Mercado avalia que em torno de R$ 226 bilhões poderiam retornar para as ações brasileiras no próximo ano em cenário favorável - Crédito: Amanda Perobelli/Reuters

São Paulo – Dados de fluxo no mercado secundário de ações no Brasil mostram uma figura pouco animadora sobre a movimentação dos investidores estrangeiros na bolsa paulista neste ano, mas gestores consideram equivocado usar esta imagem como sinalizador do sentimento dos “gringos” em relação às ações de companhias brasileiras.

De acordo com a B3, as saídas no segmento Bovespa superam as entradas em R$ 41,76 bilhões no ano até o dia 17. “Eles não estão fugindo do Brasil”, disse à Reuters David Cohen, da Paineiras Investimentos, explicando que o que tem ocorrido pode estar ligado a uma simples adequação de portfólio, uma vez que a valorização da bolsa fez aumentar a participação de papéis brasileiros nas carteiras.

Em 2019, o Ibovespa, referência do mercado acionário brasileiro, que tem em sua composição as ações mais líquidas da bolsa, acumula até o momento mais de 30% de valorização, desempenho que vem após três anos seguidos de alta, sendo 15% em 2018, 27% em 2017 e 39% em 2016.

Cohen acrescentou que, de fato, quem está mais animado e se mexendo mais rápido para alocação em bolsa são os investidores locais, por vários motivos, sendo o principal deles a questão que os juros nunca estiveram tão baixos nos País, mas ressaltou que as vendas de estrangeiros não estão ocorrendo por pessimismo com o País.

“Eles estão vendendo, pois a performance do Brasil foi muito boa”, reforçou, destacando que a carteira de estrangeiros superava R$ 1,4 trilhão até novembro, contra R$ 1,15 trilhão no fechamento do ano passado.

O fluxo para fundos de investimento em ações brasileiras no exterior referenda tal premissa, uma vez que acumula saldo positivo de US$ 817 milhões no ano até 11 de dezembro, conforme números compilados pela equipe de estratégia do Itaú BBA em relatório na última semana.

Mercados emergentes – Uma pesquisa do JPMorgan com fundos globais que investem em mercados emergentes via o índice acionário MSCI EM também mostrou o Brasil na segunda colocação quando observado posicionamento overweight – ficando atrás apenas da Rússia, conforme relatório a clientes no começo do mês.

Florian Bartunek, da Constellation Investimentos, ressaltou também que, quando considerada a participação dos estrangeiros nas ofertas de ações, a soma fica quase neutra, embora admita que é menos do que o esperado, o que ele atribui ainda à falta de crescimento do Brasil e ruídos políticos, entre outros.

Dados mais recentes disponíveis na B3 mostram que os investidores estrangeiros responderam por uma fatia de cerca de 40% das ofertas de ações de empresas brasileiras neste ano até o final de outubro, equivalente a R$ 25,5 bilhões. Tais dados, contudo, não contemplam várias ofertas entre IPOs e follow ons realizadas ainda em outubro, novembro e dezembro.

“Com a economia mostrando sinais de crescimento, esse fluxo (no segmento secundário) volta a ser positivo no ano que vem”, estimou.

Tal prognóstico é endossado por Carlos Sequeira, do BTG Pactual, que afirmou em relatório recente que um crescimento mais forte da economia poderia finalmente direcionar fluxos de estrangeiros para o Brasil, mas que a situação dos mercados globais será importante para determinar o apetite a emergentes.

“Assumindo que a alocação retorne aos níveis de 2014, pouco antes da reeleição da presidente Dilma Rousseff, e com base nos patamares de ativos sob gestão atual de todas as categorias de fundo, nossa conta de balcão estima que R$ 226 bilhões poderiam fluir para as ações brasileiras”, afirmou. (Reuters)