Crédito: REUTERS/Bruno Domingos

Brasília – A rentabilidade dos bancos no Brasil seguiu trajetória ascendente em 2019, seu terceiro ano consecutivo de aumento, apoiada pelo crescimento de operações que são mais caras para pessoas físicas, como cheque especial, cartão de crédito e empréstimo não consignado, mostraram dados do Banco Central (BC) divulgados nessa quinta-feira (4).

Para este ano, contudo, o BC afirma que dados já apontam para uma queda da rentabilidade com um aumento nas provisões para fazer frente à esperada elevação da inadimplência.

Conforme o Relatório de Economia Bancária do BC, o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) do sistema bancário alcançou 16,5% em dezembro de 2019, ante 14,8% no mesmo mês de 2018.

Enquanto o ROE dos bancos privados fechou o ano em 17,2% (+1,1 ponto), o dos bancos públicos ficou em 15,6% (+2,8 pontos) e dos estrangeiros em 16,4% (+2 pontos).

A elevação foi contra prognóstico traçado pelo próprio BC, que havia estimado, após o ROE do sistema ter atingido 15,8% no primeiro semestre do ano passado, que a tendência à frente era de arrefecimento em função do esgotamento da redução das despesas de provisão e da expectativa de retração dos ganhos de eficiência operacional.

No documento, o BC apontou que a melhora na rentabilidade veio, sobretudo, com a retomada do crédito e alteração da composição da carteira priorizada pelos bancos, além do aumento das rendas de serviços.

Segundo o BC, os grandes bancos deram foco ao relacionamento com clientes pessoas físicas e pequenas e médias empresas, mirando produtos e segmentos com spreads mais elevados nos dois casos.

“As operações de cheque especial, cartão de crédito e empréstimo não consignado geraram cerca de 42% da margem de crédito líquida do total da carteira PF (pessoa física)”, disse o BC.

“Em contrapartida, essas modalidades corresponderam a aproximadamente 10% do estoque total da carteira PF, o que indica elevado nível de rentabilidade dessas operações”, acrescentou.

Sobre a receita com serviços, o BC apontou que houve alta de 7,5% sobre 2018, com destaque para receitas advindas do mercado de capitais (+70,1%), na esteira do aumento das comissões de colocação de títulos e rendas de corretagem.

Na comparação internacional, a rentabilidade dos bancos no Brasil em 2019 ganhou com folga da observada em países como Turquia (12,7%), China (12,3%), Alemanha (5,1%), Itália (3,9%), Estados Unidos (3,5%) e Índia (1,0%). Por outro lado, perdeu do ROE verificado no sistema bancário de países como Argentina (53,2%), México (20,6%) e Rússia (19,5%).

“Para 2020, espera-se maior pressão sobre a rentabilidade do sistema, com possibilidade de redução no volume de serviços prestados e de aumento de risco diante do cenário de incertezas e dos potenciais impactos da pandemia de Covid-19 na economia”, avaliou o BC.

Explicação – Em coletiva de imprensa, o diretor de Política Econômica do BC, Fabio Kanczuk, afirmou que os processos que têm feito os bancos elevarem sua rentabilidade nos últimos anos decorrem de ganhos de produtividade, por exemplo, ligados ao aumento do crédito concedido enquanto há redução do número de agências, digitalização de sistemas e implementação de programas de demissão voluntária.

“Isso gera mais rentabilidade e é ótimo. A gente não deve comemorar que a rentabilidade do banco caiu”, afirmou ele. “Objetivo do regulador é aumentar a competição, o que importa é a competição, não é algo positivo para o BC que os bancos percam dinheiro, não é esse o ponto”.

Os dados do Relatório de Economia Bancária, contudo, mostram que, em 2019, houve aumento das despesas administrativas acima da inflação, que ocasionou desaceleração da melhora de eficiência operacional.

Segundo Kanczuk, dados na ponta mostram queda “importante” da rentabilidade bancária este ano por conta dos efeitos da crise com o surto de Covid-19, e que isso decorre do aumento das provisões pela expectativa de inadimplência mais alta. (Reuters)

Concentração bancária registra leve queda em 2019

Brasília – O Banco Central (BC) também divulgou ontem que a concentração bancária no Brasil caiu levemente em 2019, com as cinco maiores instituições – Banco do Brasil, Itaú, Bradesco, Caixa Econômica Federal e Santander – detendo 81,0% dos ativos totais do segmento bancário comercial, contra 81,2% em 2018.

No relatório, o BC mostrou ainda que esse grupo passou a responder por 83,7% das operações de crédito no segmento, sobre 84,8% no ano anterior. Em relação aos depósitos totais, houve queda para 83,4% do total sobre 83,8% em 2018.

O ​diretor de Organização do Sistema Financeiro do BC, João Manoel de Mello, avaliou que o sistema é “moderadamente” concentrado no Brasil.

“O relevante, o que importa para determinação da taxa de juros e acesso ao crédito, em última instância para o bem estar social dos tomadores de crédito, é o grau de competição. É perfeitamente possível você ter sistema bancário razoavelmente, digamos, concentrado e muito competitivo”, disse ele.

Mello defendeu ainda que há expectativa de aumento de competição no País porque o BC segue com seu cronograma de projetos para tanto, independentemente da pandemia, o que abarca a implementação do ecossistema de pagamentos instantâneos brasileiro, batizado de PIX, e do open banking, para compartilhamento consentido de dados e serviços entre os bancos. (Reuters)

Endividamento de risco abrange 4,6 milhões no País

Brasília – Cerca de 4,6 milhões de endividados no Brasil devem a instituições financeiras mais do que podem pagar. É o chamado, pelo Banco Central (BC), de endividamento de risco, formado por casos em que há inadimplência, comprometimento de renda, empréstimos em várias modalidades e renda abaixo da linha da pobreza.

No Brasil, a população com carteira de crédito ativa atingiu 85 milhões de tomadores em dezembro de 2019. Desse total, 5,4% ou 4,6 milhões de tomadores estavam em situação de endividamento de risco, informou ontem o BC no Relatório de Economia Bancária.

Para fazer essa análise, o BC considerou como endividado de risco o tomador de crédito que atende a dois ou mais destes critérios: atrasos superiores a 90 dias no pagamento das parcelas de crédito; comprometimento da renda mensal acima de 50% devido ao pagamento do serviço das dívidas (pagamento de juros e amortizações do valor emprestado); várias modalidades de crédito simultaneamente: cheque especial, crédito pessoal sem consignação e crédito rotativo; renda disponível (após o pagamento do serviço das dívidas) mensal abaixo da linha de pobreza (R$ 439,03 mensais).

Perfil – De acordo com o relatório, o percentual de endividados de risco é crescente com a idade, atingindo 7,8% da população endividada acima de 65 anos, praticamente o dobro do observado nos tomadores com até 34 anos (3,8%). Ou seja, dos 12,4 milhões de tomadores de crédito com idade acima de 65 anos, 1 milhão eram endividados de risco (7,8%). Entre 34 a 54 anos, o percentual é 4,9%, e entre 55 e 65 anos, 7,2%.

Quanto à faixa de renda mensal, a classe dos tomadores com renda entre R$ 5 mil e R$ 10 mil é a que apresenta a maior parcela de endividados de risco, 6,5%. Até R$ 1 mil, o percentual é 5,7%, entre R$ 1 mil e R$ 2 mil, 4,7%, entre R$ 2 mil e R$ 5 mil, 5,6%, e acima de R$ 10 mil, 4,7%. (ABr)