os vizinhos. O lavador com descascador que adaptei já tem umas 600 cópias. Virou até solicitação de prefeitura. Do valor de mercado de R$150 mil, conseguimos fazer por R$ 30 mil”, relembra Souza.

E em Espera Feliz, a Caparaíso Coffe também carrega uma história de pioneirismo e propõe aos turistas um passeio de trator enquanto faz um jogo para testar os conhecimentos sobre os cafés especiais. O proprietário Anadson de Souza faz parte da quarta geração de produtores e introduziu os cafés especiais na propriedade em 2017.

“Sempre trabalhamos com café, mas o café especial começou por conta de uma encomenda. Trabalhei mais de 15 anos na portaria do Parque Nacional do Caparaó e lá eu tive uma encomenda de meia saca de café especial. Só que na hora de entregar eu perdi o contato do comprador e fiquei com o café preso aqui no sítio. Então resolvi empacotar e eu mesmo consumi esse café. Como commodity não dava para vender, porque deu muito trabalho. Só que por ser uma região turística, o pessoal descobriu que eu tinha esse café empacotado aqui e começou a vir comprar e falar que eu precisava erguer uma cafeteria dentro. Foi assim que começamos no ramo de cafeteria e turismo aqui no sítio”, conta Anadson de Souza.

Na mesma cidade, o proprietário d’A Cafeteria – um espaço que reúne sofisticação e tradição -, Frederico Ayres, recebe os visitantes no Sítio Santa Rita. Lá, o turista se sente um mestre de torra por um dia e sai com o nome no pacote.

“A gente está no município de Espera Feliz, que é Minas Gerais, mas quando a gente atravessa o rio, a 600 metros daqui, já é Espírito Santo. O turismo do lado Capixaba do Parque Nacional do Caparaó estava começando. E o turista que eu tinha do lado mineiro era o do Pico da Bandeira. Então, não tinha tanta gente circulando, não existia um turismo gastronômico, um turismo do café especial. Começamos a trabalhar com café especial em 2005, e só tivemos acesso ao mercado em 2012. Mas a gente insistiu. Essa é a primeira cafeteria com estrutura de fato, com serviço de cafeteria do Brasil que surgiu dentro de uma fazenda de café. Aqui a gente faz todo o processo, produção, torrefação, cafeteria e também temos três chalezinhos funcionando desde 2019”, enumera Ayres.

Paisagens de tirar o fôlego formam o cenário do Caparaó Mineiro

Acordar no Caparaó Mineiro é ter a certeza de um dia repleto de paisagens surpreendentes e gostosuras infinitas. Em Alto Caparaó, Lucas Huebra oferece um típico café da tarde emoldurado por uma visão de 360 graus a partir do 6º pico mais alto do Brasil: o dos Cristais. O pôr do sol do Cristal Mirante colore Alto Caparaó e Alto Jequitibá.

Mais surpreendente, talvez, seja ainda, a rara oportunidade de tomar café da manhã no espaço, quando as nuvens ainda encobrem a paisagem e vão descortinando aos poucos as maravilhas da natureza e do engenho humano no Caparaó Mineiro. A experiência deve ser ampliada no futuro, mas o empresário enfrenta a carência de mão de obra para levar o plano adiante.

“O Cristal Mirante é um sonho que nasceu em 2002. Sempre tive uma paixão pelo Pico da Bandeira que dá pra ver daqui. Um dia cheguei e vi essa paisagem maravilhosa e percebi que tinha que compartilhar com todo mundo. Assim, criamos o Cristal Mirante, o balanço e estamos melhorando a estrutura. Hoje temos o trabalho com o café no pôr do sol e a vista única da cidade para o Pico da Bandeira e toda a Cordilheira do Caparaó”, emociona-se Huebra.

Mirantes do Caparaó Mineiro
Mirantes da região oferecem vistas panorâmicas e se tornaram um dos principais atrativos do Caparaó Mineiro | Foto: Divulgação Patrick Arley

Entre as muitas opções para o almoço, o restaurante Dom José, em Espera Feliz, é um dos destaques gastronômicos de Pedra Menina, próximo à entrada do Parque Nacional do Caparaó. O chef Mateus Lacerda, que comanda a casa com vista privilegiada para as montanhas, tem uma proposta de culinária afetiva, com receitas que despertam memórias e ingredientes selecionados, em um ambiente elegante, acolhedor e reservado, unindo a história de um avô e um neto que nunca se conheceram.

“Meu avô dizia que queria receber as pessoas para viver uma experiência aqui no Caparaó. Ele não conseguiu realizar, mas deixou essa vontade implantada no coração da família. O tempo se passou e eu, neto dele, fui estudar gastronomia, me especializar e trazer para a região aquilo que meu avô sonhava. Eu estou muito feliz de estar realizando esse sonho, levando a história dele para as pessoas através do nosso cardápio, da nossa história. É um restaurante familiar. E a característica do nosso cardápio é ser de culinária afetiva, servimos pratos e memórias que eu tenho, referências das minhas avós cozinhando, os pratos que elas faziam nos domingos de almoço”, afirma Lacerda.

Depois de se especializar em escolas internacionais, aos 26 anos e com dez de experiência, ele quer ir além.

“Estamos construindo a nossa nova estrutura, um espaço bem aconchegante, amplo, uma cozinha conjugada com o salão, para as pessoas interagirem com a cozinha. Não queremos só oferecer comida para os nossos clientes, a gente quer oferecer cada vez mais experiências diferentes”, continua o chef.

Passear por Minas Gerais e não conhecer uma estação ferroviária é quase um pecado. Em Alto Jequitibá, explica o secretário de Cultura, Esportes e Turismo da cidade, Leandro Reis, a população resgatou a importância da ferrovia através de uma réplica.

A colheita faz parte das experiências oferecidas aos visitantes, que acompanham de perto a rotina das propriedades rurais | Foto: Divulgação Patrick Arley

“Tínhamos o povoado de Jequitibá, que depois se tornou distrito de Manhuaçu. Só em 1991, com o plebiscito, a população decidiu o nome de Alto Jequitibá. Em 2023, a Mariazinha, uma réplica de Maria Fumaça foi construída especialmente para a Praça da Estação, feita por um artesão local”, explica Reis.

E para fechar o dia e começar a noite com mais delícias e uma vista exuberante, em Caparaó, o Portal da Lua é imperdível. “Caparaoense nata”, a secretária de Cultura e Turismo da cidade, Andiara Machado enfatiza o potencial econômico da região para investidores no setor de turismo, especialmente no turismo rural e de base comunitária. Ela aponta que a região é abençoada por recursos naturais, águas límpidas e um microclima aconchegante, mas que carece de infraestrutura, com a necessidade de novos hotéis, pousadas e atrativos.

Réplica da Maria Fumaça
Réplica da Maria Fumaça resgata a memória da ferrovia e se tornou um dos cartões-postais | Foto: Divulgação Patrick Arley

“A nossa cidade é muito abençoada por estar aos pés da Serra do Caparaó. A natureza é muito bonita, as águas são muito límpidas. A nossa região tem um potencial natural muito importante e pulsante. O nosso principal turismo é o de base comunitária. Mas ainda necessitamos de infraestrutura em diversas áreas. Nós necessitamos de mais pousadas, hotéis e também de novos atrativos dentro da nossa natureza que é enorme. Então, as oportunidades para quem quer investir nesse setor são muito boas”, avalia Andiara Machado.

Múltiplos significados para a palavra “Caparaó”

Significado indígena: Traduzido como “águas que rolam das pedras”, devido às grandes nascentes e águas cristalinas do Parque Nacional, ou “a casa do rio torto”, pela teoria gramatical indígena associada aos rios locais.

Teoria folclórica: Uma narrativa popular mineira sobre três boiadeiros que subiram a serra para amansar e castrar um boi bravo chamado “Ó”, gerando o grito “Caparam Ó”. (A repórter viajou a convite do Instituto Mundu)

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas