Crédito: Bruno Domingos/Reuters

Brasília/São Paulo – O Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou nessa segunda-feira (16), em reunião extraordinária, medidas para facilitar a renegociação de dívidas bancárias ao afrouxar requerimentos que devem ser cumpridos pelas instituições financeiras, em uma resposta aos potenciais impactos do coronavírus sobre a economia brasileira.

Em uma frente, o governo dispensou as instituições de aumentarem o provisionamento no caso de repactuação de operações de crédito realizadas nos próximos seis meses. A estimativa do governo é de que aproximadamente R$ 3,2 trilhões de créditos sejam qualificáveis a se beneficiar dessa medida.

Em outra iniciativa, o governo ampliou a folga de capital do sistema financeiro nacional em R$ 56 bilhões, permitindo que a capacidade de crédito seja elevada em cerca de R$ 637 bilhões, de forma a dar espaço às renegociações.

“A primeira medida facilita a renegociação de operações de créditos de empresas e de famílias que possuem boa capacidade financeira e mantêm operações de crédito regulares e adimplentes em curso, permitindo ajustes de seus fluxos de caixa, o que contribuirá para a redução dos efeitos temporários decorrentes do Covid-19”, disse o Banco Central (BC) em nota.

A ampliação da folga de capital foi feita por meio da redução do Adicional de Conservação de Capital Principal (ACPConservação) que as instituições precisam cumprir, de 2,5% para 1,25%, pelo prazo de um ano. Depois desse período, a exigência será gradualmente restabelecida até 31 de março de 2022 ao patamar de 2,5%.

Na prática, a mudança expande a capacidade de utilização de capital dos bancos para que eles tenham melhores condições para realizar as eventuais renegociações no âmbito da primeira medida e de manter o fluxo de concessão de crédito, argumentou o BC.
“Ambas as medidas são proativas e facilitarão uma atuação contracíclica do Sistema Financeiro Nacional, que ajudará as empresas e as famílias a enfrentar os efeitos decorrentes do Covid-19”, disse a autoridade monetária.

Para Ricardo Gelbaum, presidente da Associação Brasileira de Bancos, que representa cerca de 80 instituições financeiras, o movimento é positivo, embora seja difícil precisar se ele será suficiente para impulsionar os financiamentos.

“As medidas são positivas para irrigar pessoas físicas e empresas, além de trazer confiança”, afirmou ele. “Mas ainda é difícil saber se os bancos vão emprestar. De qualquer forma, são medidas que vão atenuar um dano que certamente acontecerá”.

Compulsórios – As medidas do CMN anunciadas nessa segunda-feira (16) se somam à decisão recente do BC de reduzir a alíquota do recolhimento compulsório sobre recursos a prazo e de ajustar uma regra de exigência de liquidez das instituições, medidas anunciadas em 20 de fevereiro, antes de as preocupações com o coronavírus ganharem vulto no País.

Na ocasião, o BC disse que a iniciativa liberaria R$ 135 bilhões para a economia a partir de março, recursos que a autarquia disse esperar que fossem destinados ao crédito.

Em nota ontem, a autoridade monetária afirmou que as medidas vão “contribuir, nesse momento, para suavizar os efeitos do Covid-19 sobre a economia brasileira”. O BC destacou ainda que continuará monitorando a atividade econômica “e não hesitará em usar todo o seu arsenal para assegurar a estabilidade financeira e o bom funcionamento dos mercados”. Dentro do arsenal de instrumentos que podem ser utilizados, o BC destacou, por exemplo, medidas regulatórias e recolhimento compulsório, hoje em torno de R$ 400 bilhões, além dos US$ 360 bilhões em reservas internacionais.

O BC ressaltou também que o Sistema Financeiro Nacional tem atualmente “uma das mais robustas situações de solidez da sua história”, com nível de liquidez superior ao dobro do parâmetro mínimo exigido. (Reuters)

Moeda americana encerrou sessão com maior avanço percentual em um dia em quase 3 anos | Crédito: Rahel Patrasso/Reuters

Dólar fecha acima de R$ 5 pela 1ª vez na história

São Paulo – O dólar começou a semana em disparada, fechando acima de R$ 5 pela primeira vez na história e registrando a maior alta percentual diária em quase três anos, com o real entre os piores desempenhos globais seguindo um dia de fortes perdas nos mercados financeiros diante das dúvidas sobre a capacidade de bancos centrais e governos de lidar com a crise do coronavírus.

O câmbio doméstico foi afetado adicionalmente pelo salto nas apostas de corte mais agressivo de juros pelo Banco Central brasileiro amanhã, depois de o Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA), em novo movimento emergencial, derrubar o juro norte-americano para perto de zero no domingo.

Operadores – que poucos dias atrás quase zeraram apostas de corte de 0,25 ponto percentual da Selic nesta semana – não apenas retomaram essas posições como as intensificaram, com a curva de DI chegando a mostrar probabilidade de redução de 0,75 ponto percentual do juro básico.

Já o UBS vê corte ainda mais agressivo, de 1 ponto percentual, e diz que não há razão para o BC esperar até amanhã para anunciar sua decisão. “Também devemos esperar o anúncio de um programa de intervenção cambial mais estruturado”, disse o banco em relatório, nessa segunda-feira, assinado por Tony Volpon e Fabio Ramos.

Os sucessivos cortes de juros dos últimos vários meses reduziram a diferença entre as taxas pagas pelos títulos brasileiros e os papéis norte-americanos – considerados os mais seguros do mundo. Assim, o investidor estrangeiro tem tido menos estímulo para aplicar na renda fixa local, o que tem prejudicado o fluxo cambial e jogado contra melhora na oferta de dólar no País.

Inação do BC – Apesar do salto do dólar e da depreciação mais forte do real que a de outras moedas na sessão, o Banco Central não atuou no mercado com venda de swaps, dólar à vista ou leilões de linha, diferentemente dos últimos dias, ao longo dos quais utilizou as três ferramentas.

A inação do BC foi citada como componente para a alta mais forte do dólar na sessão. “Talvez o BC possa carregar a mão nas intervenções diárias”, disse Rafael Panonko, chefe da área de research da Toro Investimentos. “A inflação por ora está tranquila, mas pode subir agora com a corrida das pessoas aos supermercados, e esse movimento do câmbio definitivamente não ajuda. O BC deve fazer as duas coisas: cortar juro e defender o câmbio”, acrescentou.

O dólar disparou na sessão frente a várias divisas emergentes, com destaque negativo para o peso mexicano, e perdia 1,8% ante o iene, considerado porto seguro, em um movimento típico de um mercado avesso a risco diante dos temores sobre os efeitos econômicos do coronavírus.

A alta da moeda dos Estados Unidos (EUA) acelerou no fim da tarde conforme as bolsas de valores em Wall Street aprofundaram as perdas. O S&P 500, índice de referência do mercado acionário dos EUA, desabou quase 12%, enquanto o índice visto como um “termômetro do medo” em Nova York fechou em máxima histórica.

No Brasil, o dólar à vista saltou 4,86% no fechamento, a R$ 5,0467 na venda, nova máxima recorde nominal para um encerramento de sessão. No pico intradiário, a cotação foi a R$ 5,0700.

A alta percentual é a mais intensa desde a disparada de 8,15% de 18 de maio de 2017, data que ficou conhecida como “Joesley Day”, depois de o empresário Joesley Batista ter divulgado áudios do então presidente da República Michel Temer.
Em março, o dólar acumula alta de 12,62%, enquanto em 2020 a moeda se valoriza 25,76%. (Reuters)

Ibovespa volta a despencar com temor por desaceleração

São Paulo – O Ibovespa fechou em queda de mais de 10% nessa segunda-feira (16), renovando mínimas desde 2018, em nova sessão com circuit breaker, com as últimas respostas de autoridades aos efeitos da pandemia do novo coronavírus trazendo aflição de que a desaceleração nas economias será maior do que se vem projetando.

Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa caiu 13,92%, a 71.168,05 pontos. O volume financeiro somou R$ 52,87 bilhões, influenciado ainda pelo vencimento dos contratos de opções sobre ações, que movimentou R$ 21,36 bilhões.

O circuit breaker foi acionado às 10h24, após o Ibovespa cair 12,53%, a 72.321,99 pontos, o quinto do mês em meio à forte volatilidade nos mercados devido ao vírus e seus efeitos econômicos. Na mínima, o Ibovespa chegou a 70.854,82 pontos, queda de 14,3% e quase disparando um segundo circuit breaker na sessão.

O Federal Reserve e outros bancos centrais, incluindo o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco do Japão (BOJ), agiram de forma agressiva e emergencial com cortes de juros e ofertas de dólares baratos para ajudar a combater os efeitos da pandemia.

“O vírus está afetando profundamente as pessoas nos Estados Unidos e no mundo”, disse o chairman do Fed, Jerome Powell, no domingo, após reduzir a taxa de curto prazo para uma faixa de 0% a 0,25%, e anunciar pelo menos US$ 700 bilhões em Treasuries e compras de títulos garantidos por hipotecas nas próximas semanas.

“A decisão inesperada do Fed acabou gerando uma nova onda de pânico no mercado”, observou o analista de ações Rafael Ribeiro, da Clear Corretora. “Esse senso de urgência acabou intensificando a hipótese de que a desaceleração da economia por conta do coronavírus será mais forte do que o projetado, como os impactos no sistema financeiro, em especial pelo lado do fluxo de crédito, pode ser mais profundo”.

Em Wall Street, o S&P 500 fechou em baixa de 11,98%, também tendo parado os negócios momentaneamente em razão de circuit breaker.

A equipe do Credit Suisse observou que o mercado parece estar mais cético e “preocupado que essas medidas não serão suficientes para conter o real impacto econômico causado pelo coronavírus, o que pode indicar o início de uma semana ainda bem volátil”, conforme nota a clientes da corretora do banco.

No Brasil, agentes financeiros monitoram o Banco Central (BC), principalmente a possibilidade de um corte nesta semana na taxa Selic, atualmente em 4,25% ao ano.
Economistas do UBS, porém, em relatório a clientes ontem, afirmaram acreditar que os últimos desdobramentos justificam um movimento mais agressivo e preventivo pelo BC. “Nós agora estimamos um corte imediato de 1 ponto percentual, levando a Selic para 3,25%”, afirmaram. (Reuters)