Arrecadação de Minas cresce 4% até julho, mas resultado não indica avanço real da economia

Dados de julho de 2026 mostram alta nominal, porém especialista alerta que o desempenho fiscal não reflete crescimento efetivo da economia mineira
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Arrecadação de Minas cresce 4% até julho, mas resultado não indica avanço real da economia
Receitas tributárias sustentaram o avanço da arrecadação estadual no acumulado até julho | Foto: Gil Leonardi / Imprensa MG

A arrecadação do governo de Minas Gerais somou R$ 70,97 bilhões entre janeiro e julho de 2026, alta nominal de 4,03% em relação aos R$ 68,22 bilhões registrados no mesmo período do ano passado. Apesar de positivo para as contas públicas, o resultado ainda não permite afirmar que a economia mineira tenha crescido na mesma proporção em termos reais.

De acordo com o economista e professor dos cursos de gestão do Uni-BH, Fernando Sette Junior, arrecadação e Produto Interno Bruto (PIB) são indicadores diferentes. A receita do Estado é influenciada não apenas pelo nível de atividade, mas também pela inflação, pela composição setorial da economia, pelo comportamento dos preços e pela eficiência da fiscalização e da cobrança.

“O crescimento de 4,03% da arrecadação mineira entre janeiro e julho de 2026 é positivo do ponto de vista fiscal, mas não significa que a economia de Minas Gerais tenha crescido nessa mesma proporção em termos reais”, explica.

O dado mais favorável, segundo o professor, está na composição do resultado. A receita tributária avançou 4,53%, para R$ 64,52 bilhões, enquanto as demais receitas recuaram 0,70%, para R$ 6,45 bilhões. Dentro da arrecadação tributária, o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), principal fonte de receita do Estado, cresceu 4,69%, passando de R$ 48,21 bilhões para R$ 50,47 bilhões.

Na prática, o ICMS foi responsável por aproximadamente 82% do aumento de R$ 2,75 bilhões registrado na arrecadação total no acumulado do ano. A receita tributária, por sua vez, respondeu por praticamente todo o crescimento, enquanto as demais receitas tiveram pequena redução.

Para Sette Junior, essa composição é mais relevante do que o crescimento nominal isoladamente. “O aumento da arrecadação está sendo sustentado principalmente pelas receitas tributárias recorrentes, e não por ingressos extraordinários”, afirma.

Julho apresenta desempenho mais forte

O resultado de julho chama atenção. A arrecadação total alcançou R$ 9,46 bilhões, alta de 11,53% em relação aos R$ 8,48 bilhões registrados no mesmo mês de 2025.

O ICMS acompanhou o movimento e avançou 11,03%, passando de R$ 6,95 bilhões para R$ 7,72 bilhões. A receita tributária cresceu 10,17%, enquanto as demais receitas tiveram alta ainda maior, de 42,47%.

Para o professor do Uni-BH, o desempenho de julho precisa ser observado nos próximos meses antes de ser interpretado como uma mudança definitiva de trajetória. “Se esse movimento se mantiver nos próximos meses, poderá indicar uma melhora mais consistente da base econômica tributável de Minas Gerais, mas ainda não é possível concluir isso a partir de um único mês”, avalia o professor.

A cautela é necessária porque a economia mineira tem forte exposição a setores como indústria, mineração, agronegócio e commodities, além de estar sujeita ao ambiente econômico nacional e internacional. O cenário de juros elevados também permanece como um fator de pressão sobre a atividade.

Multas e juros crescem acima da arrecadação total

Outro destaque da arrecadação até julho está nas receitas provenientes de multas e juros. As multas somaram R$ 1,21 bilhão no acumulado, alta de 6,87%, enquanto os juros chegaram a R$ 571,7 milhões, crescimento de 9,65% sobre o mesmo período de 2025. Ambos avançaram acima da receita total, que cresceu 4,03%.

O comportamento, entretanto, não permite concluir, isoladamente, que houve aumento da inadimplência dos contribuintes. Segundo Sette Junior, os valores podem refletir pagamentos de tributos fora do prazo, regularização de débitos anteriores, ações de fiscalização e maior eficiência na cobrança. Além disso, o ambiente de juros elevados também pode aumentar os encargos incidentes sobre determinados débitos.

O comportamento da dívida ativa reforça a necessidade de cautela na interpretação. Enquanto multas e juros cresceram, a receita proveniente da dívida ativa caiu 17,86%, passando de aproximadamente R$ 916 milhões para R$ 752 milhões. “Não houve uma expansão generalizada de todas as receitas relacionadas à recuperação de créditos”, observa o professor.

Para identificar exatamente os fatores responsáveis pela alta de multas e juros, seria necessário detalhar a composição dessas receitas e verificar o peso da inadimplência, fiscalização, parcelamentos e regularizações.

Próximos meses serão decisivos

Dessa forma, para o professor do Uni-BH, a leitura dos números até julho aponta para um cenário de melhora fiscal, mas ainda não permite transformar o crescimento da arrecadação em uma medida direta de expansão da economia mineira.

A confirmação de uma trajetória mais favorável, porém, dependerá da manutenção desse desempenho nos próximos meses. “Agosto, setembro e outubro serão importantes para distinguir uma aceleração efetiva da base tributária mineira de um resultado excepcional concentrado em julho”, conclui o professor.

Sobre o autor

Juliana Sodré

Repórter do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo pela PUC Minas, com especialização em Imagens e Culturas Midiáticas pela UFMG.

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